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Platão e Díon
Mark Manahan - Publicado em 15.09.2004

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Platão como seguidor direto de Sócrates e co-formulador – ou formulador e perpetuador único, não há como saber – de suas idéias, seu principal propagandista9 e discípulo mais famoso, continuou a tendência aristocrática, mas já sem nenhum apelo à liberdade como registrado nas histórias que se atribuem à figura de Sócrates. Sempre foi muito mais confortável atribuir um pensamento aristocrático e mesmo oligárquico a Platão do que a Sócrates. Mais uma vez esquece-se das circunstâncias. Aceita-se que Platão tenha sido um oligarca emperdenido, mas esquece-se quem o orientou. É como dizer que o ovo da serpente não teve mãe.10
Platão como Xenofonte, fez uma apologia socrática, onde explicava os atos e mesmo a morte do mestre. Ambos eram seus discípulos e os relatos que conhecemos sobre Sócrates, vem em grande parte destas suas duas criaturas.11 Lembro isto para mostrar como a democracia foi demonizada na obra de Platão, pois para ele era uma coisa ruim que matara seu mestre. Não! Esqueçamos o lado pessoal. Era uma coisa ruim que igualava aquilo que não poderia ser igual e matava àqueles que intentavam melhorá-la. Portanto, para Platão, a democracia já tinha um vício de origem. Inercialmente tendendo à imperfeição e à injustiça. Este cidadão constrangido, atendeu ao pedido de um discípulo seu, Díon, para ensinar a filosofia ao tirano da Sicília, Dionísio. Platão teria ido três vezes à ilha para tal fim, cada vez com menos sorte. Teria se desentendido progressivamente com o tirano e na terceira viagem chegou mesmo a ser vendido como escravo pelos marinheiros que faziam o transporte. O próprio Díon acabou destronando o tirano, tomou o poder, foi expulso da ilha pela população enraivecida com sua péssima administração, retomou o poder com o auxílio de alguns mercenários e amigos, incluindo aí colegas da Academia, igualmente discípulos de Platão, e terminou a vida de forma miserável odiado por todos, cada vez mais autoritário até ser assassinado. Por um dos colegas da Academia que havia levado para auxiliá-lo!12 Segundo Plutarco (Díon, cap.22): “(...) Díon ordenou o recrutamento de mercenários (...). Secundaram-no diversos políticos e filósofos, entre os quais Eudemo de Chipre (...) e Timônides de Lêucade. Atraíram também o tessálio Miltas, um adivinho que tomara parte nos colóquios da Academia.”
Penso que os eventos descritos e as reviravoltas violentas desse relato são bastante eloqüentes. O sistema platônico é posto à prova e não é bem sucedido. Caímos numa questão conceitual e ontológica muito freqüente nos dias de hoje: era platonismo? O Leste Europeu era Socialismo? O que interessa é que, com todo o suporte, de discípulos, de tiranos, e até mesmo do formulador do Platonismo, sua excelência fundante, o sistema não vingou. Seria bem interessante ver Marx conduzindo a Comuna de Paris ou o Bolchevismo Russo mas tal não aconteceu. Não que eu duvide que o resultado seria bem semelhante ao ocorrido, mas...
Claro que há uma consideração importante. A Filosofia não foi concebida para ser um sistema aplicado, uma coisa prática, uma panacéia para os problemas. Embora Platão tenha se deixado seduzir pela perspectiva de testar suas idéias, ele foi à Sicília para educar o tirano, não para administrar o estado. Posso imaginar porém, o grau de frustração que ele teve ainda em vida ao ver mal-sucedidas as suas tentativas. Não creio que tenha visto o triste fim de Díon, mas seu insucesso com Dionísio foi o bastante, ou deveria ter sido, para pôr freios a alguns pretensos conceitos. Penso porém que, dado o alcance milenar do platonismo, a lição siciliana pouco tenha contribuído para uma revisão do sistema. Parece-me que foi só aí que Platão lembrou que não buscava uma aplicação do mesmo.13
Notas
9 - Sempre na hipótese de que Sócrates tenha realmente existido. Assustado ? Se a existência de Cristo é discutida, eu posso muito bem discutir a existência de Sócrates...afinal ambos seriam apenas tagarelas que não deixaram nada escrito e outros escreveram atribuindo-lhes idéias.
10 - Ou como atribuir apenas a Lênin o autoritarismo bolchevique, uma “deturpação” da teoria marxista. Com o gigantesco projeto que Marx apenas delineou que se podia esperar, flores? Existe revolução sem sangue e excessos em escala mundial? Aliás, existe Revolução? Se existir, ninguém que a proponha e deixe sua instrumentação no ar, pode ser isento dos excessos decorrentes daquilo que propôs.
11 - E de Plutarco, que felizmente viveu 500 anos depois.
12 - Plutarco, Vida de Díon
13 - Que digo? Isto é uma forte ironia. Não creio ser possível um homem na vivência e com as relações pessoais, familiares e sociais de Platão ter criado um sistema político tão detalhado (em A República e revisto em Leis) apenas para refletir sobre a cidade ideal, sem qualquer intenção política ou mesmo golpista, ou seja, sem qualquer intenção prática de aplicar o sistema. Só que desta vez, ao contrário de 404, os atenienses já estavam avisados e as condições não eram as mesmas da época da derrota para Esparta. Platão fez fora porque dentro não podia! Quer dizer, tentou fazer fora e não conseguiu chegar lá.
Leia também os outros artigos do Dossiê: As relações entre tiranos e filósofos na política da Grécia Antiga
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