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Joe Rocha Rangel - Publicado em 02.10.2005




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Presidente Bush faz promessas mirabolantes e um mea-culpa público; equipes de reabilitação de imagem caçam bruxas expiatórias nos restos da enxurrada.

São Francisco, Califórnia — Os assessores próximos ao presidente Bush, segundo a revista Newsweek, relutam em lhe dar más notícias por que ele reage a elas com grosseria. A notícia ruim na terça feira, 30 de agosto, 24 horas depois da passagem do Furacão Katrina, era que o presidente teria que encurtar suas férias.

"Até o quarto dia do furacão", escreve um apologista do presidente Bush, "a governadora da Louisiana, Kathleen Blanco, recusou a ajuda das autoridades federais. Quando finalmente a aceitou, e de má-vontade, em menos de uma hora a ajuda chegou a New Orleans”.

A parte entre aspas do parágrafo acima, redigida pelo filósofo Olavo de Carvalho (olavodecarvalho.org) em sua coluna no Diário do Comércio não é corroborada pelas agências de notícias genuínas, Reuters, e Associated Press, por nenhum periódico idôneo, nem mesmo aqueles simpáticos à política do presidente Bush, como o Wall Street Journal, e o Washington Times, ou a revista Standard Weekly.

A revista Time, só para citar um exemplo, conta uma história diferente.

"No dia em que o furacão atingiu a Costa do Golfo, ela [a governadora Blanco] avisou ao presidente que precisava desesperadamente de ajuda, e pediu que ele mandasse tudo que fosse possível (‘everything you got’ em inglês), mas quase nada chegou. A governadora ligou de novo para a Casa Branca e insistiu em falar mais uma vez com o presidente. George Bush não foi localizado. Pediu, então, para falar com o Chefe da Casa Civil, Andrew Card, mas ele não estava disponível. Após de ser transferida para outros dois funcionários, ela deixou um recado com a Conselheira do Departamento de Segurança do Território Nacional, Frances Townsend. Depois de esperar horas por algum contato de alguma autoridade oficial do governo federal, ela voltou a ligar para a Casa Branca e finalmente conseguiu falar com o presidente Bush, que lhe garantiu que a ajuda estava a caminho."

Segundo o texto do intelectual conservador Olavo de Carvalho, sob o título “O malvado Bush contra a infeliz Louisiana”, “pouco antes da meia-noite [sexta feira dia 3], sentindo que estava perdendo a corrida contra o furacão, o presidente ligou pessoalmente para a governadora, suplicando que ela assinasse o pedido [autorizando o governo federal a intervir no estado da Louisiana]".

Sexta-feira, na verdade, caiu no dia 2, ou vice-versa. É o que mostra o calendário. Mas vamos adiante.

“Os esforços do presidente para salvar milhares de pessoas”, prossegue o articulista, “foram frustrados pela vaidade de uma politiqueira de província”.

Abro parênteses para esclarecer que foi o e-mail de um leitor — “li este artigo de Olavo de Carvalho e achei conflitante com o seu” — que me levou a essas ponderações.

Perfeitamente. Convido os amigos com tempo e paciência a uma leitura atenta do escritor e filósofo a que estou me referindo. Sua dissertação, vazada de ira e escárnio, ocupa 8 páginas, e ornamenta-se com uma pequena coleção de insultos envenenados, —“Jesse Jackson e Ted Kennedy, a nata da esquerda canalha (ou algo assim), e (meu favorito) Hillary Clinton, a madrinha do Hugo Chaves”, irrelevantes no contexto de um furacão. Estimulados pelo progressivo aquecimento dos oceanos, esses monstros atmosféricos afligem inocentes tanto em Cuba quanto no Texas, como que a demonstrar que a natureza, Deus, se quiserem, não tem filiação partidária ou tendência ideológica.

A revista Newsweek contradiz o suposto zelo do presidente que teria implorado a colaboração da "mulherzinha", como o autor trata, a certa altura de seu artigo, a governadora Kathleen Blanco.

Eis o que diz a reportagem da Newsweek:

"O presidente não se deu conta da gravidade e da urgência da catástrofe em progresso até quinta-feira a noite [dia 8], quando funcionários da Casa Branca decidiram fazer um DVD do noticiário das redes de televisão para mostrar ao presidente". "Como é possível", indaga o repórter Evan Thomas, "que o presidente dos Estados Unidos da América estivesse menos informado do que o cidadão comum a respeito do pior desastre natural na história do país?”.

Estamos, portanto, diante de narrações discrepantes da seqüência de eventos. Talvez jamais venhamos a entender com todas as minúcias os desdobramentos dramáticos daqueles dias tensos, os dez dias que abalaram uma presidência, e arrasaram uma cidade.

Apelos para que um comitê independente conduzisse uma investigação pormenorizada, para prevenir futuros malogros na eventualidade de um desastre natural ou um ataque terrorista, foram rejeitados pela presidência, que optou por uma averiguação interna. A governadora de Louisiana enviou uma carta ao presidente Bush insistindo na formação de um comitê investigatório autônomo, nos moldes do que formulou o relatório 11 de setembro. O membro de seu gabinete selecionado para examinar o fiasco, Frances Townsend, Conselheira do Departamento de Segurança do Território Nacional, foi participante ativa do enredo que o ensejou.

A crônica do senhor Olavo de Carvalho parece material destinado à campanha de reparo de uma reputação arruinada: o líder que não lidera, o comandante-em-chefe por fora dos acontecimentos ao seu redor, isolado dos contratempos do cotidiano de seu povo, apático, entediado, perdido em um vácuo que o protege de notícias ruins, e que se irrita quando elas chegam ao seu conhecimento para atrapalhar seu repouso. (Lembrei-me imediatamente da reação letárgica e da prostração emocional do presidente Bush, no dia 11 de setembro de 2001, quando foi informado, em uma escola na Flórida, que os Estados Unidos estavam sendo atacados por terroristas, e o Pentágono e o World Trade Center ardiam em chamas).

A realidade é que o prestígio do presidente Bush, em baixa há algum tempo, afundou nas águas de Nova Orleans. Pesquisa de opinião da revista Newsweek mostra que apenas 38% dos americanos aprovam seu desempenho, um índice miseravelmente baixo para um presidente recém eleito para um segundo mandato.

Os Estados Unidos vivem hoje uma crise de identidade: uma imbatível potência militar e econômica, o líder do mundo livre que exporta democracia para o Oriente Médio, mira-se no espelho e vê o reflexo de um império em declínio, que não consegue cuidar dos seus cidadãos quando um ciclone os atinge, que financia suas guerras, seu descomedimento fiscal, a reconstrução de cidades arrasadas pelo clima, recorrendo a empréstimos diários à China e ao Japão.

O plano de resgate da presidência desdobra-se em três frentes simultâneas de atuação: primeiro, exibe ostensivamente a presença freqüente e agressiva do presidente nas áreas afetadas pelo furacão, de mangas arregaçadas, demonstrando envolvimento pessoal no drama das vítimas; segundo, promete um caminhão de dinheiro, sem oferecer planos específicos ou preocupar-se com a nota fiscal no fim da farra (fala-se em bilhões de dólares como se fala em mixarias corriqueiras); terceiro, culpa o partido de oposição, que, incidentemente, ocupa a prefeitura de Nova Orleans, e o governo do estado da Louisiana. O socorro federal às cidades do estado do Mississipi e do Alabama, igualmente inepto, foi omitido pelo articulista. Talvez por que Nova Orleans tenha sido afetada mais severamente, está certo, talvez por que o Mississipi e o Alabama, os estados mais atrasados da união, sejam governados por republicanos.

Em público, o presidente Bush aparece ao lado do prefeito Nagin e da governadora Blanco, e lhes promete o mundo. Na quinta-feira, admitiu em discurso transmitido em rede nacional de televisão no horário nobre, que o governo federal falhou, e convocou um “dia nacional de oração”. Três semanas depois, por ironia, o furacão Rita, um peso pesado meteorológico, alagou justamente uma parte do Texas.

Mas nos subterrâneos, Karl Rove, seu conselheiro político, dissemina a versão apócrifa dos acontecimentos, do qual o texto do escritor Olavo de Carvalho é um exemplar cristalino: o presidente Bush, num raro rompante de compaixão desenfreada, suplica à governadora que lhe dê permissão para mandar as tropas federais, mas ela esnoba o apelo. Ninguém do alto escalão do seu governo, o vice-presidente Dick Cheney, a Secretária de Estado, Condoleezza Rice, o Secretário de Imprensa da presidência, Scott McLellan, e nenhum deputado ou senador de seu partido, se atrevem a divulgar tal fato. Talvez por que ele seja absurdamente destorcido.

Não quer dizer que o prefeito de Nova Orleans e a governadora da Louisiana estejam isentos de responsabilidades. O despreparo e a falta de liderança podem ser atribuídos em parcelas iguais aos três níveis administrativos, democrata ou republicano. Trata-se de inaptidão interpartidária. Município, estado, e governo federal fracassaram. Se estivessem no setor privado, onde resultados são indicadores fundamentais da eficiência, estariam todos demitidos.

Prometo-lhes que minha avaliação dos fatos não sai das diatribes antibush do Michael Moore, ou do site Moveon.org. Minhas fontes são ordinárias: os jornais diários, as revistas semanais, a televisão. Pode ser que tenham todos se enganado, e tudo que eu assisti na CNN não passe de uma montagem hollywoodiana, uma conspiração da “esquerda chique de Nova York” (expressão do filósofo Olavo de Carvalho) ou São Francisco para embaraçar o presidente. Improvável: na quinta-feira, o próprio presidente George W. Bush afirmou, diante de uma igreja em Jackson Square, Nova Orleans, que o povo americano tinha todo o direito de exigir uma resposta mais eficaz na hora de uma emergência. “Quando o governo federal falha diante de tais obrigações, eu, na condição de presidente, sou o responsável”. (O discurso pode ser lido na íntegra no website da Casa Branca, whitehouse.gov). E não me venham insinuar que o site oficial da Casa Branca é parte da conspiração da esquerda liberal dos EUA.

A guerra no Iraque e o Furacão Katrina estão se transformando, com a velocidade de um tufão, na Mônica Lewinsky do presidente Bush. A diferança é que a libido desmedida do presidente Clinton, os escândalos sexuais, a galinhagem no Salão Oval, constrangimentos que despertaram dúvidas quanto ao caráter do chefe de estado, não resultaram em fatalidades.

Em Bagdá e em Nova Orleans, a contagem dos corpos continua.