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A mídia contra o povo: Watergate e o golpe que derrubou Nixon
Mark Manahan - Publicado em 15.11.2004
A História do conflito entre Richard Nixon e os magnatas da Mídia da costa Leste americana é muito anterior à presidência de Nixon. Republicano eleito após o mandato de Lindon Johnson (1964-68), aproveitou-se da crescente impopularidade dos democratas com a má condução da guerra do Vietnã. Ganhou as eleições de 1968 e foi reeleito (1972), com a maior vantagem de todos os tempos, contra George McGovern, mas não concluiria o mandato. Armou-se um golpe chamado Watergate. Por motivos menores, que não derrubaram nenhum outro presidente antes dele, sofreu dura campanha da mídia, que não conseguiu eleger McGovern, mas conseguiu derrubar Nixon.
Onde começa essa história? Em plena Guerra Fria, no auge do macarthismo. Nixon estava no Comitê de Atividades Antiamericanas, que embora muito difamado por alguns pretensos historiadores, realmente conseguiu descobrir ativismo pró-URSS dentro dos EUA. Dizer que não havia conspiração comunista dentro dos EUA é querer ignorar os fatos. Sem ela, como os russos obtiveram os segredos da Bomba-A e fizeram sua 1a. detonação em 1949? Apenas quatro anos depois dos EUA mostrarem ao mundo o poderio mortal da mais nova arma, quando a jogaram sobre os fascistas e imperialistas japoneses em Hiroshima e Nagasaki .
Sabe-se também que os regimes instalados pelos soviéticos no Leste Europeu (Romênia, Polônia, Bulgária, Alemanha Oriental, Tchecoeslováquia e Hungria) foram todos fruto de golpes de estado e assassinatos políticos. Não foi só a CIA que investiu dinheiro e fez operações secretas na França e na Itália pós-II Guerra Mundial. A KGB fazia as operações da CIA parecem pega-pega de pivete. Afinal, não tinha a quem prestar contas, fosse por voto, fosse por uma imprensa livre. Só quem vivia fora da União Soviética conseguia saber das operações em detalhe, ao contrário do Ocidente.
Nesse clima, chegou o macarthismo. Exageros houve, e algumas centenas de intelectuais, políticos e sindicalistas foram acusados, alguns foram presos e tiveram suas carreiras destruídas. Destaque para o Sindicato da Indústria Cinematográfica. Sim, Hollywood foi um alvo prioritário, mas não por acaso: era um verdadeiro manancial de antiamericanismo. Ainda é até hoje. Nixon, embora tivesse uma carreira mais consistente do que Joseph McCarthy, como advogado e também como político, fez parte do comitê de Atividades Antiamericanas. E particularmente teve uma luta encarniçada contra Alger Hiss, jornalista da costa leste que tinha contatos poderosos. Venceu a batalha, mas iniciou uma guerra que perduraria até o final de sua vida, ao melhor estilo da esquerda soviética: jamais perdoar, jamais usar a lógica. Vendetta, vingança. Tudo muito belo dentro do sonho utópico... As provas reunidas contra Hiss foram irrefutáveis, e seus contatos com o PCUS, suas viagens e correspondências foram suficientes para joga-lo na prisão por conspiração. Para a mídia da costa leste, capitaneada pelo The New York Times e pelo Washington Post, ele foi uma vítima de cruel injustiça. Um inocente jogado na sanha persecutória do pós-guerra.
Do macarthismo vamos à eleição de 1960. Primeiro debate presidencial televisado. Inaugurava-se uma tradição. Kennedy x Nixon. O homem da imagem x o homem prático. E deu Kennedy, muito bom de televisão. Os filtros e o cinismo dos eleitores em relação à imagem levaram alguns anos para se desenvolverem, e ainda hoje a força da imagem perdura sobre a memória das realizações para um bom número de eleitores. É possível que para todos nós haja algum momento de fraqueza acerca disso. Os recursos são cada vez mais poderosos.
Nixon continuou no Congresso, teve vários mandatos até finalmente ganhar a eleição, de um partido Democrata desgastado pela desastrosa condução da Guerra do Vietnã. Que aliás, foi iniciativa também de um democrata, John Kennedy. O ano agora é 1968. O debate sobre o Vietnã se encontra no auge. E Nixon ganhou defendendo a plataforma de que iria retirar as tropas americanas do Vietnã, caso fosse eleito. Durante seu primeiro mandato, escalou a guerra, mas acabou retirando-se no início do 2o. mandato (1973), antes mesmo de qualquer Watergate.
Agora porque digo que Watergate foi um golpe? Simples: a mídia americana começou a postar-se contra a guerra do Vietnã ainda em 1966. O Washington Post só o fez mesmo em 1967. Durante os quatro anos do primeiro mandato de Nixon (1968-72) a mídia sabia que não poderia detê-lo porque o desgaste do Partido Democrata com o Vietnã era muito grande. Mas a eleição de 1972 mostrou uma tentativa direta da mídia de fazer um presidente. Todos os pontos de vista defendidos pela mídia da costa leste como saída do Vietnã, liberalização da maconha, aborto, término do serviço militar obrigatório, anistia para os que fugiam ao recrutamento, desarmamento unilateral frente a URSS e aumento dos gastos do governo, eram publicamente defendidos por George McGovern, o candidato Democrata. Era a oportunidade da Mídia provar que Nixon era um candidato dos “grandes esquemas”, “oposto ao povo”. Nixon tinha a oportunidade contrária: criador da famosa frase sobre a “maioria silenciosa”, sua vitória provou que ela existia. Em síntese o que essa frase dizia? Que as manifestações antivietnã eram obra não de uma vontade pública, mas de pequenos esquemas e lobbies políticos que por vezes tinham muito poder, especialmente manifestações. Eu mesmo penso isso. Pessoas com faixas, bandeiras e principalmente aquelas cujo ativismo exagerado a leva a quebrar coisas, não representam uma maioria. Primeiro porque a maioria não tem o tempo de se dedicar a manifestações. Trabalham, Estudam ou fazem as duas coisas. E as fazem seriamente, não como alguns, eternos estudantes profissionais. Do grupo que tem tempo de sobra para fazer, muitos não iriam por não verem o sentido de fazer isso ou por discordarem de manifestações barulhentas e/ou violentas. Enfim, há uma série de motivos para não fazê-lo. Por vezes, o espírito manifestante toma conta de um país, uma cidade, uma nação. Mas essas vezes são raras e mesmo assim dificilmente encontram eco sem uma boa cobertura da mídia.
A vitória esmagadora de Nixon, com 60% dos votos contra 38% de McGovern, mostrou a mídia da costa leste que ela estava errada. E que sim, a maioria silenciosa existia. Essa maioria manifestou-se de modo memorável, deixando de ser silenciosa. Operários de construção atacaram a socos uma manifestação antivietnã que tinha tomado a Câmara Municipal de New York, dispersando-a a socos (07/05/1972). Muitos deles tinham servido no Vietnã e disseram “estar cansados da conspiração comunista” e também “que tinham orgulho de seu país”. O soldado que servia no Vietnã estava começando a se cansar de ser visto como “baby-killer”, imagem que a mídia se encarregou de perpetuar, transformando exceções em regra.
Então vem Watergate, já próximo das primárias do partido democrata para a eleição de 1976. Cinco homens ligados ao gabinete presidencial foram encontrados nas dependências do hotel onde seria realizada a convenção. Acusação? Estarem plantando escutas para saber as estratégias do partido democrata. Uma acusação bastante esotérica. Primeiro de tudo, numa convenção sempre escapam alguns detalhes da estratégia e ninguém precisa de escuta para conhecer segredos confiados a tantas pessoas. Segundo, de Roosevelt a Kennedy, a escuta e o grampo telefônicos foram instrumentos largamente usados, ainda que ilegais. Roosevelt dizia detestá-los mas ninguém usou tantas escutas quanto ele. E embora muito se soubesse e se falasse sobre isso na época em que eram presidentes, nenhum deles sofreu qualquer perseguição ou tentativa de impeachment sobre isso. Afinal, ambos eram do partido democrata, certo?
Já Nixon foi diariamente enxovalhado por jornais que não se conformavam com a derrota do candidato que tinham forjado, muito menos com o fato de que Nixon, com quem mantinham uma vendetta há 30 anos era um presidente que cumpria suas promessas e estava elevando os níveis educacionais, financeiros e sociais do país como poucos antes dele. Essa foi a decisão do norte-americano: escolher o homem pela estatura do seu trabalho e não por qualquer ideologia pró ou anticomunista. Embora todos soubessem que Nixon era um anticomunista confesso há décadas, tal fato influenciava mais as opiniões editoriais do que as populares. Os jornais insistiam em fechar os olhos à queda do déficit mesmo estando no Vietnã, à melhoria dos índices sociais, à queda da inflação. A abertura para a China, com a retomada de relações entre os dois países, sendo Nixon o primeiro presidente americano a por os pés nesse país. Suas credenciais como anticomunista livraram-no de qualquer acusação de “fraqueza para com o inimigo” ainda que a mídia ensaiasse dizê-lo. Nixon, mesmo tendo lutado contra o comunismo por anos, sabia que era uma estratégia perfeita aproximar-se da China no momento de máxima de tensão desta com a União Soviética. E a meta toda foi traçada por Henry Kissinger, possivelmente a maior figura dentre os homens de poder americanos a jamais ter sido presidente. E assim Nixon e Kissinger conquistaram uma vitória para a diplomacia americana no preciso momento em que os jornais investiam todo o espaço disponível a maximizar as acusações pífias de Watergate, capitaneados por Bob Woodward, um falsário de carteirinha, escravo dos holofotes.
Acrescente-se que a renúncia de Nixon não foi provocada por medo de sofrer o impeachment. Alegando razões de segurança nacional e uso indevido de informações de alta segurança, além de intromissão ilegal em assuntos de estado ele poderia ter não só permanecido no poder, como virado o jogo contra os seus perseguidores. Os motivos maiores de sua renúncia, foram porque não queria dar aos seus algozes o gostinho de um julgamento público onde fariam de tudo, principalmente ataques pessoais para condena-lo. Ele queria preservar sua imagem, e também suas fitas de gravação que poderiam ser requisitadas pela investigação mas ao invés disso, permanecem sub-júdice e secretas até hoje. Qualquer bom advogado que dedique-se a questões constitucionais, sabe que o caso Nixon dava margem a uma ampla base de defesa. Mas depois de 30 anos de vitórias Nixon estava bastante desgastado para empreender uma luta que iria custar-lhe muito esforço pessoal e político.
Meu veredito pessoal é que nada pode ter sido mais ofensivo para uma mídia seguidora de uma visão particular de mundo, do que um homem contrário a essa visão vencê-la repetidas vezes. Esse foi o maior pecado de Nixon, e não qualquer grampinho colocado num hotel de terceira. É a eterna história do homem prático que com suas ações deixa os pseudo-intelectuais perdidos como baratas tontas.
Com bastante amargura, mas também não sem ironia, a frase final de Nixon ao anunciar sua retirada da política para a imprensa foi “Agora que eu não mais estarei aqui vocês não terão mais ninguém para odiar...como farão agora?”
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