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Janos Biro - Publicado em 17.07.2007


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Apresentando a curva J do crescimento populacional humano:

Obs.: Role a tela para a direita.

Nós somos educados para pensar que a população humana sempre cresceu exponencialmente, e se não crescia antes, é simplesmente porque não havia condições para fazê-lo. Ou seja, o destino da humanidade sempre foi ter um crescimento populacional exponencial, ainda que nenhum outro organismo faça isso. Se as bactérias, por exemplo, não tivessem um limite de capacidade para seu crescimento populacional, nem sequer haveria vida além das bactérias. Mas nossa resposta simplória é "As bactérias são burras demais para isso". E no caso, nós deveríamos agradecer à burrice delas, que permitiu a vida na terra. Devemos então escolher entre ser mais inteligentes ou permitir que a vida não-humana seja livre para existir?

Bem, o que nossos brilhantes cientistas dizem sobre isso é que o limite de capacidade não se aplica à humanidade. Por quê? Boa pergunta. Eles dizem que a "criatividade" humana vai sempre ser capaz de lidar com o excedente populacional. Ela vez isso até agora, então vai fazer isso sempre. Não é um belo argumento? Pena que um dos mais criativos e inteligentes cientistas da nossa era morreu sem concordar com isso. E quais as conseqüências de deixar a torneirinha humana vazar sem parar? Não sei, acho que os cientistas estão felizes porque acham que aí vamos poder brincar de Star Trek!

O fato é que essa é uma tese extremamente complicada de defender, significa que não só nossa população aumenta exponencialmente, mas que nossas técnicas também avançam exponencialmente. Isso é verdade? Em que sentido adicionar "cabeças" faz nossas idéias avançarem cada vez mais rápido? Ao ver a rapidez com que a telefonia celular, por exemplo, tomou conta do mundo, tendemos a achar que o homem sempre vai inventar algo melhor em menos tempo do que da última vez. Em outras palavras: "Ainda que eu caminhe pelo vale das conseqüências dos meus próprios atos, nada temerei, pois a tecnologia está comigo". Se o telefone levou, suponha, 50 anos para se espalhar, e o celular levou apenas cinco anos, o próximo passo é que sete bilhões de pessoas adquiram a próxima tecnologia em seis meses, depois 20 dias, depois cinco dias, 12 horas... E assim por diante. Se você não vê essa possibilidade para a telefonia, imagina com a produção de alimentos. E a produção de comida é ainda o menor dos problemas, porque a população pode até se estabilizar nos países desenvolvidos. Mas a produção de bens de consumo não pode diminuir sem causar crise econômica global, e os países não podem se desenvolver sem produzir e vender mais. Não é estranho?

Malthus estava preocupado porque em sua época era difícil imaginar uma tecnologia que pudesse produzir comida na mesma velocidade em que se produzia gente. Essa tecnologia foi criada, mas uma coisa continua certa: não podemos avançar nossas técnicas de produção na mesma velocidade que a população, o que podemos fazer é reduzir o tempo e o custo imediato da produção, enquanto aumentamos o impacto ambiental. Quanto mais gente você tem, mais terá, enquanto houver comida. Mas quanto mais terras produtivas você tiver, não necessariamente mais terras terá, não importa quanto gente esteja envolvida nisso. É como um corredor que seja obrigado a acelerar indefinidamente. Ele acelerará cada vez mais até certo ponto, a partir desse ponto ele pode desacelerar ou dar uma arrancada final, e depois ficar totalmente exausto.

No tempo que nossa população levou para dobrar da última vez, nossas técnicas produtivas não dobraram sua eficiência. De fato, se contarmos apenas com a questão numérica, nós aumentamos a produção em MAIS que o dobro. Sim, isso não evitou que a fome crescesse, hoje culpamos a tal da má distribuição. Mas aumento quantitativo de produção NÃO é o único fator para se julgar o avanço de uma técnica. Por exemplo, não há dúvidas que podemos produzir duas ou três vezes mais do que produzimos hoje. A dúvida é: podemos sobreviver às conseqüências dessa produção? Podemos manter a distribuição? Tendemos a achar que a distribuição é um problema distinto do crescimento de produção, mas não é. Quanto mais produzimos mais complexa se torna nossa rede de distribuição, exige mais e melhor transporte de carga, o que exige avanço de outras técnicas que inevitavelmente se conectam a todas as técnicas humanas. Qual o impacto ambiental dessa produção e distribuição? Certamente podemos reduzir os nossos custos de produção, mas quanto aos custos para o ecossistema? Podemos aumentar a capacidade de absorção e regeneração de energia da Terra? Podemos aumentar a complexidade do sistema urbano indefinidamente, sem aumentar o risco de colapso? O ser humano está naturalmente adaptado a mudanças cada vez mais rápidas de ambiente social?

Mas vamos ser otimistas aqui. São apenas algumas malditas leis físicas, biológicas e econômicas para quebrar. Suponha que nós consigamos. Nesse caso, prepare-se para a lista de coisas que deverão aumentar como em todas as outras vezes que aumentamos nossa produção: necessidade de qualificação (20 anos de estudo serão pouco para o mais básico dos empregos), dependência tecnológica (não saia de casa sem ela, sob risco de morte), toxidade (produzindo cada vez mais e melhores venenos), desperdício (já desperdiçamos toneladas, e estamos batendo novos recordes a cada abo), desemprego (os empregos são mais complexos, porém exigem menos gente, não é ótimo?), erros fatais (Pane! Você não pode tornar um sistema mais complexo sem aumentar a freqüência e intensidade dos erros fatais. Milhões de casas derrubadas por causa de um número digitado por engano pode se tornar um evento comum), criminalidade e corrupção (ah sim, quanto mais complexidade e maiores os números, mais fácil roubar e enganar), controle coercitivo (quanto mais crimes, mais controle. Engraçado as o oposto não é tão diferente), poluição (quanto mais poluição, mais “consciência ecológica”, mas assim como no caso anterior, não resolve muito mais que os efeitos marginais).

Porém, podemos ser mais otimistas ainda, vamos supor que os robôs vão trabalhar para nós, não teremos que fazer nada. Será uma tecnotopia! Uau. Você sabe o que isso significa? Não teremos NADA para fazer. Só arte pela arte. Sem objetivo. Sem contexto. Que beleza será, quando a espécie humana for realmente desprovida de qualquer função natural, e viver apenas por viver, apenas por si mesma. Alcançando os mais altos graus abstração! Aí sim não terá mais nada que nos separe das células de câncer... E o mais interessante é que tem gente morrendo de vontade de ver isso acontecer.

Mas tudo isso é só especulação, a questão aqui é: Por que diabos o limite de capacidade não se aplica à humanidade? Alguém aí me dar uma explicação física ou biológica para como isso foi acontecer, ao invés de uma crença dogmática no avanço tecnológico? A única explicação que me dão é: o próprio avanço tecnológico! Mas aí que as coisas ficam sem sentido, parece uma piada. Não precisamos nos importar com o fato de estamos quebrando o limite de capacidade, porque se o quebramos até agora, podemos fazer isso indefinidamente...

- Ei, se continuar furando este balde d’água, a água vai vazar toda.

- Não se preocupe, estou fazendo isso há muito tempo, e isso nunca aconteceu, ele é bem grande e está continuamente se renovando. Na verdade o balde é mágico, não é com os outros, eu posso continuar furando ele indefinidamente, sacou? Ele nunca vai esvaziar.

- Saquei, você tomou muito Sol na cabeça, certo?

- Ah, você é um cético! Você não crê no balde mágico!

- Deveria?

- Deveria, pois eu creio e sou feliz! Você não crê e é triste.

- Ah, sim, eu deveria estar feliz sabendo que estamos jogando fora tudo que a natureza nos deu, mais ei, pelo menos vamos para o paraíso, certo?

- Certo. Eu não entendo sua ironia... Você se acha mais esperto que os outros, né?

- Só pode.

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