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Até as armas secretas de guerra sonora e o som nos supermercados
Flávio Calazans - Publicado em 15.10.2007




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Enquanto algumas pessoas desinformadas perdem um tempo precioso virando velhos discos de vinil ao contrário, as verdadeiras tecnologias de manipulação empregando ondas sonoras continuam pouco pesquisadas no Brasil, aqui esboço um breve panorama apresentando algumas destas tecnologias que nada tem a ver com nenhuma religião, e sim com a Ciência.

Os efeitos da música têm sido registrados em diversas culturas; na antiga China o Liki (livro cerimonial de protocolo e etiqueta) já discorria sobre harmonia e dissonância na música ambiente e sua influência nas relações entre os convidados; e no Livro da Música, escrito no período de Wou Li (147-178 a.C.) há estudos sobre notas musicais (escala pentatônica) e seus efeitos políticos, sociais e psicológicos. No entendimento chinês, a música tem efeitos que passam despercebidos pelas pessoas, daí sua importância no ambiente.

Os indianos consideravam dois aspectos musicais: Marga (leis permanentes, arquétipos do inconsciente coletivo, volksgeist) e Deshi (modismos, estereótipos, zeitgeist), e registram efeitos da música como energia ou vibração influenciando o crescimento das plantas e o temperamento de animais (mais tarde um tratado de cura pela música dos Persas afirmaria que "a música acalma as feras", e tal axioma correria depois por todo o mundo greco-romano).

O filósofo grego Pitágoras também descreveu o poder do som e seus efeitos sobre a psique humana.

Os gritos de guerra (Sluarg Gaurm-Slogan) refletem um arquétipo musical, proferido em um intervalo que corresponde a uma quarta aumentada (Dó, Fá sustenido), um intervalo que geraria medo no inimigo; os chineses denominam tal intervalo como Jwei-Pin, os hindus o empregavam em rituais noturnos, e os ocidentais reconhecem que tal intervalo tem um aspecto angustiante, inquietante e desagradável. Esse intervalo chegou a ser proibido pelos musicistas religiosos católicos, que o denominavam Diabolus In Musica, e foi empregado por Berlioz na "Sinfonia Fantástica" e por Wagner nos momentos mágicos de suas óperas com simbolismos maçônicos.

Esse intervalo de três tons, o Trítono, como entre fá e si, em efeito inverso ao da oitava, enquanto a oitava é estável, o trítono é instável, baseado na relação 32/45 pulsos melódicos (Wisnik, 1999, p. 82, 83) e tal corte separa, divide, desune, dissolve, o solve da alquimia, a função do diabolus. Por tal efeito psíquico o trítono é proibido no canto gregoriano como o símbolo da dissonância, do desacordo, da discordância e rebelião, sendo censurado, calado, evitado, omitido, esquecido a força, negado, reprimido, ausente – in absentia.

A primeira notação musical canônica foi um esforço do beneditino italiano Guido de Arezzo (990-1050) no século XI, empregando os fonemas de um cântico religioso famoso, "Hino a São João":

UT queant laxis

RE sonare fibris

MI ra gestorum

FA multi tuorum

SOL ve populi

LA eris reatum

S ancte Iohannes

Somente no século XVII "Ut" foi substituído por "Dó" por razões meramente fonéticas; Arezzo criou o sistema de notação musical e do solfejo, e o "Si" foi incorporado depois, quando se passou do sistema hexacorde para o da oitava.

Efeitos subliminares subaudíveis podem ser plantados em baixo volume em diversas faixas de som e velocidade inaudíveis pelo ouvido humano no nível consciente, porém, causando reações subliminares facilmente comprováveis.

Key explica que o coração humano bate a 72 pulsações por minuto, e que músicas ou vozes nesse ritmo afetam o comportamento humano. Tais efeitos sonoros seriam tal qual os cenários de filmes, o discurso gráfico e os iconesos em fotos ou desenhos, um fundo subliminar inaudível.

Sara Melissa Müller desenvolveu estudos e apresentou papers em co-autoria comigo em congressos científicos internacionais como o IAMCR nos quais aprofunda o tema do som subliminar. Segundo Müller o médico e músico Wilson Luiz Sanvito condena os vários estudos sobre a capacidade da música em influenciar o cérebro, o corpo físico e as emoções. Para ele, a música afeta fisicamente por possuir um ritmo (pulsações) e um tempo (compasso), como as funções biológicas. O cérebro parece analisar os estímulos sonoros através de padrões de referência tendo como modelo freqüências harmônicas, no caso da música.

Watson, no livro “War On The Mind: The Military Uses And Abuses Of Psychology” (p. 422), revela outro segredo do Exército dos Estados Unidos: em 1973 a Allen Internacional publicou o registro de um canhão para dissolver multidões urbanas, o "Photic Driver" que pulsa sons que reverberam nos edifícios sincronizados com flashes de luzes piscando velozmente, refletindo nas paredes dos edifícios; o barulho e as luzes causam náuseas na multidão, mas o risco de ataques epiléticos registrados nos testes levou ao arquivamento do protótipo experimental.

Pulsos de som em certas freqüências podem deixar a multidão enjoada ou até causar ataques epiléticos induzidos sonicamente por padrões de ondas repetidas ritmicamente; tais padrões podem ser baixas freqüências, até inaudíveis (subliminares); segundo Peter, um protótipo empregado em uma manifestação da Irlanda do Norte dispersou uma multidão de manifestantes católicos com notas agudas dolorosas.

Em uma propaganda para a televisão, por exemplo, o receptor percebe antes a imagem, e o áudio neste contexto seria classificado como "música de fundo", pois há muitas informações sendo transmitidas em um pequeno espaço de tempo. Esses elementos que ficam em segundo plano seriam um fundo subliminar.

Segundo o "Princípio Poetzle", todos os sons que não são percebidos conscientemente atuariam de forma subliminar, recebemos múltiplas mensagens, e nossa atenção seletiva filtra e focaliza um único canal sensório, deixando todo o resto como subliminar. Tais informações entram "de contrabando" e se depositam na memória subliminar ou subconsciente.

Os pensamentos e idéias não-iluminados, esquecidos, não deixam de existir: se encontram em estado latente, adormecidos num estado subliminar, além do limite da atenção consciente ou da memória, o que não impede que a qualquer momento possam surgir.

há aquilo que se pode chamar de audição sensorial, ou seja, o tipo de audição no qual o ouvinte não volta toda a sua atenção para o discurso musical, por exemplo, quando ouve música enquanto desenvolve outra atividade qualquer. Isso ocorre todos os dias: no consultório médico, no supermercado, durante o trabalho, no carro.

Nesses momentos, a música ocupa um espaço secundário em nossa percepção consciente podendo ser considerada percepção inconsciente, ou seja, subliminar. Vários sons podem ser utilizados para se comunicar de forma subliminar variando de acordo com o contexto em que é inserido e embutido o som.

Todos os sons podem ter uma razão de ser, até mesmo o silêncio. Os silêncios também são uma dimensão de som. Há dúzias de silêncios eletrônicos diferentes, cada um deles produzindo uma reação definida no receptor. Sons e silêncios podem ser alternados, criando um pelotão de efeitos para o público. Esses sons e silêncios, quando bem combinados não são percebidos conscientemente.

Key, no livro Media Sexploitation, descreve diversos subliminares sonoros, inclusive explica a decupagem dos efeitos sincronizados na mixagem ou edição do filme O exorcista.

Segundo Key, o reforço que o som causa na imagem é a causa do sucesso desse filme de terror, pois foi realizado com engenharia de som subliminar sofisticada para a época, chegando a ganhar um Oscar pela trilha sonora.

Friedkin, o responsável, explica que aplicou diversos tipos de subliminar no fundo sonoro, por exemplo:

1) Som do enxame de abelhas furiosas, zunindo em dezesseis freqüências diferentes mixadas – o consciente as ouve como um único som. Todos os humanos reagem com medo e ansiedade ao som das abelhas, mesmo se nunca ouviram tal som, este desperta o desejo de fugir, esconder-se, e o medo de sofrer dores.

Friedkin explica que, segundo Jung, tal som seria um arquétipo.

Esse som foi plantado na edição em ondas crescentes antes das cenas de maior tensão e suspense.

2) Som dos gritos de porcos sendo degolados. A menina Reagan, ao ser possuída pelo demônio, vai sendo maquiada gradualmente a cada cena para parecer-se com um porco, enquanto "ouve-se" subliminarmente estes guinchos angustiantes.

3) Gemidos de casais no momento do orgasmo. Foram inseridos no fundo subliminar nas cenas de clímax, o ato de exorcismo com a moça e o padre a sós.

Key explica que mais de 50% das mulheres entrevistadas por sua equipe afirmaram ficar excitadas sexualmente nessa cena.

4) Som no silêncio. As pausas silenciosas do filme eram silêncio eletrônico, com fundo de baixa freqüência inaudível, zumbindo.

Esses silêncios formam uma série de platôs que gradualmente aumentam em volume e diminuem de intervalo de tempo de aparição antes dos momentos de clímax. Os silêncios são empregados para produzir tensão emocional, tornando-se mais e mais freqüentes e pesados num fluxo de tensão-clímax-relaxamento-tensão.

5) Dublagem. A voz de Reagan vai sendo cuidadosamente sintetizada e mixada até ser totalmente dublada pela voz de Mercedes McCambridge, atriz com uma voz profunda e sensual.

Key demonstra diversas técnicas empregadas pela engenharia de som subliminar.

Ora, sons de abelhas prestam-se a anúncios de seguros de vida, planos de saúde e tudo o que envolva o cérebro réptil, as motivações de Maslow relativas à segurança.

Já a cena dos porcos guinchando e a maquiagem da atriz é uma demonstração da intersemiose subliminar som-imagem.

Na cena sadomasoquista do exorcismo os gemidos de orgasmos mostram o poder dos estímulos sexuais subliminares.

Até mesmo os silêncios apresentam pulsos subliminares inaudíveis para tornar apreensivos os telespectadores. Na montagem cinematográfica as imagens são editadas de modo a intensificar a tensão, gerando um ritmo angustiante de suspense, que altera os batimentos cardíacos, a pressão arterial, a respiração e a taxa de adrenalina e epifremina do público.

Isso é o que hoje é chamado "engenharia de emoções".

O exorcista, é importante lembrar, foi realizado em 1976. Hoje tais tecnologias sofisticaram-se, bem como suas aplicações.

No Brasil, em 1989, Zé Rodrix produziu um jingle para o Chevrolet da General Motors, cujo ritmo era de 80 ciclos por minuto. Segundo Zé Rodrix, o ritmo do coração de uma mãe amamentando o filho, ouvido pelo recém-nascido, é um som associado a conforto, tranqüilidade, segurança e prazer. Sensações que o publicitário, por meio do jingle, tentava associar subliminarmente ao carro.

Rodrix afirma que se baseou em pesquisas do grupo Pink Floyd que apontaram o ritmo de 80 ciclos como o de maior efeito subliminar sobre o auditório – cobaias involuntárias dessas tecnologias experimentais em seus shows.

Porém, não é apenas no cinema, na publicidade e nos shows de rock que a tecnologia subliminar sonora pode ser aplicada.

Segundo Faria, é possível empregar essas técnicas para uma aprendizagem subliminar, como explica na sua obra A comunicação na administração, ao citar o técnico francês Jacques Genevav, que inventou o automafone, um aparelho pesando cerca de 20 quilos, o qual "ensina as pessoas enquanto elas estão dormindo".

O tema ou lição é gravado em fita e um "baixo-falante" toca subliminarmente sob o travesseiro.

Além de ajudar estudantes em suas lições e na aprendizagem de idiomas, o sistema serve para atores decorarem seus textos e para gagos corrigirem seus problemas. Esse mesmo sistema já tem sido usado em dietas, para motivar subliminarmente a perder peso do mesmo modo que as fitas de videocassete já citadas.

Atualmente, nos Estados Unidos, o mais recente emprego da tecnologia subliminar sonora tem fins "educativos", e uma das empresas que desenvolve este trabalho é a Corporação de Engenharia Comportamental, Engenharia de Emoções, localizada em Metairie, Louisiana, Nova Orleans.

Segundo Peter Krass, no artigo "Computeis that Would Program People", a engenharia de emoções é um ramo recente de atividades que tem por objetivo alterar o comportamento involuntariamente, sem a consciência dos receptores, do público que é manipulado subliminarmente por sons e cores.

Um dos produtos à venda é o Mark VI – audio subliminal processos, um equipamento eletrônico que ajusta o som para um volume subliminar abaixo de 20 ciclos por segundo, mixado à música de fundo que toca em supermercados e lojas de departamentos. A voz de fundo fica repetindo todo o tempo a frase "sou honesto, não roubo", o que já reduziu em 30% o índice de furtos em 81 supermercados de quatro estados dos Estados Unidos.

O Mark VI também é instalado em consultórios de dentistas e médicos, onde recita a ladainha subliminar de frases que acalmam e relaxam, além de ser colocado em bancos para influenciar funcionários e clientes a fazerem investimentos.

Há sons no silêncio dando ordens, sugestionando, manipulando.

Por outro lado, no Oregon, EUA, a empresa Proactive Systems patenteou outro sistema semelhante que está no mercado desde 1981 com resultados surpreendentes, comprovados estatisticamente.

Alguns programas de computador têm um número limitado de canais. Porém, como foi descrito anteriormente, programas como o Vegas são ilimitados. Os volumes dos canais podem ser controlados individualmente e há também um volume geral.

O exemplo mais claro é o efeito do som no formato 5.1, aquele usado em Home Theater. O alto-falante mais grave reproduz algumas freqüências que o ouvido humano não capta, são freqüências abaixo de 20 hertz.

Mas aí vem a pergunta: por que gastar muito dinheiro comprando um alto-falante que reproduz um som que não podemos ouvir? Resposta: o som se propaga no ar empurrando as moléculas do ar para frente, neste caso não podemos ouvir o som mas podemos sentir a sua vibração. Imagine a cena de um avião caindo em um filme. No momento da queda, a pressão sonora é tão grande que nos dá a sensação de que o avião vai cair sobre nossas cabeças. Aliás, é bom que o efeito seja real somente até esse ponto.

Desse modo, as moléculas de ar empurradas pela propagação da onda sonora chegam dentro do ouvido e causam o bater do martelo na bigorna registrando um efeito tátil subliminar de pulso e freqüência, ocorrendo a cognição sem consciência, a repetição do estímulo pode ocasionar um condicionamento (behaviorismo) e uma predisposição posterior a estados emocionais ao ser exposto ao logotipo, ao candidato político, a embalagem do produto etc.

E a audição periférica explica, pela Gestalt, que tal fundo é despercebido e fora do holofote da consciência na explicação de Jung, sendo, pois que, se não estão conscientes são inconscientes, logo, subliminares.

Tais mixagens de som são os iconesos sonoros.

Apesar de toda esta tecnologia disponível, diversos publicitários e sonoplastas entrevistados alegam que ninguém nunca ouviu falar de nenhuma aplicação de subliminares no som !!!

A audição é pura recepção. O ato de ouvir limita-se a receber um sinal sonoro e determinar a ele um sentido. Ouvir é um estado passivo e de contemplação, porém, no âmbito da percepção, a audição é fundamental no contato com o mundo.

Por isso, é impossível "fechar os olhos" aos estímulos subliminares sonoros ou escapar as armas de guerra sônica.

Bibliografia
Calazans, Flávio. Propaganda subliminar Multimídia, Sétima edição revista e ampliada, Summus editorial. 2006.

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