Saber aprender e ensinar no século XXI - Conclusão: A magia de educar: aprender é ensinar, ensinar é aprender... < Artigos < Duplipensar.net
 

 



João Beauclair - Publicado em 09.11.2007


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“Não haveria existência humana
sem a abertura de nosso ser ao mundo,
sem a transitividade de nossa consciência”.

Paulo Freire

Diante do que aqui expus, e de acordo com minha postura profissional, acredito sempre ser necessário fazer proposições ao nosso pensar sobre os temas que trabalho. Apesar de fazer análises, levantar questões e estudar determinados temas ser de grande importância, cabe a quem se dedica a Educação e Psicopedagogia também fazer proposições, ou seja, apontar alguns caminhos, sempre discutíveis e provisórios.

No percorrer de minha trajetória tenho pensado e me conduzido deste modo: faço proposições, exerço minha autoria de pensamento compartilhando idéias, conhecimentos e saberes no intuito de dar minha parcela de contribuição de modo mais significativo. Escrever, para mim, é um modo de aprender, pois com a escrita, sistematizo meus estudos e posso compartilhar, com meus artigos e textos, minhas buscas em Educação e Psicopedagogia.

No meu primeiro livro, Psicopedagogia: trabalhando competências, criando habilidades, publicado em 2004, propus uma matriz de competências e habilidades básicas para a ação psicopedagógica, mediante as mudanças presentes no nosso século XXI. Interessante comentar aqui que este trabalho, nascido de minhas próprias perguntas e dúvidas psicopedagógicas, hoje está em sua segunda edição, é utilizado em diversos cursos de pós-graduação em Psicopedagogia em nosso país e tenho recebido interessantes comentários de ensinantes e aprendentes em Educação e Psicopedagogia, sobre o seu uso em estudos, aulas e produções monográficas.

No meu segundo livro publicado, Para Entender Psicopedagogia: perspectivas atuais, desafios futuros, minha proposição maior está focada na própria formação do psicopedagogo e em sua permanente busca de profissionalidade, caminhando em processos de formação continuada, de supervisão e de busca de formação pessoal.

Incluir, um verbo ação necessário à inclusão: pressupostos psicopedagógicos, é meu último trabalho, recentemente publicado, e lançado em Portugal e Espanha no início deste ano. Neste livro, também mantenho a iniciativa da proposição elencando, numa perspectiva dialógica e participativa, competências técnicas para profissionais envolvidos em Psicopedagogia e Educação Inclusiva.

Aqui também considero importante me posicionar de modo propositivo. Uma primeira questão deve ser a de pensarmos, enquanto ensinantes e gestores educacionais, sobre a importância de processos de inclusão digital e do uso da internet. Pierre Lévy assinala que ciberespaço “haveria lugar para projetos, entre os quais o desenvolvimento de uma inteligência coletiva”.

Este mesmo autor afirma ainda que a inteligência, a aprendizagem e a cognição são resultantes das complexas redes onde um grande número de atores humanos, biológicos e técnicos interagem. Neste sentido, uma proposição é pensar em projetos educativos que construam, com o uso do ciberespaço, novas possibilidades didáticas, metodológicas e pedagógicas para a construção de conhecimentos.

Sabemos que os recursos tecnológicos das comunicações e informações digitais, quando presentes nas instituições de ensino não são, infelizmente, usados de modo adequado e, quando ocorre este uso, não apresentam rupturas, nem nos aspectos curriculares, epistemológicos ou didáticos, perdurando apenas abordagens pedagógicas convencionais, com pouca inovação.

Políticas públicas favorecedoras à inclusão digital e formação de educadores para o uso adequado e inovador das tecnologias da informação e comunicação, em espaços digitais, é um bom desafio a ser enfrentado para a melhoria da educação, da aprendizagem e do saber no século XXI.

Uma segunda questão surge também como possibilidade de reflexão e posicionamento: nas instituições de ensino, grosso modo, perdura uma prática pedagógica tradicional, ainda focada na transmissão do conhecimento, na aprendizagem repetitiva, sem contextualização adequada, incompatível com a conectividade, com a interatividade e hipertextualidade que caracterizam, nas redes de comunicação digitais, as dinâmicas comunicacionais novas, surgidas com a revolução das tecnologias de informação.

A proposição aqui também se vincula ao surgimento de novos projetos de formação de educadores para o uso qualitativo das novas tecnologias, como prioridade fundamental, visto que nesta nova realidade, presente na sociedade aprendente, trás a exigência de novos modos de produzir conhecimento, novas maneiras de ensinar e de aprender.

A terceira proposição está centrada no desenvolvimento das ecologias cognitivas contemporâneas, pois o amplo acesso a conhecimentos e informações, além da crescente velocidade das comunicações digitais, podem se tornar, cada vez mais, criadores de novas potencialidades de interações sociais.

O desafio então é o de fomentar o surgimento de novos usos do acesso à internet, novas comunidades, novos grupos de interesse, que exige a mobilização de novas competências, tanto para a construção individual quanto coletiva do conhecimento.

A prioridade, então, deve ser o aprendente e aqui surge uma outra proposição: a busca permanente por metodologias ativas de construção de conhecimentos que atenda a interesses e necessidades distintas, que respeite os diferentes ritmos, as distintas modalidades e os estilos diferentes de aprender de cada um. A pesquisa constante e a formação continuada, nos espaços e tempos da ação de cada ensinante, devem ser perseguidas como parte de todo o trabalho educativo.

A aprendizagem significativa, a mediação adequada no ato de aprender e a invenção de novos modelos pedagógicos devem ser perseguidas para atender as demandas de nosso tempo. Isto significa que precisamos, no cotidiano escolar, nos espaços e tempos das instituições educacionais, fazer mudanças, promover rupturas e ir além dos modos tradicionais de ensino e aprendizagem. Mudanças significativas nas posturas dos ensinantes devem ocorrer, pois a urgência é efetivar e instaurar o desejo de uma comunicação dialógica, que entenda o aprendente como um sujeito ativo, histórico que precisa de técnicas e instrumentos, mas necessita também compreender a realidade de seu tempo, de seu contexto social, e de ser visto em suas múltiplas interações e em suas diferentes capacidades perceptivas, sensoriais e cognitivas, ou seja, que seja percebido com um sujeito em suas múltiplas dimensões.

A última proposição, que aqui se configura, é a de aprendermos, todos, a lidar com a diversidade cultural, com a pluralidade, com a alteridade, com processos de identidade, de inclusão e de validação de cada aprendente. No exercício de uma cidadania ativa, de uma vivência ética nos espaços e tempos das instituições, esta proposição pode ampliar possibilidades de encontro, do sujeito com si mesmo, com os outros, com o mundo e suas complexidades. E neste movimento, aprendentes e ensinantes iniciam um novo caminhar, onde novos modos de ensinar e aprender estejam em movimento de ressignificar às relações interpessoais e criar, desta forma, novas relações com o próprio processo de construir conhecimentos, novos comportamentos, novos estímulos de percepção, novas racionalidades e novas visões de mundo, a partir de suas autorias de pensamento em movimento.

Conclusão: A magia de educar: aprender é ensinar, ensinar é aprender... “ O grande problema do educador não é discutir se a educação pode ou não pode, mas é discutir onde pode, como pode, com quem pode, quando pode, é reconhecer os limites que sua prática impõe e perceber que o seu trabalho não é individual, é social e se dá na prática de que ele faz parte.”13

Aprender é uma de nossas capacidades humanas, que faz com que sentidos e significados sejam despertos para um viver ético e cidadão. Em nossa contemporaneidade, os caminhos que estamos a vislumbrar sobre o aprender e o ensinar contemporâneo, podem apontar para novos modos de ser e estar atuando em Educação, Psicopedagogia e Aprendizagem. Tais caminhos podem gerar novas modalidades de ensino onde o autoritarismo ceda espaço para a solidariedade e para o desenvolvimento de novas habilidades criativas, colaborativas e comunicacionais essenciais ao processo de construção do conhecimento.

Deste modo, nosso maior desafio é promover espaços e tempos nas instituições educacionais para que a aprendizagem seja, de fato, cooperativa, lembrando com Jean Piaget o quanto a cooperação é fundamental fator para o desenvolvimento humano.

Para aprender e ensinar no século XXI é preciso, essencialmente, cooperar, operar junto com, favorecendo o equilíbrio nos intercâmbios presentes na sociedade de nosso tempo e resultando numa aprendizagem que traga à luz internos processos de desenvolvimento que só acontecem quando, enquanto aprendentes, os seres humanos interagem com os outros.

Assim, resta desejar com todos os nossos pensamentos, emoções, sentimentos e ações que as instituições educacionais do século XXI - onde possamos cada vez mais crescer como seres humanos- sejam como a escola sonhada por Paulo Freire e, por tantos de nós, desejada.

“Escola é...
o lugar onde se faz amigos
não se trata só de prédios, salas, quadros,
programas, horários, conceitos...
Escola é, sobretudo, gente,
gente que trabalha, que estuda,
que se alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente,
O coordenador é gente, o professor é gente,
o aluno é gente,
cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
na medida em que cada um
se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de ‘ilha cercada de gente por todos os lados’.
Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir
que não tem amizade a ninguém
nada de ser como o tijolo que forma a parede,
indiferente, frio, só.
Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar, é também criar laços de amizade,
é criar ambiente de camaradagem,
é conviver, é se ‘amarrar nela’!
Ora , é lógico...
numa escola assim vai ser fácil
estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se,
ser feliz.”

Notas:
13 - FREIRE, Paulo. A pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: Editora Unesp, 2001, p.98.

Saber aprender e ensinar no século XXI: o permanente desafio de construir a escola ética e cidadã
Introdução
I - Saber aprender e ensinar no século XXI: desafios contextuais
II - Revisões paradigmáticas e Psicopedagogia: o caminho sendo trilhado
III – Proposições e reflexões: ações e estratégias contributivas as vivências de aprendizagens significativas
• Conclusão: A magia de educar: aprender é ensinar, ensinar é aprender...
Bibliografia

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