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Artigo sobre a novela Duas Caras e o federalismo
Thomas Korontai - Publicado em 17.03.2008


A atual novela das oito, exibida pela Rede Globo, traz ao público diversos temas para discussão, e desta vez, com uma faceta mais provocativa do ponto de vista das tradições brasileiras, apontadas como conservadoras, após o sucesso do filme Tropa de Elite.

Mas o principal ponto que quero destacar é a aparente autonomia reinante na favela da Portelinha, cujo reinado do personagem de Antonio Fagundes, Juvenal Antena, deixa transparente alguns aspectos que merecem ser observados.

O primeiro é a demonstração clara da liderança paternalista de Juvenal, ao sentar-se no "trono" para ser juiz e conselheiro, quando não o próprio poder executivo, nos casos que lhe são trazidos pela população local. As soluções são rápidas e obedecidas por todos que chegam à sua frente. Isso me faz lembrar do juiz distrital das cortes norte-americanas, aqueles que decidem em minutos as milhares de querelas que se apresentam diante de um deles, evitando o entupimento do Judiciário. A maioria dos problemas tem solução por ali mesmo, cabendo ao juiz a aplicação de multas, fianças, condenações curtas, dentre outras providências, tudo à luz dos princípios constitucionais - e não regras analíticas, sujeitas à contestações pelas dezenas de interpretações possíveis.


Essa agilidade, a custos muito baixos para a população que espera uma autoridade para decidir os problemas das pessoas, traz segurança jurídica para os pequenos negócios e as relações sociais de base, os quais constituem a maioria mais que absoluta das demandas judiciais em qualquer lugar do mundo. Afinal, seres humanos vivem em confronto, embora não aceitem viver sem que seja em sociedade.

Outro ponto que destaco é o debate entre o estado paralelo, que, neste caso, funciona com agilidade, encontrando soluções rápidas para os diversos tipos de problemas, e o Estado oficial, através da presença de um deputado federal e agora de seu assessor, Evilásio, cria de Juvenal, mas que já não concorda com o crescente autoritarismo do caudilho local. A pergunta que me pareceu intrínseca neste debate é: "afinal, porque deixar as regras do Estado oficial valerem aqui, se o Estado oficial nada faz pela favela?" Não seria melhor deixar que o poder local, mesmo que representado por uma liderança paternalista, siga tocando a vida de todos, resolvendo seus próprios problemas em comunidade?

Não estou defendendo o "estado paralelo", não me entendam mal, mas a estória mostra exatamente esse debate, e creio que até o final da novela, até agora interessante, bastante diferente das anteriores, pois não vi apologia a valores estranhos à tradição brasileira, o debate deverá ser ampliado, provavelmente deixando a pergunta no ar. A favela da Portelinha demonstra como é possível a convivência em comunidade, em harmonia, mesmo com os dramas humanos, mostra como pode se sustentar economicamente, embora Juvenal seja também, o estereótipo do poder centralizador, por controlar a arrecadação para a "associação", não deixando de usufruir indevidamente da mesma, como na prática ocorre no Estado oficial. Mas mostra também, como esse conjunto pode coexistir pacificamente quando os assuntos e querelas são rapidamente resolvidos por uma autoridade. As pessoas parecem concordar em pagar o tributo desde que tudo seja resolvido.

A autoridade não pode faltar. O que um povo espera é ter liderança e autoridade, mas nunca o autoritarismo - aliás, o autoritarismo crescente de Juvenal poderá levá-lo a perder seu "trono", caso seu novo desafeto, cheio de ideais de democracia, chegue a peitá-lo, como já começou. O autoritarismo do estado paralelo não será páreo para o autoritarismo do Estado oficial. Mas a liderança com autoridade do estado paralelo tem condições de muito mais resistência contra o autoritarismo do Estado oficial. Este último, diante do autoritarismo de Juvenal, poderá "libertar" o povo da Portelinha, para submetê-lo ao seu próprio autoritarismo e, paradoxalmente, abandono.

Eu conheci uma favela assim no Rio de Janeiro, a de Recreio dos Bandeirantes. Fiquei impressionado com o nível de confiança interna, até carros com janelas abertas e objetos nos bancos eram vistos, sem que isso representasse problema. O movimento comercial de produtos e serviços era intenso. Não existe crime, pois criminosos que são flagrados, são "convidados" a deixarem o território imediatamente, sob pena de execução. O Estado Oficial não existe sequer nas transações imobiliárias, garantidas por documentos assinados e registrados na sede da associação local. Não existem tributos, apenas contribuições mensais para a Associação. Pessoas de classe média estavam se mudando para lá, pois era mais seguro, com mais prosperidade do que no Estado oficial. Dizem que a Portelinha foi inspirada no Recreio dos Bandeirantes.

Os fatos demonstram, tanto na vida real, quanto na ficção, que a autonomia local deve ser observada como natural do ser humano, especialmente em grupos sociais, pois a visão de uma sociedade nacional igualitária e conectada entre si, como se fosse uma pequena comunidade, é, além de utópica, agressiva à própria natureza humana, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil.

Alegra-me de ver o assunto tratado em uma novela com o alcance que tem. Mesmo que este tema, tido mais como pano de fundo do que principal, não tenha sido notado por muita gente, o conceito se alinha com a essência de praticamente todos que acompanham a novela, independentemente de alguns temas mais bizarros como o caso dos dois pais, um heterossexual e outro, homossexual, para uma criança. O que vai ficar, na minha opinião, como destaque, consciente ou inconsciente na cabeça das pessoas, é o conceito da autonomia local, do poder local, da responsabilidade local, em confronto com o Estado e seu aparato autoritário, sem autoridade e sem liderança, ávido apenas em sugar recursos através de uma miríade de tributos, sem a justa contrapartida, apenas migalhas.

A autonomia e a descentralização poderão trazer muitos juvenais pelo Brasil afora, mas, com o poder da mídia em informar a síndrome do autoritarismo será progressivamente curada, cambiada por um consentimento individual e coletivo à necessária e até agora insubstituível liderança com autoridade. O povo sabe o que quer...

Ficha da novela Duas Caras
Formato - Telenovela
Duração - 70min (45 minutos às quartas-feiras)
Autor - Aguinaldo Silva
Colaboração - Gloria Barreto , Izabel de Oliveira , Maria Elisa Barreto , Filipe Miguez , Nelson Nadotti , Sergio Goldenberg
Direção - Claudio Boeckel , Ary Coslov , Miguel Rodrigues , Pedro Carvana Direção Geral - Wolf Maya
País Brasil Brasil
Emissora - Rede Globo
Formato de Exibição - 480i (SDTV) | 1080i (HDTV)
Idioma - Português
Transmissão original - 1º de outubro de 2007 - Final da Novela Duas Caras
Número de episódios
Site oficial da novela Duas Caras - http://duascaras.globo.com/
Elenco - Marjorie Estiano - Maria Paula Fonseca do Nascimento | Dalton Vigh - Marconi Ferraço / Adalberto Rangel | Alinne Moraes - Maria Sílvia Barreto Pessoa de Moraes | Antônio Fagundes - Juvenal Antena (Juvenal Ferreira dos Santos) | Renata Sorrah - Célia Mara de Andrade Couto Melgaço | Suzana Vieira - Branca de Queiroz Barreto Pessoa de Moraes | José Wilker - Prof. Francisco Macieira | Marília Pêra - Gioconda de Queiroz Barreto | Stênio Garcia - Barretão (Paulo de Queiroz Barreto) | Débora Falabella - Júlia de Queiroz Barreto | Lázaro Ramos - Evilásio Caó | Flávia Alessandra - Alzira de Andrade Correia | Betty Faria - Bárbara Carreira | Marília Gabriela - Guigui (Margarida McKenzie Salles Prado) | Caco Ciocler - Dr. Claudius Maciel | Marcos Winter - Deputado Narciso Tellerman | Letícia Spiller - Maria Eva Monteiro Duarte | Oscar Magrini - Gabriel Duarte | Rodrigo Hilbert - Ronildo Mendes (Guilherme McKenzie Salles Prado) | Sheron Menezes - Solange Couto Ferreira dos Santos | Juliana Knust - Débora Vieira | Otávio Augusto - Antônio José Melgaço | Bárbara Borges - Clarissa de Andrade Couto Melgaço | Guilherme Gorski - Duda (Eduardo Monteiro) | Júlia Almeida - Fernanda Carreira | Armando Babaioff - Benoliel Batista da Conceição | Júlio Rocha - João Batista da Conceição | Nuno Leal Maia - Bernardo da Conceição | Mara Manzan - Amara da Conceição | Thiago Mendonça - Bernardinho (Bernardo da Conceição Júnior) | Leona Cavalli - Dália Mendes | Alexandre Slaviero - Heraldo Carreira | Wolf Maya - Geraldo Peixeiro | Ivan de Almeida - Misael Caó dos Santos | Juliana Alves - Gislaine Caó dos Santos | Paulo Goulart - Heriberto Gonçalves | Flávio Bauraqui - Ezequiel Caó dos Santos | Eri Johnson - Zé da Feira (José Carlos Caó dos Santos) | Guida Viana - Lenir (Elenir) | Dudu Azevedo - Barretinho (Paulo de Queiroz Barreto Filho) | Cris Vianna - Sabrina Soares da Costa Barreto | Viviane Victorette - Nadir | Ângelo Antônio - Dorgival Correia | Wilson de Santos - Jojô | Laura Proença - Vesga (Salete Costa) | Paulo Serra - Ignácio Guevara | Susana Ribeiro - Edivânia | Débora Nascimento - Andréia Bijou | Sérgio Vieira - Petrus Monteiro Duarte | Marcela Barrozo - Ramona Monteiro Duarte | Diogo Almeida - Rudolf Stenzel | Josie Antello - Amélia dos Santos | Adriana Alves - Condessa de Finzi-Contini (Morena) | Thaís de Campos - Claudine Bel-Lac | Lugui Palhares - Carlão | Luciana Pacheco - Denise | Cristina Galvão - Lucimar | Débora Olivieri - Adelaide | Roberto Lopes - Gilmar | Teca Pereira - Nãnã | Jackson Costa - Waterloo de Sousa | Gilberto Miranda - Divaldo | Gottsha - Eunice/Diva | Raquel Fiuna - Victória (Dóris) | Fátima Montenegro - Tanajura | Marilice Cosenza - Socorro | Prazeres Barbosa - Shirley | Dani Ornellas - Joseane | Leandro Ribeiro - Osvaldo | Hugo Resende - Matheus | Adriano Garib - Silvano | Adriano Dória - Marcha Lenta | Alexandre Liuzzi - Dagmar | Guilherme Duarte - Zidane | Antônio Firmino - Apolo | Munir Kanaan - Mosquito | Alexandra Martins - Daniela | Bia Mussi - Janete | Isabela Lobato - Heloísa | Humberto Guerra - Feliz | Leandro Lamas - Atchim | Beto Qulucianairino - Mestre | Marcos Holanda - Dunga | César Amorim - Soneca | Sérgio Monte - Dengoso | André Luiz Lima - Zangado | Tathiane Manzan -Ruth | Raphael Martinez - Elvis | Zé Luiz Perez - Zé da Preguiça | Raphael Rodrigues - Brucely | Luciana Barbosa - Priscila | Eduardo Lara - Frango Veloz | Edmo Luís - Gavião Sereno | Natasha Stransky - Bijouzinha | Simone Debet - Neli | Cristiane Machado - Francisca | Fernanda Caetano - Francine | Ernesto Xavier - Clementino | Cláudio Cinti - Antônio | Tina Kara - Lavínia | Felippe Sanches - Bené | Mariana Ribeiro - Vilma | Aline Phyrro - Dançarina da Uisqueria | Bruna Guerin - Dançarina da uisqueria | Jaqueline Farias - Dançarina da uisqueria | Babu Santana - Segurança da uisqueria | Gabriel Sequeira - Renato Fonseca do Nascimento Rangel | Luana Dandara - Manuela de Andrade Correia | Lucas Barros - Dorginho (Dorgival Correia Júnior)
Participações especiais - Alexandre da Costa - Homem misterioso | Ana Karolina Lannes - Sofia Negroponte | Bernardo Mesquita - Adalberto (adolescente) | Betty Lago - Soraya | Bia Seidl - Gabriela Fonseca do Nascimento | Bruna Brignol - Enfermeira de Adalberto | Carlos Machado - Siqueira | Carlos Vereza - Helmut Erdmann | Carol Holanda - Bárbara (jovem) | Chica Xavier - Mãe Bina (Setembrina Caó dos Santos) | Cláudia Borioni - Mãe de Débora | Delano Avelar - Policial do aeroporto | Elizabeth Gasper - Beatriz | Eriberto Leão - Italo Negroponte | Everaldo Pontes - Pai de Adalberto | Francisco Cuoco - | Fúlvio Stefanini - Waldemar Nascimento | Gláucio Gomes - Mariozinho Pedreira | Hada Luz - Colega de Clarissa | Harley Vaz - Patrulheiro | Herson Capri - João Pedro Pessoa de Moraes (Joca) | Ida Gomes - Dona Frida | Jackson Antunes - Ministro da Educação | Javier Gomez - Dr. Hidalgo | Jorge Coutinho - Celestino Costa | Juliana Paes | Kelly Jabour - Decoradora | Lady Francisco - Odete | Larissa Machado - Colega de Clarissa | Lidiane Barbosa | Lionel Fischer - Dr. Arnaldo | Luciana Pontes - Colega de Clarissa | Luiza Brunet | Martinho da Vila - | Matheus Costa - Leone Negroponte | Maurício Gonçalves - Lima Barreto | Paola Crosara - Rebeca Lisboa | Paulo César Pereio - Lobato (José Gregório dos Santos Lobato) | Paulo Vespúcio - Capanga de Lobato | Pietro Mário - Fernando Pereira Salles Prado | Rafaela Victor - Míriam Lisboa | Ricardo Blat - Pastor Inácio Lisboa | Ruth de Souza - Tia Nena | Selma Egrei - Compradora da casa de Maria Paula | Sérgio Viotti - Manuel de Andrade Couto | Sylvia Massari - Graça Lagoa | Taiguara Nazareth - Miguel da Silva dos Anjos | Tarcísio Meira - Hermógenes Rangel | Tony Ramos - | Totia Meireles - Jandira Alves | Vanessa Giácomo - Luciana Negroponte | Wendell Bendelack - João Fuleiro
Tema de abertura - E Vamos à Luta, Gonzaguinha
Temas principais - Alcoolismo | Racismo | Fanatismo religioso | Drogas | Dislexia | Psicopatia | Bigamia | Poligamia | Corrupção | Política | Epilepsia | Violência ao menor | Troca de rosto | Romance entre diferentes classes sociais | Romance entre diferentes raças | Homossexualidade | Bissexualidade

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