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Publicado em 02.09.2004


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O resultado dos Jogos Olímpicos refletem as mudanças ocorridas na história. Os Jogos Modernos podem ser divididos em quatro épocas distintas. Nos primeiros Jogos (1896 a 1912) todos os anfitriões venceram os jogos exceto os de Atenas, vencidos pelos EUA. Os anfitriões levam vantagem porque não precisam enviar atletas, não tem despesas extras, participam de quase todas as competições e tem a torcida a seu favor. Mesmo assim, nas primeiras Olimpíadas poucos países enviaram atletas, apenas 12 países participaram dos primeiros Jogos em Atenas. Em 1904 os EUA conquistaram mais de 80% das medalhas de ouro. Já em Estocolmo os suecos venceram os estadunidenses por apenas uma medalha de ouro, mesmo totalizando menos medalhas.

Primeiros Jogos Olímpicos (três primeiros colocados no quadro geral de medalhas):
1896 - EUA, Grécia (anfitriã), Alemanha
1900 - França (anfitriã), EUA e Reino Unido
1904 - EUA (anfitrião), Cuba e Alemanha
1908 - Reino Unido (anfitrião), EUA, Suécia
1912 - Suécia (anfitriã), EUA e Reino Unido

A primeira Guerra não deixou que os jogos de 1916 fossem realizados. O período Entre-Guerras foi marcado por uma supremacia dos EUA, das cinco Olimpíadas disputadas neste período os estadunidenses ganharam quase todas com folga, só perdendo os famosos Jogos Olímpicos de Berlim, mesmo com o show de Jesse Owens. O motivo é simples. A Europa estava destruída, muito de seus atletas tinham ido para o front e a nova geração não tinha condições nem preparação para competir com os atletas dos EUA.

Olimpíadas no Entre-Guerras (três primeiros colocados no quadro geral de medalhas):
1920 - EUA, Suécia e Reino Unido
1924 - EUA, Finlândia e França (anfitriã)
1928 - EUA, Alemanha e Finlândia
1932 - EUA (anfitrião), Itália e França
1936 - Alemanha (anfitriã), EUA, Hungria

Durante a Guerra Fria a supremacia ficou entre os EUA e a URSS. Nunca os Jogos tiveram tanto apelo político. Em 1948 a Inglaterra estava ainda destruída pela Guerra. Este foi o segundo pior desempenho de uma nação anfitriã. Os britânicos só conseguiram três medalhas de ouro, terminando o quadro geral em 12º lugar, superando apenas o México, 15º em 1968. A URSS só passou a competir em 1952, daí por diante foram 10 olimpíadas de equilíbrio entre as superpotências. Seis foram vencidas pelos soviéticos e quatro pelos estadunidenses. Nos Jogos de Londres, os países do Eixo não participaram. A Alemanha só voltou em 1952, que mesmo dividia competiu unificada até 1964.

Em 1976 os EUA pela primeira vez não ficaram entre os dois primeiros colocados. Os estadunidenses foram superados pelos soviéticos e alemães orientais. Foi um duro golpe para a maior economia do mundo. Este resultado foi o grande motivador para o boicote das Olimpíadas seguintes em Moscou. O medo de um novo vexame na casa do inimigo era inadmissível. Em março de 1980 o presidente Jimmy Carter anunciava a decisão de boicotar os Jogos Olímpicos em nome da paz e contra a invasão do Afeganistão. Vale lembrar que neste mesmo ano os EUA Cortaram relações com o Irã, Saddam Hussein tornou-se presidente do Iraque e invadiu o vizinho Irã. Duas décadas depois os EUA invadiriam o Afeganistão e o Iraque. Os atletas, que nada tinham a ver com toda a política ficaram de fora do evento. Mesmo com o boicote liderado pelos estadunidenses e com apoiou da dama de ferro Margareth Thatcher, o Comitê Olímpico Inglês enviou atletas para os Jogos.

Em 1984 os soviéticos deram o troco ao boicote de 1980. Em maio Chernenko anunciou o boicote aos Jogos de Los Angeles. Um dos grandes erros de todos os tempos do COI foi programar as Olimpíadas nas superpotências em seqüência. Assim como a ação dos EUA, a atitude dos soviéticos era injustificável. Mesmo com o boicote liderado pela URSS, as Olimpíadas de Los Angeles tiveram o recorde de países participantes até então. Pela primeira vez os três primeiros colocados de uma Olimpíada eram diferentes da anterior. Os jogos de Seul foram esperados pelo reencontro de estadunidenses e soviéticos depois de 12 anos. Novamente, os EUA ficaram em terceiro lugar, repetindo o resultado de 1976. Cuba e Coréia do Norte boicotaram os jogos de Seul. Em 1986 foram realizados os primeiros Jogos da Amizade (Goodwill Games) com o propósito de apaziguar o vexame das superpotências dos boicotes de 1980 e 1984. O primeiro foi realizado em Moscou (1986), programando sempre um revezamento em as superpotências. Seattle sediou em 1990, depois foram São Petersburgo (1994) e Nova York (1998).

Olimpíadas na Guerra Fria (três primeiros colocados no quadro geral de medalhas):
1948 - EUA, Suécia e França
1952 - EUA, URSS e Hungria
1956 - URSS, EUA e Austrália (anfitriã)
1960 - URSS, EUA e Itália (anfitriã)
1964 - EUA, URSS e Japão (anfitrião)
1968 - EUA, URSS e Japão
1972 - URSS, EUA, Alemanha Oriental
1976 - URSS, Alemanha Oriental, EUA
1980 - URSS (anfitriã), Alemanha Oriental, Bulgária - Boicote estadunidense
1984 - EUA (anfitrião), Romênia, Alemanha Ocidental - Boicote soviético
1988 - URSS, Alemanha Oriental, EUA

Depois da Guerra Fria os Jogos Olímpicos passaram a desconcentrar as medalhas em poucos países. O mundo começara a se tornar pequeno e as marcas esportivas passaram a ter cada vez mais espaço e influência no esporte no lugar dos países. O amadorismo já não existia mais nos jogos, o COI enfim cedeu a exigência de não proibir patrocínios aos atletas.

Em 1992, a URSS já não existia mais. As repúblicas soviéticas (exceto as bálticas) competiram ainda sob uma única bandeira (CEI - Comunidade dos Estados Independentes), os alemães competiram unificadamente, o que não acontecia desde Berlim. O que se esperava era uma Olimpíada sem conotações políticas, mas os catalães exigiram o hasteamento das bandeiras da Espanha e da Catalunha (região que luta pela independência), assim como os dois hinos deveriam ser executados nas cerimônias oficiais. O mundo dominado pelas marcas foi fundamental para que a Olimpíada de 1996 deixasse de ser em Atenas (em comemoração ao centenário das Olimpíadas modernas) para a cidade sede da Coca-Cola, apenas 12 anos depois de uma olimpíada nos EUA. O terrorismo começava a assustar com a explosão de uma bomba que vitimou duas pessoas no Parque Olímpico lotado.

De 1996 a 2004 os EUA venceram as olimpíadas com uma margem cada vez menor de ouros. Totalizando os resultados das ex-repúblicas soviéticas nota-se uma reordenação do total das medalhas, que deixaram de ser concentradas nos países do Leste Europeu, RFA, EUA e URSS como foram na Guerra Fria. Em Atenas, 71 países conquistaram medalhas; nos anos 1970 este número não chegava a 50. Enquanto a reordenação do total de medalhas migra para os países menos tradicionais, Japão, China e Austrália começam a ganhar mais medalhas, enquanto França e Itália se mantém entre os primeiros medalhistas. Os Cubanos (que não ficam de fora dos dez primeiros desde 1972), Finlandeses (pior participação em todos os tempos) e os países africanos foram os pontos negativos desta edição. Dos 20 primeiros colocados do quadro de medalhas, 13 eram europeus, três americanos, três asiáticos e um da Oceania. O melhor desempenho de um país africano foi o 28º lugar da Etiópia (dois ouros, três pratas e dois bronzes).

Olimpíadas na Época das Grandes Marcas (três primeiros colocados no quadro geral de medalhas):
1992 - CEI, EUA, Alemanha
1996 - EUA (anfitrião), Rússia, Alemanha
2000 - EUA, Rússia, China
2004 - EUA, China, Rússia

A China, próxima sede, vem despontando sem parar no campo político e esportivo. Depois de anos renegando as olimpíadas, os chineses decidiram voltar a participar somente em 1984, o país estreou bem em Los Angeles com o 4º lugar (15 de ouro - 32 no total). Com a volta do bloco comunista, os chineses ficaram com o 11º lugar com 28 medalhas, sendo apenas 5 de ouro. Quatro anos depois em Barcelona, os chineses também terminaram em 4º lugar com 54 medalhas, 16 de ouro. O desempenho em Atlanta melhorou para a China, que terminou os Jogos em 4º lugar com 50 medalhas, sendo 16 de ouro, ficando atrás dos EUA, Rússia e Alemanha. Em 2000 os chineses voltaram a melhorar no quadro de medalhas, o país subiu para o 3º lugar geral (59 medalhas - 28 de ouro, quase o dobro de ouros em relação a Atlanta). Os chineses ficaram atrás apenas dos EUA e Rússia. Em Atenas, a China se superou e ocupou o segundo posto (32 medalhas de ouro), atrás apenas três medalhas de ouro dos EUA no quadro geral. No total de medalhas, os chineses conquistaram 63 medalhas, superados pelos estadunidenses (103) e russos (92).

Dentro deste cenário nota-se que os chineses farão de tudo para superar os EUA em 2008. Veremos uma disputa pela supremacia como não se via desde a Guerra Fria e um espetáculo ideológico desde os Jogos de Berlim. Faixas, cartazes, multimídia e todo o tipo de propaganda para mostrar ao mundo uma nova China será a mensagem dos Jogos de Pequim, com protestos pela liberação do Tibet e projetos de boicote em todo o mundo.

Em Pequim as medalhas terão um valor ainda maior diante desta nova disputa pela hegemonia. A seleção de basquete dos EUA, ex-dream team e bronze com reservas da NBA em Atenas, deve comparecer completa para os Jogos desta vez. Japoneses, russos e australianos disputarão o espaço para evitar a polarização entre chineses e estadunidenses. Os europeus, que se proclamaram vencedores das Olimpíadas de Atenas (se os países da UE competissem sob uma única bandeira venceriam - hipoteticamente - os jogos) prometem surpreender. As olimpíadas de Pequim podem restaurar um mundo rumo ao controle dos cidadãos e a uniformização das opiniões. A conferir.

A Olimpíadas de Berlim foram as primeiras da história com o objetivo de se propagar uma ideologia política. Este fenômeno será repetido em Pequim em 2008. Um acontecimento que não se vê desde a Guerra Fria. Os chineses, que despontam como potência olímpica a cada olimpíada, farão de tudo para ficar em primeiro lugar no quadro geral de medalhas e fazer uma festa inesquecível para mostrar ao mundo uma nova China.

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