Quando o embate filosófico se partidariza < As relações entre tiranos e filósofos na política da Grécia Antiga< Dossiês < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 


 


Mark Manahan - Publicado em 19.09.2004




Publicidade


Fim do séc. IV - início do séc. III a.C. A Grécia, que nunca existira como país continua fragmentada em ligas, mas agora em função de apoiar ou não o reino mais próximo dentre os que realmente contam: as monarquias helenísticas. O tempo das póleis passou. Agora elas se integram em corpos políticos cada vez maiores, simaquias de caráter mais permanente que as saudosas combatentes do século V a.C14, veículos de poder de Atenas e Esparta. Tudo isso para poderem contar com algum peso na luta de enormes recursos humanos e materiais que se estende pelo mediterrâneo oriental e avança até as fronteiras da Índia. Os reinos helenísticos estão em choque. Destacam-se três: os Lágidas do Egito, o mais antigo e o que durará mais15, o reino Selêucida que englobava a parte ocidental do oriente médio atual, e os Antigônidas na Macedônia, contando com o suporte cambiante de alguma simaquia grega.

Momigliano define de forma brilhante o envolvimento das correntes filosóficas no jogo político, focando sua atenção no papel político dos peripatéticos.

Por uns poucos meses em 318, Atenas teve um governo democrático o qual o povo esperava fosse protegido pelas sarissas16 macedônias de Poliperconte17. Perto do fim do ano, uma batalha naval destruiu o poder de Poliperconte. Seu rival Cassandro18 restabeleceu um governo de cidadãos ricos em Atenas e manteve uma guarnição em Muniquia19 para apoiá-lo; mas, tornado cauteloso pelos eventos, ele reduziu pela metade a qualificação censitária mínima para a inclusão na cidadania total comparada com a imposta por Antípatro20 em 322. O Almirante da frota de Cassandro era Nicanor, genro e filho adotivo de Aristóteles; com sua entrada triunfante no Pireu, os Peripatéticos obtiveram o poder. Por 10 anos Atenas foi administrada - em benefício da Macedônia, mas com considerável uso de teorias Peripatéticas - por Demetrio de Falero, um pupilo de Teofrasto.21

Atenas já não era então o poder político-militar que fora na época clássica, não tinha mais condições de lutar sozinha contra as forças colossais dos grandes jogadores. Mas ainda era uma jóia rara, uma espécie de prêmio simbólico, um passaporte para o controle da Grécia, pelo prestígio que ainda tinha. E boa parte desse prestígio vinha da força cultural da cidade, de seu passado e presente, ainda naquela época e por muitos séculos mais, como matriz intelectual do pensamento antigo. Boa parte desse simbolismo extraía sua força da atuação constante da Academia. Assim, se lembrarmos o quanto a Academia era significativa, podemos compreender que ela tivesse virado uma espécie de trampolim para uma posição de poder político no interior da cidade22. O que podia valer uma bela aliança do líder da corrente filosófica dominante - elas viviam em disputa no interior da Academia - com algum monarca helenístico interessado em reforçar sua posição na Grécia como um todo.

No interior da Academia, em fins do século IV - princípios do século III a.C. a disputa central era entre Peripatéticos e as novas correntes, Estóicos23 e Epicuristas, com os Céticos fazendo alguma agitação de permeio. Vemos Momigliano descrever um "curto período de democracia por alguns meses" em Atenas, no ano de 307. Dá para se imaginar o caos reinante na cidade, pois instituições democráticas levam costumeiramente décadas para se afirmar. No jogo entre os potentados macedônicos, o respeito a uma autonomia relativa de Atenas somava pontos aos olhos da Grécia inteira. E nesse jogo, Atenas que já não era potência política e não tornaria a sê-lo, tornou-se a capital cultural do mundo antigo. A sede da sua Filosofia. E ela já o era há quase um século. Mas foi um transporte de sentido poucas vezes visto... de potência política, a poder esvaziado e daí para pólo de referência cultural. O problema é que tal democracia, permitida e protegida por um dos muitos potentados macedônicos - primeiro Cassandro, depois Demétrio Poliorcertes - era na verdade um governo de testas-de-ferro, reunidos ideologicamente em torno das suas concepções filosóficas sobre como gerir a si mesmo, como gerir o estado e finalmente o mundo. Uma lembrança adicional da mistura político-filosófica ocorre após a queda do governo de Demétrio de Falero. O regime sucedâneo, espécie de Democracia frágil, como já destacamos, patrocinada pelos generais inimigos de Demétrio Poliorcetes e seu pai Antígono Monoftalmo, votou uma lei no mínimo curiosa: tornava-se proibido abrir e manter escolas sem a direta aprovação do conselho. Momigliano declara expressamente que "era uma medida para atingir os peripatéticos que apoiavam Demetrio de Falero".24

O que chama a atenção nesse quadro é ver os filósofos renderem-se ao apelo do poder - uma vez mais, como pudemos constatar a partir dos exemplos acima. Só que dessa vez não se tratava de um caso isolado, de um grande expoente - Sócrates - inspirando grupos de tiranos ou um monarca tirânico - caso de Platão. Ou mesmo um discípulo da Academia tomando o poder pela força - Díon. Ou sendo assassinado por um colega - Calipo25. Dessa vez as facções filosóficas da cidade entraram na disputa política como gangues organizadas, ou frações partidárias dos combates surdos dos bolcheviques. Leva-nos a pensar até que ponto pode-se refletir sobre o mundo sem intentar ter poder sobre ele. Mesmo uma reflexão rápida sobre filosofia pode constatar o quanto ela é direcionada para explicações totais, para uma fundação do ser. Como já citei antes, pensando no que Giovanni Reali, por exemplo, diz... A filosofia não tem como objetivo a aplicação prática. Toda vez que isso é feito ela se transforma em Ideologia. E pelo que pudemos observar, não apenas entre os gregos antigos mas entre nazistas, comunistas e figuras semelhantes, essa atuação política dos filósofos e de suas agremiações assume proporções desastrosas e mesmo genocidas. Mais uma vez cito Momigliano, destarte em outra obra26, na qual se refere a Hermipo, escritor do século III a.C. como tendo sido autor de uma obra intitulada "Vidas daqueles que passaram da Filosofia a Tirania e ao Governo Despótico". Entre os próprios antigos, a problemática que levantei neste artigo não era, de modo algum, desconhecida27.

A favor dos filósofos, vai uma reflexão: era o próprio início da Filosofia e não se tinha uma dissociação muito grande entre ofícios a ponto de um filósofo ser considerado enquanto tal. Mesmo hoje isso é difícil. Perguntem a qualquer um o que Marx era, e poucos irão responder "filósofo". Acrescento ainda que na Grécia Antiga, o homem era aquele animalzinho eminentemente político... sentia-se com direitos a participar diretamente do governo e também de exercê-lo. De forma democrática ou tirânica, não importava, era conforme a chance que surgisse e o seu perfil lhe permitisse aproveitá-la. Assim, não é de admirar, ver os filosofinhos metidos até o pescoço no lodaçal dos golpes de estado. O que muito me admira, e isto sim procuro desmistificar, é essa visão totalmente positiva do filósofo antigo como alguém puro, preocupado apenas com o saber e a liberdade! É uma idéia incompleta, que eu espero ter contribuído para por em desuso. Não tendo claro, a pretensão de ser o primeiro a fazê-lo, mas a pretensão de reforçar essa imagem do filósofo como alguém mais humano, sujeito a erros e ambições, em nada transcendentes da sua condição humana ou social.

Notas
14 - Confederação de Delos e Liga do Peloponeso. As simaquias, como se sabe, eram alianças militares, ofensivas ou defensivas entre as cidades-estado gregas. Tais alianças não implicavam em qualquer concessão da independência das mesmas em tempos de paz. Pelo menos, não oficialmente. Na prática, Esparta foi apenas o exemplo mais completo de como a cidade-estado dominante impunha sua vontade às demais. Atenas não ficou atrás. Assim como outras cidades-estado líderes em outras simaquias.
15 - Sua última monarca, a tão famosa Cleópatra VII, se suicidará já como parte do episódio da conquista romana, apenas em 30 a.C., encerrando 3 séculos de domínio greco-macedônio sobre o Egito.
16 Lança de assalto macedônica. Arma padrão das falanges, e parte visível da reforma militar de Filipe II, que lhe permitiu sujeitar grande parte da Grécia ao reino macedônico. Filipe II era o pai de Alexandre o Grande. 17 General macedônio. Tentou assumir a regência da Macedônia após a morte de Alexandre em 322, sem sucesso.
18 Terrível General de Alexandre. Disputou o poder com os candidatos a regente para tornar-se regente único. Chegou a enfrentar a própria mãe de Alexandre, Olímpia, mulher igualmente terrível, suspeita de mandar assassinar Filipe, seu ex-marido. Olímpia tentava garantir os direitos do neto, filho de Alexandre com sua esposa persa, Roxana. Quando Cassandro conseguiu captura-los após uma batalha, os 3 jamais tornaram a ser vistos. Livrava-se, de um só golpe, da mãe de Alexandre, de seu herdeiro criança e da esposa que Alexandre mais prezava.
19 - Bairro e Praça-forte de Atenas, a partir do qual era possível controlar os acessos da cidade.
20 - Regente da Macedônia sob Filipe II e Alexandre, na ausência destes. Sobreviveu a ambos.
21 - Grifos nossos. Tradução também.
22 - Do jeito que DA's, CA's e DE's nas universidades são trampolins para uma carreira político-partidária. A diferença é que intelectualmente o movimento estudantil já não produz mais nada. Não há tempo: eu quero verba, verba, verba...
23 - Que se reuniam na Stoá Poikilé. O Pórtico Pintado. Stoá... Estóicos. Decepcionante.
24 - Momigliano, Essays on Ancient and Modern Historiography, p. 41.
25 - Uma pequena discussão neste ponto. Segundo Plutarco, Díon, cap. 54. Platão afirma que Calipo e Díon não se conheceram na Academia, mas na iniciação dos Mistérios. Supostamente em Elêusis... Platão livrando a cara da Academia? silêncio.
26 - The Development of Greek Biography - O desenvolvimento da Biografia entre os gregos, p. 9.
27 - É bom lembrar que Hermipo é citado no Dicionário Biográfico Quem foi Quem na Grécia Antiga como sendo autor bastante fantasioso em algumas obras. Era muito imaginativo e costumava completar as lacunas que encontrava. Acabou servindo de base para alguns desastres como Diógenes Laércio, historiador com pouquíssimo rigor. Diante do exposto neste artigo, penso que pelo menos o título da obra - não conhecida dos modernos - parece indicar uma certa freqüência do problema, bastante perceptível.

Leia também os outros artigos do Dossiê: As relações entre tiranos e filósofos na política da Grécia Antiga


[+] Envie este artigo para um amigo: