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Ramana Jacques - Publicado em 12.01.2007

A todo o momento buscamos planejar nosso futuro, construímos a imagem do vir a ser e seguimos retilíneos em busca da concretização do imaginário. A realização do que fora pensado nos dá a sensação de êxito, afinal de contas, o objetivo foi almejado. Isto ocorre em qualquer situação em que tenha havido um planejamento objetivando algo, nada mais
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natural. Nosso intento final é a busca pela felicidade, construir caminhos que nos levem a ela é legítimo.

Quando, por algum motivo, o planejado, o imaginado não ocorre, corriqueiramente temos a sensação de “estragou tudo”. Mas será assim mesmo?

Pois digo que não, provei a mim mesmo no final de ano de 2006. 23/12/2006, última reunião de trabalho do ano, para frente tudo planejado, recesso de dez dias e uma viagem pelo litoral piauiense em Parnaíba, passando a virada de ano em um paraíso chamado Jericoacoara, no Ceará.

Típico final de ano feliz, perfeito. Tudo anda bem, tudo ocorre como o planejado, depois de oito meses no sertão nordestino, dez dias de Oceano Atlântico a vista dos meus olhos.

Pois esse final de ano feliz seguiu inabalável até que chega o dia 29/12...

Armando a barraca para a segunda parte do final de ano feliz em Jericoacoara, recebo a última notícia que eu poderia esperar... Meu irmão, de vinte e nove anos de idade, no auge da vida, se foi, no mar de Ipanema (RJ)... A areia que estava sob mim se abriu e eu caí... Caí e não parei de cair... Nada de triste que eu já tenha passado, nada, nada de compara a este momento. A mais profunda tristeza e desespero me deixou inerte e minha tristeza... Nem sei. O que fazer neste momento? Em um lugar isolado, sem possibilidades de retornar ao Rio de Janeiro, decidi então subverter o planejado, subverter a perfeição imaginada.

Meu irmão era o mais perfeito símbolo da alegria, eu estava em um paraíso, lugar onde ele certamente se deslumbraria. Percebi então que o melhor que eu poderia fazer, por mim e por ele, era buscar ter o melhor final de ano da minha vida.

Foram três dias de intensidade, todas as emoções, tudo ao mesmo tempo agora, alegria e tristeza deixaram de ser contraditórios, conviveram quase que harmoniosamente. Digo que vivi uma catarse, uma catarse interior, não houve meio termo, tudo no talo, transcendendo a extremidade emocional possível, baseado no amor, o meu amor pela vida e o meu amor pelo meu irmão.

Os últimos dias de 2006 ocorreram completamente à margem do programado, mas nem por isso ele foi estragado. Se eu queria um fim de ano perfeito, eu tive os três dias mais memoráveis da minha vida. O futuro foi ali construído, não a priori, mas sim instante a instante, organicamente e apaixonadamente... E isso foi perfeito.

Estes momentos não se planejam, eles caem no seu colo. Se você vai jogar ele para o lado ou abraçá-lo é uma escolha própria... Eu decidi abraçá-lo e degustá-lo, não perdê-lo, senti-lo e torná-lo sublime.

Percebi que não existe um único momento possível, existem sim, momentos únicos. O nome deste momento? Suriam.

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