A Cegueira Branca - Artigo sobre o Furacão Katrina e Nova Orleans < 11 de setembro e Katrina < Dossiês < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
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Artigo sobre o Furacão Katrina e Nova Orleans
Guilherme Pereira Rabelo - Publicado em 25.09.2005


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Uma cidade subitamente tomada pelo caos. A imundície na forma de lixo, fezes e rejeitos toma conta das ruas. Cadáveres desvelados servem de alimento à cães de rua e corvos. Água limpa e comida, qualquer tipo de comida, se tornam bens mais que preciosos. Automóveis abandonados esperam pacientemente o retorno de seus donos. Como se não fosse o bastante, a vilania se faz presente na forma de assassinatos e estupros. Este poderia muito bem ser o relato de um sobrevivente da tragédia do Furacão Katrina em Nova Orleans, poderia também ser a descrição do cenário do romance do escritor português José Saramago de 1995, Ensaio sobre a cegueira.

“Só num mundo de cegos as coisas serão realmente o que são” diz um personagem em determinado ponto, e é exatamente isso que o autor propõe. A obra de Saramago é uma investigação da fragilidade da ordem social e da essência da natureza humana, um questionamento de até aonde vai nossa racionalidade. Nela, os personagens não têm nomes próprios, são referidos apenas como “a mulher do médico”, “rapariga de óculos escuros”... como se representassem ninguém e todos ao mesmo tempo.

O romance começa com um motorista parado no sinaleiro, esperando ele ficar verde para que possa seguir seu caminho. No momento seguinte ele cega. Mas essa cegueira não é convencional, em que se mergulha na escuridão, mas uma cegueira branca, uma treva branca, como o autor descreve. Acentuando ainda mais o caráter sobrenatural dela, todos que entram em contato com o primeiro cego mais cedo ou mais tarde são vitimados também pelo “mal-branco”. Todos menos uma certa mulher que tem um papel crucial na trama. Quando o governo toma consciência da epidemia, ele não titubeia em tomar uma decisão, para o bem geral da nação: coloca em quarentena todos os afetados e aqueles que entraram em contato com eles. Ironicamente, o local escolhido para isso é um manicômio abandonado.

A primeira parte do livro relata o isolamento dos cegos, a adaptação à nova condição e as condições precárias em que passam a viver, apesar da ajuda externa que recebem. A narrativa segue a história de um pequeno grupo que se organiza em torno da mulher que não cegou. Aquela sobre quem caiu a “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Eles tentam, dentro das possibilidades, sobreviver com alguma dignidade. A cada dia, novos cegos se juntam aos velhos, acarretando uma inevitável superlotação e um aumento da miséria do local. Na cidade, a cegueira se espalha como uma onda. Uma onda branca que atinge à todos sem fazer distinção entre ricos e pobres, jovens e adultos, homens e mulheres, governantes e governados. Em meio a um incêndio provocado, os enclausurados se dão conta que os militares que faziam sua “segurança” já não estão lá. Fugiram, bateram em retirada, tanto faz, provavelmente cegaram também.

Nesse ponto os recém-libertos se deparam com a situação descrita no início. Grupos de cegos formados ao acaso rastejam pelo chão, balançam os braços à frente para evitar possíveis obstáculos e buscam desesperadamente por comida. As lojas que continham qualquer tipo de alimento foram saqueadas. A chuva promove um espetáculo medonho, com uma legião de bocas viradas para o céu para se refrescarem.

Mas voltemos à Nova Orleans por ora. Dias antes do Katrina atingir o Golfo do México a população foi posta em alerta e se recomendou que aqueles que vivessem nas áreas de maior risco deixassem suas casas e buscassem abrigo em local seguro. Mas aqui quem cega não são aqueles que estão na cidade, mas quem está do lado de fora. É a cegueira das autoridades, a cegueira dos “stupid white men”, enfim, a cegueira branca que toma contornos muito mais cruéis que na ficção. Comodamente eles parecem ignorar a legião de pessoas deixadas para trás, coincidentemente (ou não?) composta em sua maioria por negros pobres, descendentes do escravismo do sul dos EEUU. Como sempre, essa camada da população é relegada ao esquecimento, aqueles que não têm condições de pagar hotéis, que simplesmente não tem carros para deixar a cidade ficam para tentar proteger os únicos bens que possuem. A estes só resta reforçar as vidraças das casas e pedir que Deus tenha piedade de suas almas. Mas o Divino não ouve suas preces, o furacão rompe os diques que separam a cidade do mar e precipita sobre ela uma enorme onda que a deixa quase que inteiramente submersa.

A população então busca abrigo nos poucos lugares secos que sobraram, como o ginásio esportivo Superdome. Aqui também é possível fazer uma analogia com o manicômio supracitado, onde se desenharam horrores parecidos. A reação do governo, que parece nocauteado, é tardia e ineficaz. São cinco longos dias de espera até que o socorro chegue. Num primeiro momento são enviadas tropas para manter a ordem e proteger a propriedade privada dos “saqueadores’ e “vândalos”, a ajuda humanitária fica em segundo plano. A evacuação da cidade é lenta e dolorosa, pessoas se estapeiam para conseguir um lugar num ônibus ou helicóptero e deixar aquele inferno.

Um bar do bairro francês, atração turística da cidade, se orgulha de ter ficado 24 horas aberto, mesmo durante o furacão. É o “american way of life”, que alheio à tudo acontece em volta não se abala, “the show must go on”. Fica a pergunta: por que? Por que tanto sofrimento, se poderia ter sido evitado? Por que aqueles que menos têm são os que pagam o maior preço? A resposta é óbvia, dolorosamente óbvia. A ferida da nação foi aberta e exposta. Uma ferida suja que persiste e nos lembra a cada momento o quão ignorantes e mesquinhos somos.

Ao final do livro de Saramago, assim como veio, a cegueira some. Por todo lugar ecoa o grito “Eu vejo!”. Quem dera ser assim na vida real, quem dera um dia, num passe de mágica todos enxergassem a verdade: a de que somos todos irmãos, e passássemos a viver como tais. Enquanto esse dia não chega, nos resta o lamento triste do Blues e o consolo do Jazz, da música que ecoa em Nova Orleans, terra de valorosos negros que rompendo seus grilhões construíram o sul do país, e o farão novamente quantas vezes forem necessárias.