Dia desses, liguei a televisão. Uma sub-celebridade proclamava Michael Jackson o maior artista de todos os tempos. Ou o sujeito é muito fã ou muito ignorante. Michael Jackson foi melhor que Leonardo da Vinci, Shakespeare, Beethoven, Cervantes, Bosch, Rodin, Mozart, Bach, Michelangelo, Van Gogh ou Monet? Não.
É inegável que Michael Jackson representa um ícone de sua geração. Goste-se dele ou não. A diferença é exagerar ou mudar a realidade para aumentar a procura por este artista. O show de boçalidades sobre a vida e obra de Michael Jackson não pára. Logo depois, outro sujeito declara que Michael Jackson foi o artista mais completo de todos os tempos. Vejamos. Michael Jackson foi um grande dançarino, mas foi o melhor de todos? Não. Michael Jackson cantava bem, mas foi melhor que Nat King Cole ou Frank Sinatra, apenas para ficar em seus compatriotas? Não. Michael Jackson foi melhor compositor que Bob Dylan? Não. Então como explicar que Michael Jackson seja o melhor de todos os tempos, ou mesmo do século passado. Entendo que para os fãs o seu ídolo sempre é o melhor, mas me parece que nomeá-lo melhor de todos os tempos é mais uma jogada da mídia em sua busca desenfreada por novos super-heróis descartáveis. Esta busca consumista e imbecilizante cria super-heróis sob medida para obscurecer os assuntos mais importantes e que realmente causam impacto em nossa vida. Michael Jackson está morto, e você?
Não se trata de questionar o valor deste artista, mas deixar as coisas preto no branco. Mesmo com todo seu sucesso a obra de Michael Jackson pode, ou não, sobreviver ao tempo. A conferir. Ao longo da história vários artistas foram bem sucedidos e caíram no esquecimento ainda em vida. Notável lembrar do filme Amadeus e a agonia de Antonio Salieri (caricaturizado no filme) em ver sua obra ser esquecida pelos mais jovens, enquanto a de seu maior rival ser tornava cada vez mais popular.
A mídia transformou Michael Jackson praticamente num santo. A campanha contra a pedofilia curiosamente deu um tempo. Antes da morte de Michael Jackson a imprensa nos bombardeava com casos e mais casos de crianças abusadas país afora. Era o inferno. A qualquer momento um molestador de crianças apareceria das sombras. Qual seria a finalidade para se criar tamanha histeria? Preservar as crianças de ataques sexuais? Aproveitar este terrível drama para criar uma censura na Internet? Teoria da Conspiração?
Bem, eu tenho a minha. Recentemente, numa visita ao Papa, Lula se juntou ao pontífice na macabra celebração de uma Nova Ordem Mundial. Que nada mais é do que uma Ditadura Global para solucionar os problemas de nosso planeta. Problemas, diga-se de passagem, que eles mesmos criaram. Num Governo Mundial você não poderá escapar da opressão. E também de seus ídolos. Os piores pesadelos das mais fantásticas distopias estão virando realidade.
Você sabe quando a imprensa está fazendo uma campanha quando quase todos os canais de televisão e jornais batem na mesma tecla (e quase nunca colocam opositores da idéia em debate). A mídia não inventa campanhas (motoristas embriagados, desarmamento, pedofilia, obesidade, feminismo, homofobia, aquecimento global, tabagismo, depressão, etc.) à toa. Elas são criadas com um objetivo que quase nunca é defender a questão principal em si. Mas isto é assunto que fica para um outro artigo.
Voltemos a criatura intitulada Michael Jackson. Alguns veículos de comunicação simplesmente evitam associar Michael Jackson à pedofilia. Apesar do Rei do Pop ter enfrentado a acusação de pedofilia. Michael Jackson precisa ser idolatrado. O termo pedofilia geralmente é trocado por "Abuso contra crianças". Se Michael Jackson fosse pobre seria rotulado de drogado. Como o ex-menino negro é um ídolo que precisa ser preservado, substitui-se o termo por "dependente de medicamentos". Já parou para pensar no termo drogaria? A atual imprensa serve como um esquadrão de defesa das celebridades. Se estes caírem em situações embaraçosas, como ser flagrado num motel em companhia inusitada ou olhando indiscretamente para uma menina de maneira nada presidencial. Os telejornais não noticiam. A missão deles é fazer com que você acredite na realidade que eles constroem. O telespectador é tratado como um idiota quase todo o tempo. Quero crer que subestimem sua inteligência. Desconfie de TUDO que envolva muito dinheiro e poder. A verdade pode estar lá fora, mas ao que parece nunca é lucrativa.
Os ídolos são combustíveis do velho esquema pão e circo. O cidadão-comum precisa ter a atenção desviada dos grandes problemas e é convidado a prestar atenção em assuntos sem importância. A crise financeira mundial se transformará numa Grande Depressão? A gripe suína (ou gripe A ou vírus H1N1) será fatal para a humanidade? Especialmente para distrair você de temas tão desagradáveis existem pelo menos duas rodadas de futebol por semana, 48 horas semanais de novelas e centenas de horas de jornalismo marrom, chapa-branca, dedicados quase que exclusivamente em manter sua dieta diária de assassinatos, traições e ídolos.
Existem vários tipos de ídolos. Existem os instantâneos e os que precisam ser reservados a todo o custo. Um ex-BBB ou uma mulher-qualquer-fruta pode cometer um deslize porque são descartáveis. Para a elite dos ídolos a maioria dos noticiários se recusam a noticiar algo que possa ser vexatório ou infame. É preciso saber vender o ídolo para mantê-lo o máximo de tempo possível no noticiário. Essa celebridade retribui ficando em cima do muro dos grandes temas. Os ídolos são preservados para vender mais, manter assunto, gerar audiência e assim continuar a roda de consumo sem questionamento.
Ligo novamente a TV e me arrependo. Em 15 minutos uma maratona do "nosso" Rei em comerciais e suas amenidades, para logo depois ver um tolo questionamento de uma apresentadora qualquer de um programa qualquer. Eles ficam com um olho no Michael Jackson e outro nos índices de audiência. Se for preciso eles choram copiosamente, editam vinhetas apelativas ou sobem a trilha-sonora melosa na esperança que você comece a chorar e pare de pensar.
O pai de Michael Jackson é o vilão da vez. O sujeito está sendo culpado por todos os males do mundo e da vida do astro. Quem sou eu para defender quem não conheço, mas é mais uma prova da criação da santidade - criar desculpas para o excesso de "medicamentos" e excentricidades.
Michael Jackson se tornou uma vítima do pai, dos médicos, dos advogados, da mídia e tudo o mais. É um caso a ser estudado profundamente. Mas, não quer dizer que uma pessoa que chega a este nível de celebridade não pode responder pelos próprios erros. Tudo parece ser desculpa para se criar um super-homem. Se fosse pobre, Michael Jackson seria chamado de racista, recalcado, pedófilo e drogado pelos mesmos veículos que tentam pintá-lo de herói, santo ou rei. Já notaram quantos reis e rainhas foram criados pela mídia?
Tudo está se transformando um grande reality show. E Michael Jackson é o grande ícone desta era. Pouco importa as políticas de Barry Seotero (ou seria Barack Hussein Obama?), o que importa é se ele e Nicolas Sarkozy olharam ou não para bunda de uma menina brasileira. Com Michael Jackson é a mesma coisa. Pouco se aprofunda na questão artística. Apenas ficam nos escândalos (com o viés de desculpas) e trivialidades. O que importa é um show de realidade que mesmo na morte o ídolo tem um script a cumprir.
Até as piadas de humor negro de Michael Jackson já cansaram. Cito algumas: Michael Jackson morreu engasgado com um pé-de-moleque; Michael Jackson chegou ao céu e perguntou pelo Menino Jesus; Michael Jackson nasceu negro, morreu branco e vai virar cinza. Eu não agüento mais ouvir piadas de Michael Jackson. A pior é a do garoto que pergunta para a mãe se Deus é preto ou branco ou se é homem ou mulher e a mãe diz que ninguém sabe. Logo, o menino conclui que Deus é Michael Jackson. Se depender mesmo da mídia Michael Jackson é Deus. Não deixa de ser irônico.
Pobreza, problemas, dúvidas? Pouco importa no grande circo que virou a imprensa mundial. O mais importante é saber os detalhes do testamento de Michael Jackson, quantas cirurgias ele fez, aonde o corpo do Rei do Pop será enterrado, quem ficará com seus filhos, quem são os verdadeiros pais, quantos remédios Michael Jackson tomava diariamente. Antes da morte de Michael Jackson você nem se preocupava com isso. Certo? Então por que você precisa saber disso agora? É importante para a sua vida? Nunca foi, mas agora tudo isto rende audiência porque eles despertam a sua curiosidade e você oferece sua mente de bom grado para ser moldada. Isto é tão importante quanto saber a diferença entre um edredom e um cobertor.
Um dia esta onda sobre a morte de Michael Jackson vai diminuir. Difícil prever quando vai passar, mas certamente este assunto voltará à tona, assim como o revival do Beatles com o lançamento de músicas inéditas nos anos 90.
O show do milhão não pode parar. Os fãs recentes vão querer tudo que for relacionado ao ídolo. Compilações de Michael Jackson, faixas em MP3 de Michael Jackson e até procurar na Internet jogos de Michael Jackson. E os que realmente acompanhavam a carreira do ator querem saber das músicas novas de Michael Jackson. Fiquem tranqüilos, o baú do Rei do Pop será um poço quase sem fundo. Daqui a alguns anos vão revelar músicas inéditas. Provavelmente, serão lançados DVDs com shows inéditos de Michael Jackson. E por que não lançam agora as músicas inéditas de Michael Jackson? Para que você possa comprar todos os sucessos e quando a onda baixar, comprá-los novamente com uma faixa inédita adicional. Edição Especial de Colecionador! Sempre funciona!
Eu adoro teorias conspiratórias. Uma diz que Michael Jackson não morreu. Está num rancho com Elvis Presley em algum lugar remoto vendo como seria sua própria morte. Noutra, Michael Jackson foi abduzido pelo governo e teria morrido e, posteriormente, trocado por um sósia anos atrás. Michael Jackson não morreu, apenas voltou para a sua galáxia! Eu adoro teorias conspiratórias porque elas são uma válvula de escape da imprensa tradicional e podem ser o ponto de partida para alguém que fala uma verdade que não poderia ser contada. Primeiro eles negam; depois ridicularizam e só então aceitam idéias totalmente novas. Assim foi e assim sempre será.
Essas teorias passam longe dos meios tradicionais que apenas querem transformar a população em idiotas úteis que consomem, agem, pensam e falam da maneira que eles desejam. E para isso é preciso defender os ídolos com um superaliado: o politicamente correto (esse câncer intelectual criado em laboratório para imbecilizar as pessoas e aprisionar o pensamento - um conceito que em si já é contraditório: ou é político ou é correto).
O bombardeio da mídia com a morte de Michael Jackson e a inclusão digital levou milhares de pessoas a procurar pela morte de Maicon Jackson, Maiki Chekson, Maycon Sekson, Maicom Jaqson, entre outras formas inusitadas de buscar pelo ídolo que há poucas semanas estava praticamente esquecido e falido. A procura por itens do músico/compositor/inventor/dançarino/ator foi tanta logo após sua morte que os mecanismos de busca acharam que fosse um ataque cibernético.
Michael Jackson cometeu erros? Quem não? Talvez tenha sido injustamente acusado de pedofilia por estar sempre acompanhado de crianças e ter muito dinheiro. É possível. Mas basta a celebridade morrer para ganhar um passe para o paraíso?
Deixem Michael Jackson descansar em paz. O cara foi mais uma vítima da Indústria Cultural. Até seu cadáver virou parte de um circo de horrores, chamado pomposamente de show de homenagem. Será que todos os presentes estavam interessados na ex-estrela mirim do Jackson 5 ou em suas próprias carreiras? E os fãs de última hora? Será que não estavam mais preocupados com uma parte de sua história pessoal que estava sendo enterrada junto com o ídolo?
Eu não agüento mais ouvir a morte de Michael Jackson. Eu não agüento mais falar da morte de Michael Jackson. Eu não agüento mais escrever sobre a morte de Michael Jackson. Ponto Final.
P.S.: Quem sabe agora a Vênus Platinada não aproveita e troca o tema de abertura do Vídeo Show? Eu não agüento mais ouvir a música de abertura do Vídeo Show!
Otávio Machado de Albuquerque - Publicado em 13.07.2009