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Reflexões críticas sobre o ser e o Deus
Vinicius D. L. Salum - Publicado em 25.06.2007
Num desses instantes de súbita manifestação da razão apriorística, quase que imerso numa epifania, meu pensamento se deparou com a seguinte pergunta: quem sou eu? Parecia idéia fixa desde então. Coisa de demente, confesso. Não consegui mais me desvincular desse incômodo - é a necessidade da busca, que acomete as mentes mais atordoadas e menos satisfeitas.
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Escorei-me no filósofo para continuar de pé, para tentar responder à incógnita e sair, talvez, da inquietude: “Todo o meu saber consiste em saber que nada sei”. Portanto, sou um ente que nada sabe e, conquanto não tenha sido este o escopo maior do ilustre Pensador, percebe-se claramente que nada saber é nada ser, é ser vago, vão, o vácuo em si.
No entanto, não poderia eu concluir minha fórmula numa negação de mim. E a capacidade de pensar? Há ainda agitação neste ser! Não posso reduzir-me ao limite da não existência, seria negar, até mesmo, o pouco que escrevi até agora. Logo, fui buscar alento no pensamento mesmo, na pedra angular do conhecimento Cartesiano: “Penso, logo existo” – primeiro alicerce no grande edifício do logos. Quando no mínimo, porquanto existo (estou aí – na fenomenologia do Dasein), há em mim alguma capacidade de pensar, não sou um nada, senão algo a mais que um nada: um muito pouco. Foi a minha humilde conclusão: sou muito pouco (é como o Ser-para-si, proposto por Jean Paul Sartre).
“Sou muito pouco”. Esta não é uma conclusão acima de qualquer suspeita, mas, ao contrário, é a síntese de mim, feita por mim, para mim. A parcialidade aqui é premente e condicionada. Desde já reconheço a minha não neutralidade valorativa. Quem seria o cínico infeliz capaz de afirmar a existência da neutralidade axiológica? Pelo menos neste mundo dos homens encarcerados, desacredito haver quem o afirme e quem o seja.
Porém, a contrario sensu daquilo que era meu desejo primeiro, não me dei por satisfeito em responder à pergunta de outrora. Um abismo chama outro abismo, uma pergunta outro questionamento.
Sou muito pouco. Por quê? Os "porquês" são necessários, não podemos fugir dessa terrível sina. Esta é a matéria-prima do ser pensante, é o plus que leva às conclusões acertadas no notável mundo do conhecimento intermitente. Daí ocorre a percepção de uma provável contradição em meu pensamento, pois como pode o muito ser pouco sendo muito? O inverso também representaria um despropósito. Assim, é possível o pouco ser muito sendo pouco? O muito exclui o pouco e o pouco o muito. São termos oxímoros, imiscíveis: são luz e treva. Estou ainda na penumbra, então. Portanto, não posso permanecer, a priori, com esta conclusão paradoxal por seu próprio conteúdo terminológico. Preciso de uma luz. Devo escolher, entre ambos, um advérbio apenas. Preciso, por enquanto, lançar um deles no fundo do esquecimento. Assim: sou muito ou sou pouco?
Voltando ao princípio do incômodo e do primeiro alento aparente, sem, contudo, desconsiderar a importância elucidativa deste provável engano, o filósofo grego nos deve explicações maiores. Quando consideramos sua penetrante frase isoladamente, longe do contexto em que inserida, tomando por base a difusão popular inerente agora a ela, ou seja, analisando o Sócrates sob os auspícios do senso comum, podemos tecer algumas indagações. O eloqüente Conhecedor tinha uma visão de si pautada no muito ou no pouco? Em suma: o que Sócrates achava de si mesmo?
Alguém que afirme que todo o seu saber se resume em saber que nada sabe pode revelar uma humildade singular, como ente que reconhece conscientemente as suas limitações, ainda que genuinamente saiba muito. E quem muito sabe, muito é. Por outro lado, tal declaração pode esconder uma hipocrisia latente, daquele indivíduo que declara não saber, por uma falsa modéstia, veementemente acredita consigo mesmo que muito sabe, mas, de fato, está perdido. Coitado, tem pouca sapiência. Diria que pouco saber é verdadeiramente pouco ser. Num ou noutro caso, eu teria de percorrer a inefável mente do Pensador para achar o nobre tesouro, ou sua podridão. Não sou onisciente, portanto, sei que nunca saberei responder aquela interrogação.
Mas a caminhada continua, posso me valer de deduções para analisar as nuances da indagação. Jogando o “pouco” no abismo, ao menos por enquanto, o que sucede quando sustento saber muito? A afirmação em si já guarda um ar de pseudomodéstia, e “a falta de modéstia pressupõe carência de valor”. O ser muito acima da estrita necessidade, mais que suficiente. É o homem em seu ser completo, sua capacidade autônoma e irrevogável, sem limites (o Ser-em-si de Sartre). Será que somos donos de uma sabedoria ilimitada? – e aqui transfiro a responsabilidade para a primeira pessoa do plural, conquanto meus ombros não suportam o mundo. Temos a capacidade, como humanidade racionalista, de auto-sustentação por meio de nossos próprios esforços, ou tudo isso é uma farsa de nossa cobiça incontrolada? Sabemos muito de fato, ou afirmamos isso por mero egocentrismo? Não há que se falar em respostas (e estas são incontroláveis) sem analisar, ao menos, o caminhar da história humana até o porvir. E assim não podemos olvidar que a humanidade parece pensar que sabe alguma coisa, quando, deveras, está obscurecida por sua própria racionalidade avariada. Ao ser humano é inerente o encher-se de si. E já disse Santo Agostinho que o orgulho não é grandeza, senão inchação, pois o que está inchado parece grande, mas não tem saúde. “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos”. E isto é flagrantemente evidente.
É prescindível uma análise minuciosa da conjuntura mundial para se chegar a esta conclusão. Se olharmos um pouco para os lados, tentarmos enxergar um palmo além do nosso próprio nariz, ou esquecermos por um instante nosso maravilhoso umbigo, fatalmente ficaremos perplexos e, se ainda existir algum resquício de bom senso em nossa mente, veremos as larvas da sociedade em decomposição, sentiremos o cheiro da putrefação e, provavelmente, desmaiaremos! Salvo aqueles míseros homens que já acostumaram com o mau cheiro, por óbvio.
Achamos que muito sabemos e somos, e vivemos atualmente numa crise dos conceitos, numa crise institucional da família (base da sociedade), sem remorsos. Presenciamos o velório do pudor, e os valores éticos e morais, outrora absolutos, estão na UTI, enquanto sábios doutores do conhecimento, nossos venerados homens, esperam ansiosos pela morte dos tais e conspiram neste sentido. Estamos de todo perdidos, e insistentemente tentamos achar o maravilhoso "norte" com a nossa bússola quebrada. Atônitos, muitos tecnocratas afirmam o grande progresso da humanidade, o caminhar acelerado em direção à perfeição de ponta. Não menos perplexos talvez, os cientistas se cobrem de descobertas inacreditáveis, que são a presentificação do tão esperado futuro de paz, amor e felicidade. Os filósofos hodiernos continuam sustentando a tese de Nietzche: “Deus está morto” - como a grande carta de alforria do ser humano, sua liberdade incondicional em direção à conquista da razão pura, o ser muito, em consonância com a desejada sapiência autônoma. O mundo, sob as bases da festejada “ideologia pós-moderna”, o caminho da incomensurável liberdade ontológica, da quebra dos paradigmas aprisionadores e dos absolutos, nos têm levado de mãos atadas para o caos. Mas, a despeito de tudo isso, persiste a vaidade do “muito” ensimesmado. O muito saber revelou a perdição do muito ser: mera aparência de autonomia existencial. Hipocrisia lamentável.
Resgatemos então o pouco, lá do fundo do poço. É hora de mudarmos o advérbio, partirmos para a segunda opção. E, desde já, considerando que sei pouco (agora em primeira pessoa do singular, posto que esta carga é suportável), não vejo nisto vício, pelo menos de plano. Revela-se, ao contrário, a modéstia de um ser em condição naturalmente limitada e esta consciência de si. O saber pouco revela uma incompletude, incapacidade ontológica. É o atavismo da insuficiência. Contudo, não quero precipitar-me neste caminho virtuoso simplesmente por sua aparência salutar. O pouco saber pressupõe o pouco ser e vice-versa, de modo que o não ser por completo é falso ser: é apenas estar (passageiro, destarte).
É preciso algo a mais de um simples “pouco”, pois este não é autonomamente suficiente, haverá sempre a falta, a lacuna insuprível, e é neste buraco que corro o risco de cair. Os suicidas tinham razão? A única saída é o niilismo? Não haveria esperança para o pouco de mim, pois seria sempre o pouco de nós, da humanidade fadada ao fracasso total, do desespero inerente e irremediável. Saber pouco é ser pouco, ser insuficiente, ser dependente de algo não intrínseco a si mesmo: é a lástima do pessimismo exacerbado. A humanidade, por outra direção, voltou-se para si, num ser limitadamente incompleto e sem solução.
Onde anda a esperança dos corações humanos mais exaltados? O desespero chegou ao mesmo tempo em que a paixão sufocou o amor e usurpou sua condição de sentimento perfeito. Esperança transitória, pois paixões são intensas, porém efêmeras. “Não podemos evitar as paixões, mas podemos vencê-las”. E os nossos psicólogos, profundos conhecedores da psique humana, são os donos do divã inútil, no qual está assentada nossa exorbitante infelicidade. A Sociologia assiste a crise do modelo familiar tradicional, não como uma perda, mas como simples fato e sinal de liberdade (progresso), enquanto pais, separados (ou divorciados) e infelizes, morrem às punhaladas dos filhos, rebeldes e também infelizes. Liberdade liberticida! Isto é verdadeira libertinagem.
“As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer”. É o saber escasso do ser pouco, pequeno, sem rumo, sem prumo e expectativa: “A vida apenas, sem mistificação”. Assim caminha a humanidade, vestida de preto pelas ruas ofuscadas, onde a fumaça dos escapamentos, das chaminés e queimadas, e dos cigarros não deixam ver a luz no fim do túnel. E que túnel pequeno, diga-se de passagem! Mas continuamos a sustentar uma vida politicamente correta, evitando sofrimentos maiores, nesta vida sem maiores novidades.
Que insuportável incômodo! Ser muito ou pouco ser? Em ambos não há conclusão de fato virtuosa. O muito sem o pouco é calamidade, o pouco sem o muito é desespero. E a junção parece incompatível!
Sigo, portanto, com mais essa ansiedade. Minha vida é um complexo de anseios, e estes são a energia própria que me faz caminhar em busca de alcançá-los. Meu intento maior é a felicidade plena, ou seja, ausência de vontade. Logo, lógica e necessariamente, devo afirmar que meu maior desejo é utilizar minha própria vontade para não ter mais anseios. Todavia, tudo se resume nisto? Todo homem é um fim em si mesmo (suficiente ou insuficiente)? Se a nossa fluida existência e, a partir daí, a nossa pobre esperança se resume a esta vida apenas, somos homens intrinsecamente infelizes.
No entanto, o grande “porém” aqui se revela! Há algo a mais nesta vida, um ser que encerra existência em si, acima dos nossos caminhos e pensamentos, além do que podemos alcançar: o verdadeiro Ser. É talvez, a esperança do pouco. O revolucionário Mahatma Gandhi já o disse racionalmente: “Há um poder misterioso e indefinível que tudo circunda, eu o sinto, ainda que não o veja, e, no entanto ele desafia toda a minha demonstração, porque é tão diferente de tudo que percebemos com os sentidos. Ultrapassa-os, mas é possível raciocinar sobre a existência de Deus”.
Aqui encontro a pedra fundamental: a existência da pessoa do Divino. Alguns criacionistas o entende como um “deus filosófico”. Mas é óbvio que o Ser não pode se resumir numa força transcendental meramente, ou uma energia em ação, pois não há pensamento em energia ou força, portanto, não haveria existência verdadeiramente em si nesta potencialidade. Deus existe (como pessoa)! Prefiro acreditar que errou Darwin e errou Nietzche. Prefiro olhar humildemente para o alto. Conclui Abraham Lincoln: “Acho possível que um indivíduo contemplando a terra, se torne ateu. Parece-me inconcebível que, esse mesmo indivíduo, ao olhar para o céu, possa dizer que não existe um Criador”.
Quão sobremodo incomparável é este caminho, ao sopro do Deus tudo volta ao seu lugar, sem incômodo, ressalvo. Pois o enlace do muito no pouco faz surgir o muito pouco: eu (nós). Não há contradição aqui.
Logo, retorno à minha precípua conclusão com satisfação. Sou realmente pouco, e este ser pouco é insuficiente, de maneira que pouco ser não é ser completo, é mero estar. Contudo, Deus é. E este Ser inexprimível (Criador) é o que faz o muito de mim: o muito do pouco (criatura). A humanidade precisa de Deus. Já preleciona o Apóstolo Paulo em sua primeira epístola aos Coríntios: “não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma cousa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus”. Devo estar sempre no “Ser-muito” para não cair no vácuo da existência. Pois, não obstante a minha insuficiência premente em ser por meio de minhas próprias forças, através do Ser de Deus eu consigo algo além do mero estar. Alcanço o ser muito pouco, ou o ser pouco muito, porquanto a ordem dos fatores, nesta realidade, não altera o resultado indizível: ser em Deus.
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