| |
|
|
Peões e Entreatos: considerações sobre a transfiguração política petista
Dante Felgueiras - Publicado em 27.01.2004

Publicidade

Dois filmes intimamente relacionados, Peões e Entreatos, são um passeio na história da origem do PT e do movimento sindical no ABC. Peões mostra ex-operários do ABC paulista, relatando suas vidas de trabalho e sindicato, sempre abordando as greves de 78; Entreatos filma Luís Inácio Lula da Silva um mês antes, até as eleições em que se consagraria presidente da República Federativa do Brasil. Ambos tratam de pessoas obstinadas em alcançar a igualdade e condições de trabalho mais justas.
Peões, direção de Eduardo Coutinho, começa subitamente. Logo se tornam claras as influências e objetivos do filme. Para muitos ele pode parecer apenas mera lembrança das greves no fim da década de 70. Entretanto uma análise mais atenta revela um desejo de retomada dos ideais petistas. Antes mesmo das eleições de 2004, nas quais o Partido dos Trabalhadores perdeu prefeitos em duas grandes cidades (São Paulo e Porto Alegre), já se notava uma crise devido à falta de militância. O PT, desde seu início ligado ao movimento sindical, apesar da aprovação popular do presidente Lula, vem perdendo força. Aquele partido trotskista, vermelho de verdade, transfigurou-se, para ganhar votos, num partido social democrata. Ficou cor-de-rosa. O socialismo democrático nunca foi possível, pelo simples fato do sistema capitalista reter uma quantidade de poder muito maior do que o governo do Estado brasileiro. As mudanças feitas para o partido se aproximar do cargo afastaram os militantes mais “radicais”. O porquê é respondido por Lula em Entreatos, dirigido por João Moreira Salles.
No segundo filme, a vida pessoal de Luís Inácio é aberta ao público, e mesmo estando em frente à câmera, o então candidato à presidência porta-se naturalmente. É interessante observar a relação do ex-operário com seus companheiros de partido. Um dos pontos mais irreverentes do filme é quando Lula revela ao publicitário Duda Mendonça, que sempre quis saber batucar. Mendonça, tamborilando os dedos na mesa, responde rapidamente que sempre foi bom de batuque. “Batuque e briga de galo” diz ele. O candidato exclama “briga de galo!?” e a cena é cortada. No filme o fundamental para entender a trajetória recente do PT é uma conversa de Lula num avião, na qual revela que os “xiitas” do partido e membros do Movimento Sem Terra propuseram a transformação do Brasil numa República Socialista através da difusão cultural do socialismo. Assim, em poucas décadas, grande parte do país teria ideário socialista, e a eleição do PT seria o ponto final na concretização da revolução. O presidente diz porque rejeitou a proposta: não estaria vivo para ver o resultado. Esta decisão, de Lula e do PT, transformou-nos em meros pregadores da social democracia, já idealizada pelos tucanos do PSDB.
Peões e Entreatos emocionam pela simplicidade sem falta de reflexão concedida. Os filmes, que merecem ser assistidos diversas vezes, deixam-nos refletindo se a revolução pode ser feita, senão pela ruptura. Deve ser uma revolução social ou política? As experiências socialistas em outras repúblicas já mostraram a valorização da igualdade econômica (ao menos em alguns aspectos). Todavia, ainda não vislumbramos nenhuma manifestação da igualdade política, que continua burocratizada, estagnada. A liberdade nunca foi realmente valorizada. Será possível uma revolução libertária estadista? São perguntas que urgem respostas. Pensá-las é um passo para a criação de uma sociedade mais coesa.
|
|
|