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Deborah O' Lins de Barros - Publicado em 19.02.2008


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Outro dia, indo para a faculdade, fui conversando com um homem muito simpático no ônibus. Estudante de filosofia da UFRJ. O trânsito estava ótimo, porém eu queria chegar mais cedo para falar com um professor. Mas a conversa com o filósofo estava tão interessante que até esqueci de saltar na Praça Saens Peña para pegar o metrô.

Foi ele quem puxou o assunto. Engraçado que nem eu nem ele perguntamos nossos nomes. Estava lendo um livro sobre Brasil Colônia e o rapaz comentou que gostava muito de história e me parabenizou pela escolha do curso. A princípio até pensei que ele estivesse me cantando, mas depois vi que não. Adoraria encontrá-lo novamente para batermos outro papo. Perguntei por que ele estava fazendo filosofia e ele sorriu e disse que era "uma longa história". Mas quando vimos que não estávamos nem Rua Uruguai ainda, ele começou a contar.

Quando era mais novo (o que não deve fazer muito tempo, pois ele devia ter no máximo 25 anos) era estudante de medicina. Quando começou a época de estágio, lá pelo 4º, 5º ano, foi para um hospital onde conhecia ninguém. Seu sonho sempre foi trabalhar fazendo transplantes de órgãos, dando uma "segunda chance" para as pessoas que estivessem quase morrendo. Posso imaginar a satisfação e o orgulho que ele teve ao saltar, pela primeira vez do elevador do hospital, no 3º andar e ler uma placa dizendo "Centro Cirúrgico".

Naquele 3º andar sua vida começara a mudar. Fez amizade com o médico chefe do setor, o que foi bastante positivo para o andamento do estágio. Logo já estava conhecido e, por mais frio que um médico possa parecer, ele sempre se emocionava quando algum pai ou mãe vinha até ele com alguma lembrancinha, dizendo "Muito obrigado. Meu filho está vivo graças à equipe médica do doutor. Amanhã o senhor pode não lembrar de mim, mas eu nunca esquecerei do senhor." A vida é muito importante e preservá-la era muito gratificante ao "doutor-estagiário" que conversou comigo.

Uma vez o chefe do setor chegou ao 3º andar do hospital com um semblante muito triste. Chamou seu "afilhado" e o levou a uma sala que até então nunca entrara. "Há duas meninas lá dentro que estão á morte, mas só há um aparelho respiratório. Quem você escolheria para viver e quem você deixaria morrer?" Nesse momento, percebendo que aquilo jamais poderia ser um trote, o jovem sentou-se perplexo e disse, com os olhos paralisados "De acordo com a ética, a aparelhagem deve ser destinada preferencialmente ao paciente que tiver mais chances de vida ou que sobreviverá com menos seqüelas."

Uma das meninas, a que estava em pior estado, era a melhor amiga do rapaz, e já tinha sido aluna do médico chefe. Tentando em vão conter as lágrimas que lhe caíam dos olhos, obedeceu as ordens dadas pelo médico, de que fizesse o que havia dito: proporcionar a vida a quem tem mais possibilidade de tê-la.

Ao chegar em casa, o estudante estava arrasado. Sentia-se um assassino. Foi até a estante e leu em voz alta a frase que tinha falado no hospital, extraída do livro que agora estava em suas mãos. Havia prometido a si mesmo que seria médico para salvar vidas, não para tirá-las. Começou a refletir sobre a vida, a existência. Percorrendo a estante com os olhos, descobriu um livro que nunca repararia, se não fosse o que aconteceu. Chama-se "Ilusões Perdidas". O conteúdo nem interessou muito no momento: o título era exatamente o que ele sentia.


O que se segue já é de se imaginar: ele abandonou o estágio e o curso de medicina (e leu Balzac). Começou a escrever ensaios sobre o que as pessoas consideram a vida, o que a medicina considera e o que realmente seria a vida. Achou que fosse virar um escritor. Porém suas buscas por embasamento para escrever, fizeram-no desembocar em uma bifurcação: a religião e a filosofia. Entre os dogmas e as abstrações, optou pelo segundo, pela liberdade de pensamento e de expressão pregados.

Agora, bem, chegamos ao ponto de partida. O ex-futuro doutor estava indo para a faculdade. Estava no 4º período e já estava com esboços (provavelmente brilhantes) para sua monografia.

Mas preciso dizer uma coisa... eu inventei tudo isso. Não conheci ninguém no ônibus (mas mesmo assim perdi o ponto, pois estava lendo meu livro); porém não escrevi esse texto em vão. Palavras vão ao vento, mas depoimentos grudam na mente. Assim, com essa metáfora, ou parábola, ou fábula, tenho a intenção de tocar em algum ponto da consciência de quem ler. Com esse mundo de guerras, bombardeios e injustiças, os corações humanos tendem a gelar, um pouco. Então usei uma personagem médico por causa do estereótipo que a classe carrega. Mesmo aparentando secos, frios e indiferentes, são humanos, têm sentimentos. Algo que a humanidade hoje em dia necessita urgentemente.

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