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Ricardo Boessio dos Santos - Publicado em 13.11.2004

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Após a eleição presidencial estadunidense, que mobilizou o mundo inteiro e fez do mais gabaritado cientista político ao leigo em política internacional dar sua opinião, ter passado, chega o momento de refletir sobre o resultado que as urnas revelaram.
Um presidente eleito pelo povo torna-se seu legítimo representante e pode tomar as devidas providências que julgar relevantes para seu país em nome deste mesmo povo já que, uma vez eleito pelos seus pares, tem a autorização dada por meio do voto.
A lógica é uma das formas que utilizo para basear minhas opiniões, não a lógica de Arendt. Por isso posso afirmar que as ações internas e externas do presidente Bush foram legitimadas pelo seu povo nesta última eleição.
O que pensar deste povo? Será que existe vida inteligente naquele país? Deve existir, pois houve mais de 50 milhões de pessoas que votaram contra Bush.
Sem dúvidas que devemos ressaltar que os eleitores que elegeram Bush pertencem, em sua maioria, à direita evangélica burguesa wasp egocentrista interiorana dos Estados Unidos. Porém eles são maioria, já que elegeram-no, logo podem ser caracterizados como um retrato demográfico do país em que vivem.
Até antes da eleição a maioria das críticas em cima das ações do governo Bush era direcionada somente a ele, pois supunha-se que a maioria do povo estadunidense não aceitava bem suas ações. Acreditava-se que essas ações não passavam de interesses do presidente Bush e de um grupo de empresários do petróleo e que a maioria dos estadunidense vilipendiava isto. Porém esta eleição mostrou o contrário.
O império ataca e quer, cada vez mais, dominar o mundo, instituir sua american way of life em toda a face do globo. Não importa a cultura dos outros povos, somente a estadunidense que é a correta e deve ser implementada em todos os países, seja por meios pacíficos, seja por meios bélicos. É fácil imaginar que os estadunidenses achem correta a posição bélica de sua nação ante outras nações (ou dentro das outras nações). Não só achem correto, como também achem positivo.
A população estadunidense é tão beligerante quanto seu malfadado presidente reeleito. Sonha em ter o domínio do mundo tanto quanto o republicano sonha com isso. As urnas nos revelaram isso com quase 60 milhões de votos. Vitória total e incontestável com a maioria dos votos da população que deu carta branca aos ideais messiânicos de Bush, que nada diferem dos ideais messiânicos da maioria dos estadunidenses. Talvez as diferenças sejam que Bush pôs em prática esses ideais e tem uma visão onírica, se é que toda visão messiânica já não seja onírica por natureza.
E agora, José? Ou melhor: e agora, Michael Moore?
Um dos argumentos que o diretor Michael Moore utilizava contra o presidente George W. Bush era dizer que ele não era um presidente legítimo. Agora é. Outro argumento era o de que a população estadunidense contestava as ações do Bush. Não contestou nas urnas.
Algumas previsões são possíveis de serem feitas sem risco de posar de futurólogo irresponsável. Isso, sem dúvida, dependerá da política que Washington aplicará daqui por diante. No caso de Kerry poderia haver dúvidas, mas neste caso, com a vitória de Bush, pode-se imaginar que não se mudará muita coisa.
Provavelmente Bush se preocupará em melhorar a relação da América com a Europa. Relação esta que ficou um tanto quanto desgastada. Apesar de que, após a guerra contra Saddan mostrou que Bush, mesmo contra a maioria da Europa e da ONU, pode ir e fazer o que bem entender sem depender de aliados.
A não ser os aliados de sempre, que não passam de lambe-botas dos EUA sem a menor preocupação com avaliar o que está sendo apoiado, mas pura e simplesmente apoiando sem pudor, como a Inglaterra, a Austrália e a Espanha (não é a primeira vez que a Espanha apóia um dirigente esfomeado por poder mundial, vide a sua posição quanto à Alemanha nazista de Hitler).
Ao menos nestas nações pode-se perceber uma mobilização maior das suas populações contra a guerra, culminando na queda do primeiro-ministro espanhol nas eleições. Isso mostra que, diferentemente de seus dirigentes nas épocas do nazismo de Hitler e do nazi-fascimo imperialista de Bush, o povo espanhol não admite este tipo de atitude. Muy bien.
A possibilidade de Bush voltar atrás e assinar o tratado de Kyoto para diminuição da emissão de poluentes é ínfima, muito difícil de acontecer. Isso não é difícil de se prever. Logo (olha a lógica que me segue aí...) não deve haver mudança no trato com o meio ambiente deste governo que é ambíguo nesta questão, já que brada por uma internacionalização da Amazônia porque os brasileiros estão destruindo-na (e estamos destruindo mesmo, mas isso não é motivo para internacionalizar nossa mata), mas não assina o tratado de suma importância.
O antiamericanismo deve se intensificar, já que chegou a números expressivos com a política externa do governo dos Estados Unidos e este governo ganhou um novo mandato concedido pelo povo estadunidense. Logo pode-se dizer que os estadunidenses legitimaram as ações tomadas pelo seu governo e, provavelmente, irão arcar com conseqüências desta atitude.
Os atentados terroristas podem não aumentar, mas dificilmente diminuirão. Os EUA continuarão vivendo em estado de alerta e com medo de ataques repentinos de um novo Osama Bin Laden, ou do próprio. Não se pode afirmar que Kerry mudaria o formato da política externa dos EUA, mas existia esta possibilidade. Com Bush a possibilidade beira a utopia.
Com Kerry na presidência talvez a América Latina tivesse maiores problemas com relação às relações comerciais, uma vez que ele é intimamente ligado aos sindicatos estadunidenses e poderia ter um tipo de política protecionista. Porém com Bush não houve muitos progressos neste campo.
Dentro deste contexto todo eu faço uma pergunta que começou a me rondar depois de observar a reação quanto à reeleição do Bush. Será que com Kerry seria muito diferente? Nós todos também não estaríamos usando a teoria do morto-bom, aquela em que um morto só merece elogios (era a melhor pessoa que existiu, nunca cometeu uma única falta), com o Kerry?
Tenho cá minhas dúvidas quanto a isso, pois não é de hoje, nem é um privilégio de Bush, essa visão imperialista dos EUA. Bush a intensificou ou, talvez, desvelou uma vontade que é da maioria dos estadunidenses, mas essa gula por hegemonia não é de hoje. Essa vontade de obter a supremacia mundial em detrimento das outras nações é antiga.
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