Shrek: uma desconstrução dos clássicos - Shrek apresenta a história de um ogro que precisa libertar uma princesa, Fiona, e fazê-la casar-se... < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Jair Zandoná - Publicado em 02.04.2007

O aparecimento dos contos confunde-se com a tradição de narrar histórias. O conto, por sua vez, nasceu do mito e

Isto demonstra que essas histórias não são apenas criação da imaginação, mas nasceram de acontecimentos reais que o povo recolheu e guardou e que mais tarde formaram, na base a moral das sociedades1.

  Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos
 


 

Partindo desta afirmativa, há a subdivisão do conto em Contos de fadas. Etimologicamente, “fada” é flexão de fatum — fado — ou destino do homem. Na verdade, nasce da concepção mais trágica e íntima da alma humana. As fadas, com seus objetos encantados gratificam seus escolhidos. Há, entretanto, a partir da Idade Média, a vertente da “maledicência” envolvendo as fadas: as pessoas eram castiças por algum feito seu ou de seus pais e deveriam carregar consigo este fado pelo transcorrer de suas vidas sofredoras.

Mas foram os irmãos Grimm, no século XIX, que transformaram os contos de fadas. Reavivaram os encantamentos, as metamorfoses, as transformações, encantos e poções.

Vale lembrar que a característica principal do conto de fadas é a presença do maravilhoso, do caráter imaginativo, geralmente com formas não-realistas. Segundo Lúcia Góes2, acerca do conto de fadas,

A presença do maravilhoso é sua característica fundamental. Depois as personagens, em geral, poucas e apresentando grande unidade, às vezes crianças, outras jovens em idade de casar. Podem proceder de uma cabana muito pobre ou de um faustoso palácio encantado. Sua origem, as características que as distinguem, o modo como atuam são sempre extremamente exageradas. Ou são excessivamente boas, ou medrosas, belas ou tragicamente feias, ou perversas ou covardes ou valentes e nobres; ou são anõezinhos ou gigantes, bruxas ou princesas, reis disfarçados de mendigos ou mendigos convertidos em reis e cavaleiros.

Do conto de fadas clássico, pode-se transitar para um evoluído, diferente: História Meio ao Contrário3, de Ana Maria Machado. Do conto “fora dos padrões” até então seguidos, é possível, tranqüilamente, transitar para uma produção fílmica dos contos de fadas: Shrek.

Shrek apresenta a história de um ogro que precisa libertar uma princesa, Fiona, e fazê-la casar-se com um nobre, Lord Farquaad, para que, então, veja seu pântano livre das personagens de contos de fadas que, banidos do feudo, alojaram-se em frente ao seu sossegado lar.

De forma irreverente, o filme começa como se narrasse um conto dos clássicos infantis:

Era uma vez uma linda princesa. Mas havia um terrível feitiço sobre ela que só poderia ser quebrado pelo primeiro beijo de amor.
Ela foi trancafiada num castelo guardado por um terrível dragão que cuspia fogo.
Muitos bravos cavaleiros tentaram livrá-la dessa horrível prisão, mas ninguém conseguiu.
Ela esperou sob a guarda do dragão no quarto mais alto, da torre mais alta, por seu verdadeiro amor e pelo primeiro beijo de seu verdadeiro amor.


Mas esta forma de narrativa é interrompida justamente com as palavras que seguem de Shrek “Ah, como se isso fosse acontecer, que monte de...” é a partir deste instante que o reaproveitamento dos vários clássicos infantis mundialmente conhecidos é efetivamente realizado.

Dessa forma, há, em Shrek, a desconstrução do conto de fada clássico. Para melhor elucidar o termo desconstrução elaborado por Derrida, seguem algumas palavras Furlanetto4

O projeto de Derrida, conforme foi explorado em vários trabalhos, era examinar as bases sobre as quais repousa a concepção ocidental da racionalidade. [...] Isto, em última análise, significava descobrir aporias, pontos cegos, contradições em todo o aparato teórico-científico que compunha nossas formas de olhar e compreender o mundo – em outras palavras, abalar os alicerces de nossa cultura ocidental, fazer refletir sobre sua construção.
Desconstrução não deveria aparecer como sinônimo de destruição; tratava-se de problematizar as dicotomias vigentes nas diferentes ciências [...]. Espera-se, pois, de um desconstrutivista que exerça uma leitura “crítica” – também passível de desconstrução.


Seguindo com o enredo, Lord Farquaad só se tornaria rei ao casar-se com uma princesa. Para isso, ele utiliza-se do espelho mágico de Branca de Neve, que lhe oferece, em estilo de programas de auditório, três belas candidatas das quais pode escolher uma: Cinderela, Branca de Neve ou a solteira número três, princesa Fiona.

Chegou a hora de conhecer as candidatas a noiva de hoje. E aqui estão: a candidata número um é uma moça que foi presa em um reino muito distante. Gosta de sushi e banhos quentes. Seus hobbies incluem cozinhar e limpar para suas duas irmãs más. Uma salva de palmas para a Cinderela.
A candidata número dois é uma garota (...) da terra da fantasia. Embora viva com outros sete homens, ela não é fácil. Basta beijar seus lábios congelados para descobrir que moça cheia de energia ela é. Vamos, aplausos para Brande de Neve.
Por último, mas também muito especial, a candidata número três é uma ruiva ardente de um castelo guardado por um dragão cercado pr lava. Mas não deixe que isso te esfrie. Ela é um estouro! Gosta de linhas coladas e passear no meio da chuva. Esperamos que aplaudem princesa Fiona... Então, será candidata número um, número dois ou número três?


Farquaad promete tirar os seres mágicos — vale ressaltar que Farquaad queria um reino perfeito, isso implicaria na eliminação de todos aqueles que não condiziam com o ”padrão” — do pântano de Shrek desde que este fosse seu cavaleiro e buscasse a princesa Fiona para casar-se com ele. Shrek aceita o desafio e sai em busca do castelo guardado por um dragão. Lá Shrek encontrará Fiona.

Fiona espera que Shrek comporte-se como cavaleiro medieval, difundido pelos clássicos infantis. Entretanto, a cena distingue-se desde a forma como Shrek entra na torra, acorda Fiona e salva-a “das terríveis garras do dragão”:

- Acorde!
— O quê?
— Você é a princesa Fiona?
— Eu sou sim. Aguardo um cavaleiro corajoso que venha me salvar.
— Ah, legal! Agora vamos!
— Esperai, nobre cavaleiro! Encontramo-nos finalmente. Não deveria este ser um momento maravilhoso, romântico!?
— É... desculpe madame, não temos tempo!
— Espere! O que estai fazendo? Vós deveis me tomar em vossos braços, pular a janela e descer por uma corda até vossa bela montaria.
— Teve muito tempo pra planejar isso, não teve?
— Uhm... Mas nós devemos viver este momento. Você poderia recitar um poema épico pra mim, um cancioneiro, um soneto, uma estrofe, qualquer coisa!
— Eu acho que não!
— Bom! Pelo menos posso saber qual é o nome de meu campeão?
— Ah!? Shrek.
— Sir Shrek, rezo para que aceite este favor como prova de minha gratidão.
— Valeu!
— Você não matou o dragão?
— Tá na minha lista. Agora, vamos!
— Mas não está certo. Você deveria ter entrado com a espada numa mão e na outra um estandarte. Foi o que todos os outros fizeram.
— É... logo antes de ficarem torrados.
— Isso não vem ao caso!”


O clímax dramático envolve uma enorme cerimônia de casamento de Farquaad e Fiona, interrompida por Shrek garantindo um final que satisfaz a todos:

- Eu protesto! — diz Shrek.
— Shrek?
— Ah, agora, o que ele quer?
— Oi, pessoal! Estão se divertindo? Oi! Gostei muito de Duloc. Muito limpa!
— O que está fazendo aqui?
— Escute, já é falta de educação estar vivo quando ninguém te quer, mas aparecer num casamento sem ser convidado...
— Fiona, eu preciso falar com você!
— Ah, agora você quer falar. Bom, é um pouco tarde pra isso. Se me der licença...
— Mas não pode casar com ele!
— E por que não?
— Porque, porque ele só vai casar contigo pra se tornar rei.
— Mas que ultraje! Mas que ultraje! Fiona, não ouve...
— Ele não é seu verdadeiro amor!
— O que você sabe sobre verdadeiro amor?
— Bom, eu... quer dizer...
— Oh, que interessante... ih, ih, ih, um ogro se apaixonou pela princesa! Santo Deus...
— Shrek, é verdade?
— E daí, isso é ridículo! Fiona, meu amor, estamos apenas a um beijo do viveram felizes para sempre. Agora, me beija!
— À noite de um jeito; de dia, de outro. Eu queria lhe mostrar antes. (...)
— Bom, é... isso explica um bocado!
— Argh, que nojento, guardas, guardas, ordeno que os tirem de minha frente. Já! Levem os dois. O casamento está feito e isso me torna rei!
(...)
— Fiona!
— Sim, Shrek.
— Eu, eu te amo!
— Mesmo?
— Mesmo, mesmo.
— Eu também te amo!”
(Beijam-se)


Fiona terá o feitiço, finalmente, quebrado quando “achar meu primeiro beijo de amor verdadeiro e assumir a sua forma verdadeira!”. Ao proferir estas palavras desfaz-se o encanto e a princesa fica de uma só forma, não a esperada, transformando-se em humana para sempre, mas em ogra. Ela adquire definitivamente a forma do ser amado. A partir daí “viveram feios para sempre”.

Notas
1 - GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à Literatura Infantil e Juvenil. 2.ed. São Paulo: Livraria Pioneira,1991, p. 66.
2 - GÓES, 1991, p. 116.
3 - História Meio ao Contrário, como o próprio nome diz, conta a história de um reino que possuía um rei que desconhecia a transitoriedade entre o dia e a noite. E, por causa disso, propôs a mão de sua filha ao cavaleiro que desvendasse o mistério de “quem havia desaparecido com o sol”. Na realidade, o rei foi informado da existência do dia e da noite, a princesa não se casou com o príncipe, que, como não tinha nada para fazer em seu reino, saia em busca de aventuras.
4 - Maria M. Autoria: a recusa do impossível. Linguagem em Discurso, Tubarão, v.1. n.2, jan./jun 2001, p. 17.

Referências
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1997.
FURLANETTO, Maria M. Autoria: a recusa do impossível. Linguagem em Discurso, Tubarão, v.1. n.2, jan./jun 2001. p. 9-49.
GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à Literatura Infantil e Juvenil. 2.ed. São Paulo: Livraria Pioneira, 1991.
SHREK. Andrew Adamson Vicky Jenson (dir.). EUA, Universal, 2001, sistema NTSC/VHS, 93 min. Título original: Shrek. Dublagem Videolar.

Pôster do filme Shrek Ficha do filme Shrek
Título original: Shrek
País: Estados Unidos
Ano: 2001
Idiomas: inglês
Diretores: Andrew Adamson e Vicky Jenson
Roteiro: Ted Elliott, baseado na obra de William Steig
Gênero: Animação, Aventura, Comédia, Família, Fantasia, Romance
Elenco (vozes): Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, John Lithgow, Vincent Cassel, entre outros.
Baixe e assista o Trailer do Filme Shrek.
Duração: 90 minutos
Avaliação no IMDB: 8,0 (02.05.2007)


Pôster do filme Shrek 2 Ficha do filme Shrek 2
Título original: Shrek 2
País: Estados Unidos
Ano: 2004
Idiomas: inglês
Diretores: Andrew Adamson e Kelly Asbury
Roteiro: Andrew Adamson, baseado na obra de William Steig
Gênero: Animação, Aventura, Comédia, Família, Fantasia, Romance
Elenco (vozes): Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, Antonio Banderas, Julie Andrews, entre outros.
Baixe e assista o Trailer do Filme Shrek 2 .
Duração: 117 minutos
Avaliação no IMDB: 7,7 (07.03.2007)

Pôster do filme Shrek 2 Ficha do filme Shrek 3
Título original: Shrek the Third
País: Estados Unidos
Ano: 2007
Idiomas: inglês
Diretores: Chris Miller
Roteiro: Andrew Adamson, baseado na obra de William Steig
Gênero: Animação, Aventura, Comédia, Família, Fantasia, Romance
Elenco (vozes): Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, Antonio Banderas, Julie Andrews, entre outros.
Baixe e assista o Trailer do Filme Shrek 3.
Duração: 117 minutos
Avaliação no IMDB: 7,4 (07.03.2007)


  Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil Shrek 3 - Shrek: uma desconstrução dos clássicos Clássicos da literatura infantil
Recomende este artigo
Recomende o artigo "Shrek: uma desconstrução dos clássicos" de Jair Zandoná.