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Corpo em carrinho de mão na Rocinha lembra Auschwitz
Paulo Giardullo - Publicado em 22.04.2004 - Revisado em 16.04.2006
É possível produzir arte depois de Auschwitz?
Essa era a pergunta que Theodor Adorno fazia depois das experiências com os horrores nazistas e stalinistas.
A cena do corpo de um suposto traficante sendo carregado em um carrinho de mão, por um policial, estampada nos jornais do país, recentemente, nos faz lembrar daqueles corpos nas carroças nos Campos de Concentração ou de Extermínio nazistas da 2ª Guerra Mundial. Ou daquelas ossadas amontoadas como escombros. Escombros de uma humanidade perdida. Como diria Hannah Arendt, os Campos de Concentração foram tentativas, vejam bem: tentativas apenas de se destruir tudo aquilo que nos faz humano. É isto um homem? Perguntava o texto de um judeu-italiano submetido aos campos.
O corpo de bruços, com a cabeça para frente, os braços jogados de lado, trajava o que me parecia camiseta e bermuda. Um policial fazia a segurança com algo que seria um fuzil ou uma metralhadora, a tira-colo.
Outro policial empurrava o carrinho, como a jogar um entulho fora. O entulho mulato, negro, feio, que insiste em aterrorizar e sujar a bela cidade maravilhosa e o país tropical abençoado por Deus... e visitado por gente fina do primeiro mundo. Entulho que incomoda, atrapalha o gozo das delícias pela burguesia vencedora da corrida capitalista, no seu maravilhoso mundo novo. Entulho que queremos evitar, esquecer, em última instância, simplesmente eliminar.
Damo-lhes pão e circo, a chance de ainda vencerem, como jogadores de futebol e cantores de pagode. O que mais eles querem, como elos mais fracos da corrente? Será que não entenderam as regras do jogo? É como aquela lei aplicada pela personagem de Tina Turner em Mad Max III – Além da Cúpula do Trovão: dois homens entram, só um homem sai. É a lei, “dois homens entram, um só homem sai”, dizia o refrão da multidão, inflamada por ela, exigindo que o “herói” matasse o gigante imbecil, já indefeso, repetindo ao pé da letra e incondicionalmente o refrão proposto pela dirigente. Mais ou menos como acontece em nossa realidade. Os dominados repetem exatamente o mesmo refrão dos dominadores, embora seus interesses jamais coincidam. Como isto é possível?
“É como o leão que mata a zebrinha, é a lei da selva, filho. É natural, vence o mais forte. Sempre foi assim, sempre será. Qualquer forma de igualdade é uma tentativa vã de ir contra a natureza, de estancar de modo artificial a saudável competição individual que é a mola-mestra do progresso e da felicidade. Agora eu sei por que passavam pra gente na infância aquelas imagens de leões pegando zebras, naqueles filmes de animais. Um dia, eu vi num banco, um texto afixado num mural, aconselhando aos funcionários, na concorrência com os bancos rivais, que sejam tigres e não alces. “Porque todo dia sai um tigre e um alce de casa, o que você quer ser?”. Que o outro seja o alce. Será que é legal ficar na pele da zebra caçada?
Mas estes “alces” ou “zebras” do sistema capitalista, não se conformam com o seu quinhão, não procuram se encaixar harmoniosamente no corpo e cumprirem as funções que lhe cabem, por exemplo, membros (estivadores, camponeses, operários: trabalho pesado), anticorpos: (soldados, policiais) e a escala inferior: o intestino, o lixeiro, o que lida com as fezes, com o entulho.
Teimam em tentar conseguir o que é dos outros por direito, dos órgãos, da cabeça. Para isto lançam mão de formas não convencionais e escusas, não raro, violentas. Quando agem assim, se tornam uma doença, que atrapalha o bom funcionamento do organismo. Se tornam uma ferida, um câncer, um tumor. Incomodam são um Estorvo, aliás título de um livro do Chico Buarque. Aí, a solução é óbvia e inevitável. Lancemos contra eles, os anticorpos, os glóbulos brancos (os policiais), que identificam e lhes aplicam o “remédio”, o corretivo. Ou estes tumores são debelados, com as células doentes isoladas em órgãos próprios, com algo tipo a uma quarentena, para voltarem à sociedade. Ou do contrário, é necessária a “solução final”. Auschwitz.
É realmente algo indesejável, forte, mas... tudo pelo bem coletivo... à vezes é necessário”. O povo quer a solução final. Qualquer pesquisa pode mostrar isto. Talvez as pesquisas oficiais não. Podem ser direcionadas, as pessoas podem se intimidar diante da televisão ou da prancheta. Podem querer mostrar sensibilidade, cultura. O que mostrará mesmo a “vontade de ordem”, é uma pesquisa informal, nas conversas de bares, nas esquinas, nas rodas da alta sociedade. Ordem! Ordem! É o que querem. “Ninguém mais tolera esses vagabundos, que vivem atazanando a vida de quem trabalha e produz”.
Não seria surpresa se propostas de medidas mais radicais, como o extremismo na repressão, imposição de condições subumanas, regimes fortes, restrição ou supressão dos direitos civis ou até a “solução final” tivessem aprovação para aplicação real em nossa sociedade, em pleno século XXI. Isso se houvesse alguma oportunidade prática delas serem aplicadas. Talvez isso não seja mais possível. Talvez elas sejam anacrônicas. Mas as pré-condições para o fascismo ainda existem na sociedade. Sempre existirão. Pelo menos em nossa sociedade ocidental-capitalista, principalmente dos países “em desenvolvimento”. Talvez não tenhamos as condições para aplicação real. Mas qualquer crise mais aguda aproxima o fascismo de nós.
Uma mulher, bancária, uma “tigresa”, bem sucedida, universitária disse que a solução para o conflito da favela da Rocinha é retirar todas as crianças e mulheres, dar um prazo para “os homens de bem” saírem e jogar uma bomba. Já tentaram algo assim com Hiroshima, mas não tiveram o cuidado de retirar os inocentes.
Um outro cidadão médio, vibrou quando viu a foto do corpo do traficante no carrinho de mão. “É isso mesmo! Este não trafica mais”!
Outro disse: “Esses vagabundos têm mais é que mofar na cadeia ou serem mortos mesmos. A gente aqui trabalhando e eles nessa afronta”.
Outro disse: “No tempo “deles” não havia isto. Ah! Se esses bandidos fizessem isto, na época... Em dois tempos estariam nos porões de tortura ou numa vala comum” (saudosistas, nostálgicos). Outro disse: “Ao invés de traficar ou roubar, porque estes caras não vão estudar e trabalhar?” Porque será?
Bem por aí vai. Mas este pessoal que pensa assim se esquece de que se eliminar um vem outro em seu lugar, como diz Raul Seixas em sua música sobre a Mosca na Sopa: “E não adianta vir me dedetizar, pois nem o DDT (polícia) pode assim me exterminar. Porque você mata uma e vem outra em meu lugar . Eu sou a mosca que pousou em sua sopa...”
Ou então a clássica frase: “Existem muito mais de onde estes vieram”. Se eliminam a Rocinha ou constroem um muro, isolando-a, o problema estará resolvido? Matar todos aqueles que se chamam “Zé Pequeno ou Zé Galinha, assim como os nazista matavam todos que se chamam Sara ou Jacob, nos trará a paz tão sonhada, a “pax burguesa”?
Não quero cair aqui naquela visão tradicional entre marxistas dos anos 70 e 80, de que “todo” crime é fruto da injustiça social e todo criminoso uma simples vítima da sociedade. Acreditar nisto, sem considerar outros fatores é ignorar as causas complexas do crime, estudados pela criminologia ou desconhecer a natureza humana. Existe a maldade, a crueldade, que assusta, aterroriza e ela é universal, acontece com pessoas de alta classe ou países de primeiro mundo.
Mas, o certo é que devemos repensar as bases morais que regem nossa sociedade, pois nem o amor condicionado e moralista cristão e a lei da competição darwinista são mais suficientes para explicar e dar estabilidade à sociedade. Nem tão pouco a teoria positivista da harmonia dos órgãos oferece respostas duradouras para as doenças sociais, pois os tumores não são apenas imperfeições de órgãos desobedientes e isolados, mas frutos das próprias contradições do corpo, sua má distribuição de nutrientes, sua arcaica e desigual distribuição de tarefas. As células cancerígenas têm sua gênese na seio do próprio corpo, nos principais órgãos, principalmente do cérebro, que coordena todo o corpo e não é “culpa” individual das células. Talvez possamos admitir que estas também têm sua parcela de erros. Talvez a culpa possa ser admitida por todos os membros do corpo. Em graus variados.
Talvez, como o problema esteja mesmo na própria concepção de organismo. Como disse Huxley no Capítulo 11, Educação para a Liberdade, do ensaio Regresso ao Admirável Mundo Novo, nunca a sociedade humana será por completo um organismo, como a colméia ou o formigueiro, mas no máximo uma organização, máquinas ad hoc preparadas para a vida coletiva. “Para uma térmite, o serviço da termiteira representa a liberdade perfeita. Porém, os homens não são totalmente sociáveis; são apenas levemente gregários”. Para entender o porquê disto, basta avaliarmos a desproporção da diferenciação biológica das duas espécies citadas: os insetos sociais e os seres humanos.
Como eu tentei dizer em meu artigo Eles (os negros) sempre se encaixam nas descrições dos suspeitos, publicado no duplipensar.net em 01.03.2004, é preciso se repensar uma nova formação ética e humanística para os policiais, para os cidadãos, para a sociedade e até para os “bandidos”. É necessário se investir em prevenção, em educação, em tolerância. Distribuição de riquezas, de oportunidades e de perspectivas seriam também “armas” importantes.
“Adorno oscila entre negar a possibilidade de produzir arte depois de Auschwitz e buscar nela refúgio ante um mundo que o chocava, mas que ele não podia deixar de olhar e denominar”. A violência que há cinqüenta anos podia parecer legítima àqueles que nutrissem a esperança abstrata e a ilusão de uma transformação total está, após a experiência do nazismo e do horror stalinista, inextricavelmente imbricada naquilo que deveria ser modificado: “ou a humanidade renuncia à violência da lei de talião, ou a pretendida práxis política radical renova o terror do passado”.
Leia também: Eles (os negros) sempre se encaixam na descrição.
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