Revolução Russa, 90 anos - As dificuldades
Mauro Luiz Barbosa Marques - Publicado em 15.10.2007
Uma revolução social e política ocorre quando se transmite o poder de uma classe esgotada para uma em ascensão. É um conceito básico do marxismo clássico.
Na Rússia soviética, o governo dos trabalhadores da cidade e do campo foi herdeiro do Estado aristocrático da antiga Rússia do Czar e já nasceu convivendo com fortes embates e sua sobrevivência, a partir de 1917, foi duríssima. Foi necessária uma resistência feroz contra a “classe esgotada” que ainda esboçava alguma reação. França, Inglaterra, EUA, entre outros cercaram a Rússia, como já foi observado. Estes países contavam com apoio contra-revolucionário interno, os chamados brancos, aqueles que combatiam os revolucionários vermelhos.
Enquanto a Revolução socialista não ocorria na Europa (Alemanha, em especial) era necessário resistir no seu próprio espaço territorial. Trotski foi um destacado combatente e organizador do chamado Exército Vermelho. Como presidente do Conselho da Guerra, Trotski viveu perto de dois anos pelos trilhos na imensa Rússia em seu trem blindado.
A partir de seu trem, Trotski ajudou a recompor um exército arruinado pela guerra, pela desmoralização e pela propaganda do capitalismo internacional. Os chamados insubmissos foram transformados em competentes regimentos: “conseguimos constituir tropas excelentes com destroços”. O Exército Vermelho, como diferencial, era um Exército com perfil político: assim foram convocados e convencidos quase cinco milhões de jovens a defender um mundo novo e uma nova realidade para seu futuro e de suas famílias.
Desta maneira, aos poucos o jogo foi virando favoravelmente para o lado dos soviéticos. Mesmo que a Revolução alemã não tenha vindo (e não viria mesmo), as tropas russas foram superiores numérica e politicamente em relação às tropas estrangeiras invasoras. O apoio dos camponeses no interior da Rússia também foi um fator importante, pois se o socialismo prometia a distribuição de terras, os invasores poderiam tomar de volta. Assim, a economia foi voltando-se para sustentar as atividades de Guerra Civil.
O historiador Pierre Broué ainda destaca o receio dos países capitalistas do contagio de suas tropas pelo contato com os socialistas russos. Por isso, em geral os Exércitos europeus eram pequenos, e apostavam nas melhores armas e no apoio dos dissidentes. Criaram grandes importantes dificuldades e chegaram às portas de Petrogrado antes de plenamente derrotados pelo Exército Vermelho.
A invasão estrangeira e a reação conservadora encerrou em 1920 com uma vitória expressiva da Revolução que passava pelo seu primeiro teste inevitável. Os socialistas retomaram vários territórios no período seguinte. Agora era o momento de reconstruir o país num cenário onde as conseqüências da guerra civil foram terríveis para a Rússia.
Como dados estatísticos merece destaque a queda da produção de grãos, o banditismo instalado por várias partes, problema graves nos transportes e comunicações e expansão da fome e da miséria.
A economia russa chegou a índices inferiores ao período pré-revolucionário. Era um argumento poderoso aos inimigos do socialismo, mas antes de tudo uma demagogia: as nações agressoras destruíram a infra-estrutura russa e exigiram pesados investimentos na área militar. O chamado “comunismo de guerra” consistia na requisição dos meios de produção e a centralização destes nas mãos do Estado. Em especial era necessário o controle estatal sobre o poderio bélico.
Esta política imposta por uma realidade contraditória, socializou a pobreza na Rússia e não a riqueza como os defensores do socialismo pregavam. Foi um duro período de decepções estes anos após a guerra civil, conforme relata Pierre Broué. Mesmo assim, podemos considerar que a revolução atingiu um período de estabilidade e de redução das ameaças externas.
Internamente, a centralização das atividades militares, a política de terror instalado no país entre brancos e vermelhos e a revolução européia que não veio distanciaram as grandes decisões dos conselhos populares, os soviets de soldados, camponeses e operários.
A esperança vermelha de que o socialismo atingisse França, Inglaterra ou Alemanha acabou não se concretizando, embora a influência da Internacional comunista (IC) fosse crescente na Europa. A IC reunia os grandes partidos comunistas orientados com uma política semelhante aos bolcheviques russos. Lênin era claro ao afirmar as dificuldades de uma Rússia isolada no contexto internacional.
No início dos anos 1920 formou-se a URSS (União das Repúblicas Socialistas soviéticas) junção da antiga Rússia com várias pequenas nações muitas das quais sofreram o domínio do império czarista, mas aceitaram manter a união formal a partir de um “Estado Soviético”. A URSS polarizou o cenário internacional com muita força com as potências capitalistas. Após a Segunda Guerra Mundial, em especial, disputou todos os espaços com os EUA.
Curiosamente, a União Soviética, que eternizou a importância dos soviets na revolução russa no próprio nome, surgiu já em um período de redução das atividades independentes dos soviets em relação ao Estado e ao Partido bolchevique. Este aspecto é fundamental para discutir os principais legados desta revolução para o século XX.
Revolução Russa, 90 anos
• Revolução Russa, 90 anos - Parte 1 - Introdução
• Revolução Russa, 90 anos - Parte 2 - Origens
• Revolução Russa, 90 anos - Parte 3 - Os bolcheviques
• Revolução Russa, 90 anos - Parte 4 - Primeiros passos
• Revolução Russa, 90 anos - Parte 5 - As dificuldades
• Revolução Russa, 90 anos - Parte 6 - Balanço e legado
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