Pastel de feira
Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 17.07.2007
Uma de minhas primeiras habilitações para pilotar veículos foi concedida por minha mãe, no início dos anos de 1960. Ela foi instrutora, verificadora e emissora de minha carteira de motorista de carrinho de feira!
Até que eu aprendi rápido, para alívio dos pés e tornozelos que ladeavam meu itinerário. Para protegê-los (e poupar meus ouvidos e os de minha mãe) eu até fiz alterações técnicas no sistema de condução do carrinho, mudando a posição do “sistema de tração” (em vez de puxar, passei a empurrá-lo). Sem saber, eu já estava me habilitando a pilotar veículos mais sofisticados: os carrinhos de supermercado, ainda raros naqueles tempos.
Veículos à parte, os dias de feira eram ansiosamente aguardados. O percurso era sempre o mesmo, já que minha mãe já era adepta da “fidelização” (raramente mudava de fornecedores). Graças a isso, recebia tratamento “vip”, na qualidade de “freguesa preferencial”, o que garantia pacotes prontos, com produtos “top de linha”, selecionados pelos próprios feirantes.
A barraca de batatas e cebolas era a primeira a ser visitada, pois as compras mais pesadas deviam ficar no compartimento inferior do carrinho. Era a mais sem graça, mas, no imaginário infantil, eu não as olhava como batatas e cebolas; eu já as via como: batata frita, purê, croquete recheado com carne moída, nhoque, acebolado de bifes...
O “setor de brinquedos” era pouco freqüentado, pois naquela época presente tinha dia certo: aniversário e Natal. O Dia das Crianças era um evento escolar, reservado apenas para passeios.
A barraca de frios, embutidos e afins também era a das gelatinas coloridas, que enchiam nossos olhos de cores, nossa boca de sabores e nossos dentes de cáries. Mas nem as diabólicas perfuratrizes dos arcaicos equipamentos dos consultórios escolares nos dissuadiam daquele prazer.
A barraca de frutas só era interessante quando tinha mexerica cravo (bergamotas). Graças a elas eu desenvolvi, intuitivamente, meu lado “zen”. Até hoje eu as descasco pacientemente, separo gomo por gomo, removo os filetes remanescentes de casca e tiro os caroços para, só depois, devorá-las.
Os vegetais não tinham o menor atrativo... Em compensação, ficavam muito próximos do ponto culminante do itinerário: a barraca de pastéis!
Ela ficava num beco e, para variar, era comandada por pais japoneses e filhos nisseis. O pastel de queijo era feito com queijo branco... muito queijo branco! Minha mãe comprava vários, também de carne. A única exceção era um, de palmito, que ela degustava como se fosse criança.
Quando mudamos de casa, por sorte, a barraca deles também integrava feira do bairro, e ficava bem na esquina de nossa rua. Os proprietários já estavam tão acostumados conosco, que qualquer um de minha família que fosse comprar os dez pastéis, que serviam de “mistura” para o almoço de sábado, trazia mais dois, de brinde!
Só havia uma coisa melhor do que aqueles pastéis: comê-los com caldo de cana! Essa fórmula era milagrosa, pois curava até dores de injeções e machucados. Santo remédio!
O tempo passou... Hoje eu vou raramente às feiras-livres. Creio que minha habilitação caducou e, para piorar, meus calcanhares não se entendem com o carrinho. As barracas de pastéis ainda estão lá, mas o gosto não parece o mesmo...
É curioso como os sabores e contextos da infância ficam em nossa memória. Creio que esse é o gosto da saudade...
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