Gostosas gorduras versus saudáveis verduras
Antonio Brás Constante - Publicado em 27.11.2007
Na vida tudo é uma questão de pontos de vista, por exemplo, sempre me achei gordinho, até que descobri que na realidade eu era muito baixo para o peso que tinha. Dizem que os gordinhos são bem humorados, e isto talvez seja reflexo da alegria advinda de suas refeições, onde as calorias lhes transformam em pessoas mais calorosas.
Posso dizer de boca cheia que comer é um vício. Onde o viciado tem acesso ao seu veneno onde quer que esteja, com doses generosas de estímulo provenientes da televisão, ou da padaria da esquina. O que não falta na vida de um gordinho são conselhos de pessoas próximas e que, por serem amigas, procuram dissuadi-los a emagrecer através de palavras, mas alguns acabam se revoltando com esses conselhos, tentando negar seu pesado fardo (literalmente falando).
Ao contrário dos desvalidos sociais que nada tem, o gordinho é um eterno insatisfeito com o que ele tem dentro de si. O tormento de enfrentar esta dependência por comida ocorre durante todo tempo do dia, com seus picos nos horários das refeições. A pessoa olha para as massas, ao mesmo tempo em que encara as saladas, perguntando para si mesma se quer viver dez anos a mil ou mil anos a dez (veja bem, apenas “DEZ” calorias).
Tanto se fala em problemas de obesidade, enfatizando que a gordura causa isto e aquilo, mas esquecendo que a mente é a parte mais frágil deste processo. Pensem na depressão que muitos gordinhos sentem ao terem de comer verduras e similares, abrindo mão de habituais iguarias menos salutares. A luta que travam contra sua vontade de derrubar aquele prato cheio de coisas verdes e pedir uma ala minuta. O que era pra ser um ato prazeroso, passa a se transformar em um procedimento penoso, de ter que mastigar plantinhas indefesas que ficariam muito mais bonitas se expostas em um vaso ornamental.
Nos bufês encontramos aqueles pratos enormes, quase tão grandes quanto à própria fome, tendo de ser mal aproveitados, colocando-se neles apenas poucas colheres da comida que tanto desejávamos, passando fome para poder passar bem. Carregando em nossas bandejas algo que mais parece uma floresta de horrores, com todos aqueles vegetais saudáveis e indigestos, cujo sabor não lembra em nada uma deliciosa lasanha.
O ato de emagrecer vai se tornado deprimente, uma relação de amor e ódio entre nós e os alimentos. Ter que encarar a comida como um remédio (ingerindo doses corretas buscando obter apenas os nutrientes necessários), para não ter que tomar remédios contra diabetes, pressão alta, etc.
Por fim nos deparamos com as sobremesas, grandes parcelas de açúcar em formatos coloridos. A boca começa a salivar. Os olhos travam na travessa de pudim e se negam a olhar para qualquer outro lugar. O estômago que até então se mostrava vegetativo em todos os sentidos, revolta-se, exigindo como compensação uma boa e gigantesca taça de guloseimas. Diante de tal situação, muitos se rendem, recusando continuar com aquela benéfica tortura alimentar para abraçar a morte e todas as doenças que se escondem nos doces encantos do mundo dos doces.
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