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Henry Stimson, um “mestre bonesman”
Paulo Alexandre Filho - Publicado em 25.03.2005

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George W. Bush é membro da Skull & Bones assim como seu pai, que também governou os EUA e meteu o país numa onerosa guerra no Golfo Pérsico. Bonesmen são tradicionais na família Bush, pois seu avô e um outro tio paterno também passaram pelo ritual de renascimento celebrado em Yale, logo, há de se perceber que a lógica que norteia as ações de Bush tem influências que partem de seu berço de constituição de valores – a própria família. O jovem George Walker Bush, portanto, já possuía um promissor retrospecto para integrar a entidade em cujas fileiras já militaram outros de seus entes relativos, isso além de ser um autêntico representante da ordem encarnada na noção de WASP.
A tradição da ordem Skull & Bones na Casa Branca não é recente. A ação política dos bonesmen manifestou-se de maneira a influir na adoção de caminhos que se coadunavam com o espírito e o código da Skull & Bones. O presidente William McKinley sofrera pressões da ordem em função de sua tímida postura de política externa. Sob pressão dos iluminados homens de Yale, seu governo decidiu adotar uma postura mais ofensiva frente às nações “inferiores” e, em 1898, agiu sobre Cuba, inaugurando uma já tradicional relação de amor e ódio entre as duas nações. Estava marcada assim uma fase expansionista sobre nações estrangeiras. Com a guerra contra os latino-americanos hispânicos a relação da Skull & Bones com o Partido Republicano teve também seu início. Na convenção republicana de 1900, os bonesmen ascenderam ao controle do partido e impuseram a McKinley a aceitação de Theodore Roosevelt como seu vice-presidente no pleito nacional que se aproximava. Em 1901 McKinley foi assassinado durante uma viagem pelo estado de Nova York e Teddy Roosevelt foi então conduzido ao governo dos EUA como primeiro bonesman a governar o país. Seu sucessor, William Howard Taft, também era seu irmão da Skull & Bones.
Uma grande referência política dentre os bonesmen foi o ideólogo e conselheiro Henry Lewis Stimson, cuja atuação e influência lhe valeram o título de “mestre bonesman”. Dizem que durante o processo de tomada de decisão pela invasão ao Iraque, em 1991, Bush I dedicou-se, na tranqüilidade do Camp David, a reler uma biografia de seu ídolo bonesman e enquanto seu conselho de analistas deliberava sobre a forma de ação contra o Iraque por ocasião da crise do golfo, quando o Kwait foi invadido por ordem de Saddan Hussein, o presidente já possuía uma posição formada e favorável ao ataque. Os ensinamentos de Stimson foram valiosos para esta decisão.
Stimson ingressou na Skull & Bones em 1888 e prestou seus serviços a sete dos ocupantes da Casa Branca: Theodore Roosevelt, William Howard Taft, Woodrow Wilson, Calvin Coolidge, Herbert Hoover, Franklin Delano Roosevelt e Harry Truman, cumprindo uma sólida carreira de articulador, consultor e integrante do staff governamental estadunidense. Em seu legado de atuação está a supervisão do Projeto Manhattan, cujo resultado foi o desenvolvimento tecnológico e estratégico das bombas atômicas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki no final da Segunda Guerra Mundial. Anos antes, quando ocupava a Secretaria de Estado no governo Hoover (1929-1933), atuou nas articulações que impuseram a redução das forças ofensivas da Marinha Imperial Japonesa durante a Conferência Naval de Londres. Foi um dos arquitetos dos provocativos planos de restrições ao Japão que acabaram por influenciar o ataque que as tropas nipônicas fizeram contra a base estadunidense em Pearl Harbor, situação que provocou o ingresso dos EUA na guerra. Contanto pontos em seu currículo de serviços prestados, constam sua decisiva participação no desenvolvimento da idéia da criação dos campos de aprisionamento de japoneses e nisseis em território estadunidense durante o governo de Franklin Roosevelt, além de ter desenvolvido um plano, felizmente não executado, de bombardeio a Kyoto, um dos principais e tradicionais centros urbanos japoneses, como ultimato ao Japão pela rendição. Uma cartada de mestre atribuída a Stimson foi a decisão de preservar o trono do império japonês sob Hiroito, que não fora deposto por uma decisão estratégica que viabilizaria maiores condições de influência dos EUA nos planos de reconstrução e realinhamento do Japão no pós-guerra. Além de arquitetar o projeto de trilha a ser seguida pelo Japão derrotado, Stimson também teve forte atuação nos bastidores do plano de ocupação, reestruturação e ordenamento da Alemanha. A notável experiência de Stimson e sua visão utilitária do emprego da influência política e poderio militar dos EUA serviram como inspiração para Bush I, que decidiu levar a lição de seu mestre como ensinamento prático para sua decisão pela guerra contra o Iraque.
Diferentemente de seu discípulo presidencial, Stimson não provinha de um clã de bonesmen, ele ascendeu à ordem por “merecimento” e pelo reconhecimento de suas habilidades naturais e talento indiscutível pela atuação política pela grandiosidade dos EUA. Ele costumava creditar à Skull & Bones uma grande importância em sua formação e conforme seu biógrafo Geoffrey Hodgson, os tempos de vivência e aprendizado na entidade corresponderam "a experiência educacional a mais importante em sua vida”. Stimson foi admitido como bonesman mesmo sem ter origem rica, embora seus antepassados tenham sido alguns dos pioneiros puritanos na colonização dos EUA, ainda assim ele era um autêntico WASP. Em Yale seu espírito competitivo era uma de suas marcas a tal ponto que afirmava que "a idéia de um esforço para prêmios, foi sempre um dos elementos fundamentais de minha mente e eu mal posso conceber o que seria de meus sentimentos se eu fosse posto sempre em uma posição ou em uma situação na vida onde não houvesse nenhum prêmio pelo qual me esforçar". Este espírito competitivo foi praticado também no extremo: já em uma idade amadurecida, aos 44 anos, Stimson aderiu ao Exército e tornou-se combatente na Primeira Guerra Mundial mesmo que já tenha acumulado experiência em sua vida na advocacia e no mundo da política em Washington e ganhou sua fama com o apelido sugestivo de “O Coronel”. O político e arquiteto de guerras experimentou a vida de combatente nas forças expedicionárias estadunidenses na Europa.
No período que antecedeu a Segunda Guerra Stimson comandava um batalhão próprio de bonesmen em Washington em seu Departamento de Guerra. O grupo chamado de “Jardim da Infância de Stimson” era composto pelo alto staff dos arquitetos da participação dos EUA na guerra O grupo era formado por personalidades como John McKoy, secretário-assistente de Estado e posteriormente comissário dos EUA na Alemanha pós-guerra, Robert Lovett era o assistente imediato de Stimson, com quem aprendeu a atuar nos bastidores da política até tornar-se um dos principais e influentes assessores de John Kennedy, Harvey Bundy, outro de seus assessores de primeira linha, era um bonesman fiel ao seu líder e juntara ao grupo dois de seus filhos, McGeorge e William Bundy, também bonesmen, à equipe de assessores e coordenadores de guerra sob o comando de Stimson. O “Jardim de Infância” também era integrado por Dean Acheson, também um de seus preferenciais assistente e futuro conselheiro e Secretário de Estado no governo Truman (Acheson não era bonesman, mas era membro de outra fraternidade secreta de Yale - Skroll & Key) e contava ainda o grupo com a participação do general George Marshall, chefe de comando do Exército durante a Segunda Guerra e também futuro Secretário de Estado de Truman. Este grupo de ideólogos da atuação estadunidense na guerra teve seu núcleo conhecido como “Círculo Stimson-Marshall- Achelson” e seus integrantes eram figuras-chave do staff político durante a guerra e também no processo de implementação dos planos de reconstrução e alinhamento do pós-guerra como iniciadores das estratégias de isolamento do bloco soviético, sendo então pioneiros na estratégia de implantação da Guerra Fria, incluindo o processo fomentador da intromissão militar estadunidense na Coréia.
Stimson morreu em 1950, contudo, sem conseguir levar adiante a influência de seu grupo sobre a condução política da Casa Branca e seus discípulos do “Jardim de Infância” foram aos poucos tendo sua influência declinada. Já em 1947, com a Lei de Segurança Nacional, o Departamento de Guerra fora reestruturado como Departamento de Defesa, constituído por uma burocracia civil que viria posteriormente a abrigar muitos membros da Skull & Bones e Robert Lovett, por exemplo, viria a assumir o comando do Departamento em 1950. A lei de 1947 também criou a CIA (Central Intelligence Agency) como organismo que sucederia o núcleo de estratégia (OSS – Office os Strategic Service) que vigorava durante o período da guerra e posteriormente as atribuições do grupo de coordenação política que também funcionava sob o comando de Stimson passaram a ser exercidas pela CIA. A Agência de Segurança Nacional (NSA) também foi criada neste período subordinada também ao Departamento de Defesa, ampliando o espectro da rede de controle e investigação do Estado. Estas agências tornaram-se redutos de atuação de bonesmen ao ponto em que a imagem da CIA e da Skull & Bones passaram a ser freqüentemente associadas uma a outra.
A forte influência dos bonesmen na estrutura da CIA é apontada como um dos legados de Henry Stimson, pois o OSS, organismo antecessor da CIA, fora inicialmente constituído por quadros técnicos e funcionais forjado na Skull & Bones e esta relação entre os “iluminados” de Yale e o serviço secreto institucional permaneceu ativa.
Ainda que tenha ocorrido um período de crise na atuação orgânica da Skull & Bones durante as décadas de 1960 e 1970, a sua influência foi sendo aos poucos restaurada ao ponto em que voltou a ser relevante durante as gestões dos dois presidentes Bush, discussão que será abordada na terceira e última parte desta série de artigos.
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