03/11/2004: a ressaca do 11/09 < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 


 


Mark Manahan - Publicado em 06.11.2004




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Duas datas. Numa se usa o terror para fazer política. Noutra se responde ao terror através do voto. Os americanos não deram lição alguma porque não tem lições a dar, nem têm interesse em fazê-lo. Eles já deram. E como antes da Segunda Guerra Mundial, na qual relutaram em entrar, os nove meses e 11 dias que separam o início do governo Bush dos atos porra-louca de 11/09, mostraram um governo relutante em se comprometer com quaisquer políticas externas. Um exemplo disso foi a clara mensagem que Bush vinha mandando a Israel que não iria dar suporte a ações agressivas contra os palestinos. Quem duvidar consulte os jornais da época, são de fácil acesso. Até 11/09 a presidência americana tinha sido uma das mais neutras – e desapontadoras – para os israelenses. Por causa disso. já houve até site árabe divulgando a idéia de que os autores do atentado seriam os israelenses.

A eleição de George W. Bush com 58 milhões de votos foi a primeira eleição em que um presidente obteve a maioria do voto popular desde 1988. Ou seja, dos últimos quatro pleitos presidenciais, incluindo o próprio Bush, seu pai e os dois mandatos Clinton. O número de pessoas que votaram em Bush também foi recorde para votos em um único candidato, não superado desde Nixon. Tudo isso manda uma mensagem clara, mas ainda assim é um equívoco esquecer que o resultado da eleição se aproximou do ridículo, com a expressiva votação de Kerry. Decerto que havia petrodólares árabes financiando o partido democrata, assim como dinheiro dos megainvestidores capitaneados por George Soros. Isso talvez explique o porque da opção pelo absurdo ter conquistado tanta gente.

E porque Kerry era o absurdo? São tantas as razões que torna-se enfadonho enumerá-las, mas para dizer o mínimo foi um homem que ingressou na política dando suporte a um dos governos mais violentos da história: o do Vietnã do Norte. E não fazia isso porque achava que a guerra era errada, como gosta de tentar fazer as pessoas acreditarem. Fazia isso por postura política, por ser um membro do pensamento ativista da esquerda americana conhecido como New Left, que moldou as bases das esquerdas estudantis em todo continente, incluindo mesmo as dos países latino-americanos. Junto com Jane Fonda, estava sempre pronto a denunciar os “crimes” dos soldados americanos no Vietnã, colocando-os como se fossem a regra e não a exceção. Fechava os olhos para as denúncias de maus-tratos dos vietnamitas para com prisioneiros americanos e para com a própria população do Vietnã, muito mais vezes massacrada pelos comunistas do norte do que em ações americanas.

Quando os EUA saíram do Vietnã a sanha dos comunistas foi tamanha que mataram mais gente em apenas dois anos, quando a guerra terminou, do que os mortos de ambos os lados em todo o período de envolvimento americano no conflito, que durou cerca de 15 anos. Isso não configura uma novidade haja visto que os governos ditatoriais sempre primaram por esse tipo de prática. Mas Kerry fechava os olhos a tudo isso. Jamais deu uma palavra sobre o assunto preferindo falar de ações dos EUA. Mas a memória é a melhor arma numa eleição.

Valores morais ganharam a eleição? Talvez, se mudar de lado, distorcer os fatos, lutar pela causa do inimigo, ainda mais um inimigo brutal, puderem ser considerados defeitos morais. E estes os tinha John Kerry. Sem moralismo dar suporte a torturas praticadas contra o próprio povo, pode-se dizer apenas que não era alguém confiável. Flip-flop - muda de lado conforme o vento. A pior espécie de político. Aquele que não tem bases, mas quer sempre embarcar em modismos para ser eleito.

Nações merecem o que receberam? Mereceram os japoneses duas bombas atômicas na cabeça? Talvez não, pois os japoneses massacraram 37 milhões de chineses, em guerras de agressão, torturavam seus prisioneiros e usavam-nos em experiências com o bacilo da lepra e da peste bubônica e transformaram a Coréia inteira num bordel para a soldadesca. Realmente, penso que jogar bombas-A que mataram 200 mil pessoas foi um pouco de exagero para um povo que tinha um comportamento na guerra tão refinado, embasado num filosofia expansionista, racista e militarista.

Mereceram os americanos o 11/09? Acaso eles atacaram a Arábia Saudita? Lembro que os sauditas pediram proteção aos EUA em 1991, quando Saddam invadiu o Kuwait, massacrando estuprando e pilhando. Os sauditas achavam que seriam os próximos. Atacaram os americanos o Egito? Mohammed Atta, o líder do 11/09 deve ter se convencido disso em alguma aula de madraça, mas o Egito saiu da esfera soviética e foi para os braços dos americanos quando os russos não os queriam mais.

Lembremos de 1956, quando Nasser nacionalizou o Canal de Suez e proibiu os israelenses de usá-lo, além de cobrar pelo uso, quebrando promessas feitas aos ingleses e franceses. Estes atacaram, e Nasser parecia a perigo de cair, pois os anglo-franceses perderam apenas dez homens para tomar o Canal e iam marchar para o Cairo quando... os EUA interviram, deram a sua palavra de que Nasser recuaria, garantia dada por ele próprio, e França e Inglaterra retiraram suas tropas. Que Nasser fez? quebrou a palavra de novo e o canal continuou nacionalizado. E os EUA saíram da questão apenas com o ônus político de terem dado uma falsa garantia aos seus aliados.

Merecem os brasileiros pagar pelo 75% de população paraguaia devastada no século XIX? Quando se esgota uma velha conta? Arafat, assassino que iniciou a desmoralização da ONU recusando a entregar sua arma quando lá foi discursar a primeira vez está quase morto. Mas ainda que eu não goste dele, creio que se for por méritos ele merecia uma morte melhor que uma cama de hospital, merecia morrer como o guerreiro que sempre foi, em combate, continuando a aumentar o mito a seu respeito, ele que hoje é um milionário com uma fortuna pessoal maior que a de Elizabeth II.

O problema do 11/09 é que ele já foi absurdo em si, fosse qual fosse o lugar onde acontecera. Existe o problema humano, o econômico, o do desemprego mundial que ele gerou em muitos setores do turismo a aviação. Mas existe o problema fundamental de abrir um precedente para horrores ainda maiores, como uma Beslan. Você pensa que já viu tudo, mas nada na sua vida pode te preparar para ver pedaços de corpos de crianças. E me pergunto se teria havido uma Beslan sem o 11/09.

Na História horrores e massacres não são novidade e dia-a-dia vamos nos monstrificando nesse circo de horrores. Chega uma hora em que você diz um basta. Duvido um pouco que Bush tivesse sido um presidente de destaque sem o 11/09. Eu mesmo não tinha simpatia por ele. Mas aquele dia foi um divisor de águas. Se muita gente se descobriu “odiando americano”, muitos descobriram que sempre foram seus aliados. E muitos mais do que a mídia gosta de divulgar. É fácil usar o 11/09 para dizer que se o próprio Bush ganhou com isso, ou os próprios americanos com a condição de vítima, então eles devem ter feito uma armação, etc. Quem diz isso não para pra pensar no outro lado. Ou que o outro lado pode cometer erros. Bin Laden pensa que superpotências se equivalem. E na sua megalomania acredita ter derrotado sozinho a URSS e pensa que pode fazer outro tanto com os EUA. Pobre alma racista multimilionária fanatizada. Levanto a hipótese de que como ele não é perfeito cometeu um belo erro de cálculo, unificando os EUA em torno da reação e da guerra ativa. Não há a divisão que querem mostrar. Do lados do partido Democrata há alguns radicais e o resto dos votantes exercem sua opinião, sua discordância do presidente.

Numa democracia por melhor que seja uma proposta surgem sempre muitas pessoas para manifestar sua discordância da mesma. Quem vê nisso um país dividido, estranha a democracia, não a conhece. E como penso que idéias absurdas surgem em centrais de difamação e boataria, penso firmemente que estes indivíduos que não entendem a diversidade de opinião e divulgam-na como divisão, não são pessoas educadas em países democráticos. Os radicais mandam ao mundo mensagens mostrando as coisas como eles as entendem. E alguns dentro das democracias ouvem aquilo e por má-fé, incapacidade de entender posturas contrárias ou orgulho seco divulgam tais notícias aos 4 ventos.

Não afirmo que a política de Bush é a única opção para combater o terror. Mas é uma opção que vêm dando resultados. As cobranças são inúmeras. Principalmente das pessoas que pedem paciência quando são governo, mas tem toda a pressa quando são oposição.

E tem mais: Kerry eleito, seria xingado chamado de imperialista e sofreria críticas dos mesmo radicais do mundo inteiro em pouco tempo. Por isso, os antiamericanos se depauperam em seu capital político: não têm posturas firmes, mas de ocasião. Como Kerry. E criticam sempre quem esteja na presidência, sem nunca reconhecer qualquer mérito, como se alguns indivíduos cometessem apenas erros, e outros somente acertos. Julgam as coisas em termos de “bem e mal”. Algo que eles adoram criticar em Bush, mas fazem igualzinho.