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Futebol e a fúria das torcidas organizadas - Aspectos sociológicos e jurídicos
2 - Origens e identificações da violência desportiva
Gustavo Serafim de Aguiar Silva - Publicado em 27.05.2008
Origens e identificações da violência desportiva
É incontestável a paixão do brasileiro pelo esporte número um, o futebol. Alguém conhece algum amigo, vizinho ou colega que admita com tranqüilidade, a superioridade do time rival? É claro que as derrotas são conseqüências de um juiz ladrão, mal intencionado ou cego. Se o time joga mal, pode ser um dia ruim do armador, ou melhor, o técnico burro escalou mal. Quantas vezes nós já xingamos nossos vizinhos com sonoros palavrões, ou o juiz por expulsar um de nossos jogadores por uma “entradinha”?1 Sem falar no ótimo programa que se tornou reunir os amigos para um churrasco antes de assistir a um jogo acompanhado por cervejas bem geladas.
Infelizmente, nosso trabalho tem por escopo enfrentar o problema do torcedor fanático, blindados por grupos solidários ao seu sentimento e escudados pela camisa de um time. As arquibancadas não são mais locais seguros para as famílias, sendo palco da violência entre torcidas, absolutamente, qualquer lugar serve para esta rinha de furiosos.
No dia 29 de maio de 1985, o mundo do futebol e do esporte ficou marcado pela extrema violência dos hooligans ingleses contra os italianos. Antes mesmo do inicio do jogo no Estádio de Heysel, na Bélgica, já havia decorrido o conflito com o resultado catastrófico de 38 mortos e 450 feridos. A final da Copa da Europa ficou sem brilho e os gritos de gol foram abafados pelos urros de horror e socorro. O acontecimento ficou conhecido como o Massacre de Bruxelas.2
Conforme estudo sobre hooligans, trata-se de um fenômeno Europeu, com origem na Inglaterra, que modifica drasticamente o comportamento do espectador de futebol em relação a um conjunto de atitudes, valores pessoais e sociais e visões de mundo. Iremos expor as duas versões para explicar este fenômeno:
A primeira versão aponta a relação direta da violência no futebol com a estrutura de classes, com origem nos jovens filhos de operários. Tal fenômeno seria uma conseqüência dos ajustamentos políticos, econômicos e socioculturais promovidos desde os anos 1960 na Grã-Bretanha, vinculando a violência ao desemprego. Torcedores estariam reproduzindo as relações estabelecidas em seus bairros, onde a cultura proletária elege seus líderes, aqueles que demonstram maior força física e coação moral na busca pelo respeito.
A segunda versão é mais ampla, explica que os grupos de hooligans foram formados por vários grupos existentes (teddy-boys, rockers e skinheads) e o comportamento agressivo não estaria apenas vinculado a classe social as quais pertencem, mas sim no nascimento de uma cultura juvenil que valoriza a força física, o confronto e a prática da violência gratuita contra supostos adversários. Sendo a mídia indispensável na divulgação de seu movimento.3
Os hooligans são, em sua grande maioria, jovens urbanos que aderiram à cultura da violência gratuita e acostumada à própria violência de nosso cotidiano. O termo hooligan tem sua possível origem da publicação de Hooligan Nights, de Clarence Rook, publicado em 1899. Narra à história de um jovem briguento, desordeiro e homicida, que condenado, morre na prisão, seu nome era Patrick Hooligan. Existe uma segunda versão para o surgimento do termo, vinculada a uma família Irlandesa que viveu em Londres, no fim do século XIX, os Houlihan, considerada violenta. O termo foi rapidamente associado a grupos de jovens violentos, na Europa os torcedores fanáticos ficaram rotulados por hooligans, no Brasil ficaram rotulados por torcidas organizadas e no restante da América Latina de barras bravas.4
Notas:
1 - PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. Faces do Fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 247.
2 - PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. Faces do Fanatismo. pp. 248 - 249.
3 - PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. Faces do Fanatismo. pp. 250 - 251.
4 - PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. Faces do Fanatismo. pp. 254 - 255.
Futebol e a fúria das torcidas organizadas - Aspectos sociológicos e jurídicos
1 - Introdução
2 - Origens e identificações da violência desportiva
3 - A realidade das torcidas organizadas
4 - Análise crítica dos crimes de perigo
5 - Armas brancas - A realidade da legislação atual
6 - A preservação do esporte como valor cultural
7 - Clubes e a imputação objetiva
8 - A indenização em caso de lesão corporal
9 - Torcedor como consumidor e seus direitos básicos
10 - Conclusão
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