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Estamos em perigo e eu entediado
Márcio Salgues - Publicado em 13.10.2003 - Revisado em 16.04.2006
Sabe aqueles dias em você não quer saber de nada? Pois é. Esse é um daqueles. Estou sem saco para ler nem escrever. Ao me acordar, já pus os pés no chão mal humorado e jurei que não leria nem escreveria absolutamente nada hoje. E estou me esforçando para isso. Isso porque tudo que tenho lido e visto nos noticiários ultimamente, gira em torno de um bando de loucos varridos.
Mas, como sou um leitor compulsivo, do tipo que, na falta de material à mão, segue pelas ruas lendo outdoors, pichações nos muros, placas de lojas, panfletos, letreiros de ônibus, bulas de medicamentos, manuais técnicos e tudo mais que se encontre ao alcance da vista, acabei por sucumbir à leitura de uma ou duas matérias de uma revista semanal enquanto vinha no ônibus para o trabalho. Só li más notícias. Depois praguejei contra mim mesmo por ter lido a matéria. E não adianta me dizer que está tudo bem. Não está!
O louco do Bin Laden está por aí, e ainda cutucou o louco do Bush na véspera dos dois anos do ataque ao World Trade Center. É verdade que o Osama está mesmo mais ocupado com o Grande Satã do hemisfério norte. Mas nós não estamos livres não. Afinal, também fazemos parte do mármore do inferno do hemisfério cristão ocidental. E, se a Al Qaeda resolver nos aterrorizar, só temos as nossas capengas Forças "Mal" Armadas, que mal conseguem guardar nossas fronteiras contra o tráfico de drogas.
O máximo que o Estado pode fazer é contratar a nossa bandidagem - essa sim, especializada - para praticar um contraterrorismo, bancado pelos cofres públicos. É até melhor do que investir mais dinheiro num programa espacial falido, enquanto o Fome Zero não sai do zero. De que adianta um programa espacial, se não se oferece nem educação para recompor o quadro de cientistas mortos em Alcântara em curto prazo? Mas continuando, eu sugiro o Fernando Beira-Mar como chefe do Estado Maior dessa força paramilitar. Aliás, ao invés de se manter essa discussão acerca do que fazer com o Fernandinho, poderiam pegar logo essa turminha, que já está atrás das grades dos nossos presídios de segurança mínima comandando o tráfico, enquanto os sustentamos com nossos impostos, e mandá-los todos à caça do Bin Laden e do outro louco, o Saddam, lá pelas montanhas do Afeganistão; seja lá em que buraco estiverem. É só largá-los de pára-quedas nas montanhas. Como bom patriota que sou, ofereço os serviços da senhora que lava e passa minhas roupas, para dobrar os pára-quedas que eles usarão.
Creiam-me. Estamos em perigo. Lembrei-me da sátira de Charles Chaplin a Hitler em O Grande Ditador e seu antológico balé com um globo. Com cristãos ensandecidos do lado de cá, muçulmanos fanáticos do lado de lá, um ditador ateu mais ao norte e o jogo de gato e rato entre Sharon e Arafat - que estão pouco se lixando para os sofredores cidadãos comuns palestinos e israelenses, que morrem em sua briga particular - dançando esse balé macabro com o planeta, logo veremos no Jornal Nacional as imagens de um cogumelo nuclear por aí. Isso, caso o sinistro não ocorra no Rio de Janeiro, pois nesse caso a concorrência vai sair na frente.
Falo com todo respeito, a todas as religiões e àqueles que, de forma ecumênica, buscam a paz entre os homens: eu preferiria que não houvesse religiões. Os cruzados cristãos em sua guerra santa dizimaram milhões de pessoas à espada. Mas, com a tecnologia de hoje, os novos cruzados do Islã podem fazer um estrago bem maior. Pior ainda, quando se tem um cristão atabalhoado como Bush controlando um arsenal nuclear que dá para destruir três vezes a Terra. Esqueçam esses filmes que nos dão uma visão sombria do futuro. Se tudo continuar assim, não vai haver futuro.
Cheguei ao trabalho e preciso me concentrar. Não quero mais pensar nos loucos. Mas não lerei os e-mails recebidos nem instruções, não farei consultas aos manuais, nem escreverei mensagens, notas, bilhetes ou o que quer que seja. Não farei uso de caneta hoje. Não assinarei nada. Não porei sequer minha rubrica em lugar algum. Hoje eu não existo. Deveria ter ficado em casa. Deveria nem ter acordado. Assim o dia passaria despercebido. Seria somente um lapso de tempo. Aliás, eu não deveria sequer estar digitando isso aqui. Sou mesmo um fraco! Tudo isso deveria apenas estar registrado na minha mente. Pensando bem, por que registrar, mesmo na mente? Ela deveria estar desligada. Uma espécie de apagão temporário dos neurônios - não mais do que isso. Ou ainda, por que pensar? Não tem jeito. Não consigo fugir dessa sina medonha. Ainda mais lembrando daqueles loucos. O que estarão tramando neste exato momento?
Eu deveria agora mesmo imergir numa profunda meditação e deixar meu corpo, partir numa viagem astral. Transcenderia todos os limites da minha reles matéria, no silêncio absoluto de um mundo onde, eu imagino, seja tudo colorido, psicodélico e luminoso. Onde a harmonia do divino emana e enche nossa alma de paz e tranqüilidade. Talvez encontrasse até o Elvis. Quem sabe o Cazuza, o Renato Russo e a Cássia Eller fazendo um show. Que falta que eles fazem... Seria maravilhoso! E eu me esqueceria dos loucos.
Mas não acredito em nada disso! Talvez a única solução para o meu intento de abster-me da leitura e escrita por hoje fosse um coma repentino. Um estado de quase morte. Como aqueles casos, descritos por pessoas que saíram do coma e dizem ter visto um túnel escuro com uma luz no fim. Mas é melhor ser prudente! Se o túnel é escuro, deve ser cheio de lodo, nojento e com baratas. E se a tal luz no final for um trem vindo em minha direção? Por que aqueles loucos não vão parar lá?
É melhor eu trabalhar mesmo. Assim talvez o tempo passe mais rápido. Sugiro que você também vá fazer jus ao seu salário e arranje o que fazer. Mas aqueles loucos não me saem da cabeça!
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