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Mark Manahan - Publicado em 11.09.2004




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Sucintamente as circunstâncias que levaram a condenação de Sócrates foram as seguintes: Atenas e Esparta tinham saído da famosa Guerra do Peloponeso, após 27 anos de conflito (431-404 a.C.). O mundo grego estava exaurido, Atenas perdera a guerra, a hegemonia, os tributos, as alianças. Tudo enfim, inclusive o próprio regime democrático e a independência política. Os espartanos colocaram uma guarnição de hoplitas – soldados pesadamente armados – para apoiar um regime de ex-cidadãos de Atenas, que agora concentravam todo o poder: os 30 Tiranos. Desses homens, muitos eram discípulos de Sócrates e membros da juneuse doreé de Atenas e todos eram aristocratas convictos e bastante prejudicados com a guerra. Simpatizavam com o modelo espartano, e as lideranças democratas estavam de certo modo caídas em desgraça pelo resultado infeliz da guerra contra Esparta que os levara à pior condição desde o início da Democracia em Atenas em 510 a.C.: a ocupação por uma outra polis, sua inimiga política e mesmo adversária enquanto modelo social. Os membros do Demos se reorganizaram e retomaram a cidade a partir do Pireu, seu tradicional reduto político. Crítias, o mais sanguinário e líder do tiranos foi morto. A Oligarquia dos 30 tiranos chegava ao fim após dois anos (403-401 a.C.). Em 400 a. C. Sócrates foi acusado em processo por Ânito, um homem ligado aos democratas, a quem ele havia ofendido pessoalmente em outra ocasião. Ânito funcionou como testa-de-ferro. As acusações contra Sócrates foram: corromper a juventude e desprezar as divindades da cidade.

A figura de Sócrates é emblemática de muitos modos nos problemas que aqui levantamos. É surpreendente ver quantos estudiosos, para não falar de pessoas comuns que tem um vago conhecimento sobre ele, o vêem antes como uma entidade, um símbolo, e não como figura humana, colocando-o totalmente fora de seu contexto político e social. Um exemplo claro e breve: cite Plutarco, vida de Alcibíades, como testemunho de que Sócrates combateu em várias batalhas e era mesmo um combatente determinado e temido. Algo que surpreende a muitos, mas que não deveria, se lembrarmos que Sócrates era cidadão ateniense, e como todos os cidadãos das cidades gregas da antiguidade, seus direitos compreendiam combater pela pólis a que pertencia para a defesa coletiva da mesma. É que falamos de cidadania pensando no nosso conceito chocho atual, onde o cidadão apenas paga impostos – quando paga – e não defende o que quer que seja com a sua vida. A maior parte dos cidadãos de hoje limita sua participação política a votar – uma ridícula esmola de direitos comparada aos do cidadão ateniense que votava e se manifestava nas decisões mais importantes do estado – e a reclamar do governo e dos políticos. Embora reclamem cobertos de razão em muitos casos, limitam-se ao ridículo da situação que é apenas fazer isso e nada além.

Assim percebemos que as informações mais simples acerca de Sócrates são ignoradas do grande público, seja porque nunca leram a respeito seja porque recusam-se a conceber outras faces dos ícones que conhecem, ainda que elas sejam evidentes (Sócrates Cidadão-Combatente). Que dizer então de análises pouco ortodoxas acerca desses ícones e de suas obras? Sempre percebi um misto de incredulidade e revolta quando apresentava Sócrates como um aristocrata e mentor de tiranos. Algo que, sem anacronismos, Gramsci chamaria de intelectual orgânico do golpe aristocrata de 403 a.C. em Atenas e portanto, das crenças políticas dos golpistas.

É interessante lembrar da condenação que Sócrates recebeu ao morrer, no ano 400 a.C.: corromper a juventude. Referiam-se a Alcibíades, e principalmente a Crítias, líder dos 30 tiranos. Afinal, as condenações que Sócrates recebeu vieram já sob a restauração democrática. E não é lindo pensar que quando o poder do Demos, da Democracia, oposta portanto à Aristocracia, em princípio, foi restaurado, os inimigos do regime do Demos foram punidos? E não é melhor ainda lembrar que Sócrates foi uma figura central dentre esses inimigos, que a Democracia estava fazendo seu macarthismo, purgando suas bruxas na figura do mentor de seus opositores? Sendo bem claro: Sócrates morreu como inimigo da Democracia e ameaça potencial à mesma. Morreu porque seus crimes políticos precisavam ser expiados e o Demos queria se garantir contra novas articulações golpistas.

O grande incômodo para os partidários incondicionais de Sócrates pode ser identificado a partir da questão acima: como é possível um homem, reconhecido por sua fama de campeão da liberdade e do pensamento livre, ser condenado numa manobra política de uma restauração de governo democrática? Nesse momento chovem as críticas ao sistema ateniense acusando-o de “democracia escravista”, a velha falácia que passa ao largo das considerações que fizemos acima, acerca da isonomia. Parece que os partidários incondicionais de Sócrates preferem esquecer que ele era um pensador aristocrata, pleno de ócio, marca distintiva deste segmento social, para poder formular suas aporias. Sócrates comprazia-se em escarnecer dos ofícios como nas famosas passagens dos Diálogos em que a narrativa de Platão o apresenta como se auto-declarando “de nada entender”. E que por isso mesmo ele, Sócrates, se surpreendia ao perceber que o general desconhecia a coragem, o magistrado desconhecia a justiça, o artista desconhecia o belo... Existe uma forma mais absoluta e autoritária de pensar do que querer estabelecer categorias e qualidades universais, acima de qualquer discussão? Um primeiro sintoma da prática tirânica dos filósofos – perdão, mas aqui já não me refiro só aos antigos – já pode ser encontrada aqui. Sua proximidade com os tiranos não é apenas social (mesmo patamar de riqueza), acadêmica (mestre e pupilo, ou colegas no aprendizado), de parentesco – Crítias era tio de Platão – ou de posicionamento político em horas de crise. A proximidade sistêmica se delineia nas intenções de explicar o mundo... de pensá-lo, de concebê-lo. Ou alguém se ilude com o desejo de autoridade inerente a todo aquele que intenta explicar algo a alguém?8 Imagine uma pessoa cuja proposta é criar um sistema que explique o mundo, a essência, o ser, a existência... É difícil, caso o pensador se leve a sério, que ele não seja uma pessoa cuja práxis e cujas idéias estejam plenas de uma boa dose de univocidade impositiva. A defesa de um sistema filosófico não é branda com idéias, fatos e pessoas que contrariem esse sistema. Talvez os responsáveis por isso sejam a dupla dinâmica Sócrates-Platão, pois seu modelo transcendeu a sociedade e a época em que viviam. Talvez modelos totalizantes contenham alguma forma latente de totalitarismo. Citamos isto, mas não pretendemos escolher qual a explicação melhor se aplica.

Notas
8 - Os cineastas são o exemplo extremo disso, para mim as mais autoritárias das criaturas, mesmo quando gritam contra a autoridade. Se todo livro é um discurso e não a tradução da verdade, se toda obra de arte é um discurso, uma história dita por alguém publicamente para compartilhar e divulgar convicções, o filme é a realização moderna da antiga fantasia egocêntrica dos pensadores do passado: insatisfeito com a tradicional técnica oral do discurso, o pensador procura convencer sua audiência fazendo-a literalmente ver a “verdade” como ele, pensador, a concebe.


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