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Noruega, Olimpíadas e Mendigos
Márcio Salgues - Publicado em 27.08.2004
Ah pobres coitados... Não bastasse o sofrido padrão de vida que têm, os noruegueses ainda são obrigados a suportar a criminalidade bárbara que os acomete no dia-a-dia, com uma brutalidade que choca até corações empertigados, como o deste humilde cronista que vos escreve. No último fim de semana, dois homens meio desajeitados, ao que parece, sem muita aptidão para o roubo e menos ainda para o trato com obras de arte, levaram do Museu Munch “O Grito” e “A Madonna” do pintor Edvard Munch, avaliados em US$ 100 milhões. Para nós isso é uma ninharia, naturalmente, já que quantias insignificantes como essa representam “uns trocados das nossas economias”, como costuma dizer o velho Salim. Todavia, sabedores de nossa nababesca condição de minoria abastada no planeta, havemos de convir, com muita humildade, que faz muita falta aos povos mais miseráveis.
Cá no nosso Reino das Bananeiras Frondosas, felizmente não temos esse tipo de problema. Longe de mim afirmar que somos melhores que os demais povos, por favor. Mas, pelo bom acaso do destino, a história nos proporcionou melhores condições de existência. Aqui não temos grandes preocupações, senão acompanhar os jogos olímpicos na narração emocionada do “Bueno” arauto do nosso reino. Por falar em jogos olímpicos, nossos atletas Mendigos é que deveriam estar lá. Já viram quantas medalhas conquistaram? Na província paulistana 15 atletas já levaram suas medalhas de ferro, na cabeça. Só não se sabe ao certo a quem se devem os louros, já que o Governador-Mor e a Alcaide se engalfinham pelos méritos. Só é lamentável que seis desses nossos atletas não tenham resistido à emoção e tenham passado dessa para melhor. Na província pernambucana, tivemos três atletas que conquistaram suas medalhas, porém, mais pesadas, de chumbo, também na cabeça. Só um sobreviveu à tamanha alegria. Os noruegueses devem morrer de inveja de nós.
Às vezes me canso desse nosso padrão bon vivant. Aqui deitado, ditando essas linhas ao meu assessor, degustando esse modesto Cabo De Hornos Cabernet Sauvignon enquanto minha massagista trabalha – aliás, ela passou a me cobrar os olhos da cara depois que andou se deixando fotografar com aquele garoto-propaganda que nas horas vagas joga futebol –, penso seriamente em dedicar-me a algum trabalho filantrópico. Alguma coisa na área dos esportes que, aliás, é uma aptidão inata do nosso povo. Tome-se como exemplo o impressionante número de medalhas que os nossos atletas vêm amealhando na terra de Sócrates.
Um trabalho desse tipo é dificílimo, eu sei, pois nosso desempenho é fruto de um sistema educacional exemplar, ao passo que nos reinos menos favorecidos, os moleques só se destacam no futebol, por exemplo, pois, por falta de opções de lazer durante a infância, passaram muito tempo nas ruas chutando bolas confeccionados com molambos, que antes eram usados como camisas. No outro extremo, os raros que alcançam a posição mais alta do pódio, quase que invariavelmente, são filhos da escassa nobreza do seu reino natal. O importante, porém, é sermos generosos e compartilharmos com os mais pobres aquilo que temos em abundância. Principalmente os atletas Mendigos.
Preciso refletir mais a respeito. Passem bem meus caros concidadãos.
(... Hummm... Muito bom Daniela... Um pouco mais rápido... Isso... Assim... Assim está bom! Agora é minha vez!).
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