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Furacão Katrina em Nova Orleans O Terceiro Mundo nos Estados Unidos Furacão Katrina em Nova Orleans O Terceiro Mundo nos Estados Unidos Furacão Katrina em Nova Orleans O Terceiro Mundo nos Estados Unidos Furacão Katrina em Nova Orleans O Terceiro Mundo nos Estados Unidos Furacão Katrina em Nova Orleans O Terceiro Mundo nos Estados Unidos Furacão Katrina em Nova Orleans O Terceiro Mundo nos Estados Unidos Furacão Katrina em Nova Orleans O Terceiro Mundo nos Estados Unidos Furacão Katrina em Nova Orleans O Terceiro Mundo nos Estados Unidos

 


Joe Rocha Rangel - Publicado em 11.09.2005


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São Francisco, Califórnia — Até a semana retrasada, a mensagem oficial era de que apesar da situação caótica no Iraque, do déficit orçamentário, e da gasolina cara, o sol resplandecia sobre os Estados Unidos da América: o produto interno bruto cresceu, a bolsa de valores está em alta, e o mercado de trabalho em expansão. Michael Jackson foi absolvido, e Britney Spear está grávida.

O grande sucesso de bilheteria da temporada nos cinemas da América é Wedding Crashers (Penetras Bom de Bico), e O Virgem de Quarenta Anos. São comédias cujo enredo se desdobra num mundo sem perigo, habitado por gente de aparência saudável, onde rola um clima de festança perpétuo, sexo fortuito, dramas íntimos superficiais — e um indispensável final feliz.

Portanto, estamos no topo da montanha.

Mas um vento forte ergueu o véu diáfano das estatísticas frias e revelou a verdade nua: a disparidade sócio-racial do país, severamente exacerbada durante a atual administração.

O furacão Katrina expôs ao mundo a feiúra mal nutrida da maior economia do mundo. Num país escandalosamente rico, está claro que pobreza não é prioridade. O plano econômico do Presidente Bush, uma reedição da filosofia conservadora da era Reagan, — estimular a economia concedendo cortes de imposto às pessoas de renda alta, e reduzir programas sociais — beneficiou alguns, assanhou Wall Street, mas deixou de lado os mais vulneráveis.

Nova Orleans, destinação favorita de turistas em busca de um agito noturno, abriga uma população majoritariamente negra. Trinta por cento dessa massa vive abaixo da linha da pobreza. Trata-se uma particularidade sociológica abstrata, invisível aos visitantes embriagados no calor de Bourbon Street, no refinado Quarteirão Francês, nas conversas fiadas no Café Du Mond, mas cruelmente concreta para quem a vivencia. Hoje, 80% da cidade está submerso, e sobre a massa líquida que a cobre flutuam automóveis, peças de mobília, dejetos humanos, lixo, e gente morta, muita gente morta.

Eis um comentário freqüente nos cafés daqui: "parecia coisa de Terceiro Mundo".

Sinto que para muita gente o Terceiro Mundo é um planeta distante: vilarejos remotos na Etiópia; favelas no Haiti; fotografias na National Geografic Magazine. Antes que o furacão Katrina chegasse a Nova Orleans, o Primeiro Mundo partiu num Range Rover com tração nas quatro rodas, em busca de algum refúgio seguro e confortável: a casa de campo, o motel com ar condicionado e televisão. A parte Terceiro Mundo de Nova Orleans não tinha para onde ir, não tinha automóvel, casa de campo, cartão de crédito. Foram para o Centro de Convenções, ou para o Superdome, em condições promíscuas: um calor desgraçado durante o dia; trevas e medo à noite.

E a televisão deixou claro que há um Terceiro Mundo aqui, encravado no sul da América rica.

As autoridades responsáveis pela coleta de cadáveres estimam que haja algo em torno de 10 000 pessoas mortas, possivelmente mais. Bem pior do que a tragédia de 11 de setembro de 2001, quando cerca de três mil perderam a vida.

No entanto, quando as Torres do World Trade Center foram atacadas por terroristas, há quatro anos, a reação foi instantânea, o país entrou em luto imediato. O governo federal só se deu conta da gravidade do furacão Katrina, cinco dias após sua passagem. E a reação inicial foi inadequada, lenta, negligente.

Por que a diferença de ênfase entre uma desgraça e outra?

O World Trade Center era o emblema da prosperidade de terno e gravata, o 'topo da montanha', o Primeiro Mundo atacado por animais ressentidos. Biloxi, Mississippi, é a Bangladesh estadunidense; Nova Orleans é a miséria crioula; Mobile, Alabama, a face desdentada do sul maltrapilho. Talvez o rapper Kanye West estivesse correto ao abandonar o script num programa de televisão beneficente e esculhambar o líder da nação: “O presidente Bush não se importa com gente preta”.

É o que sugerem os fatos.

Enquanto Nova Orleans afundava, o Presidente Bush, de férias, aproveitava o tempo livre para tentar vender sua aventura militar no Iraque a uma opinião pública cada vez mais cética e impaciente. O vice-presidente Dick Cheney, também de férias, descansava em Wyoming. O chefe da Casa Civil da Presidência, Andrew Card, estava de folga, no estado de Maine. Descansar é preciso, pois ninguém é de ferro.

O prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, decretara estado de emergência, e a evacuação obrigatória da cidade no domingo a noite. Segunda-feira, correspondentes das redes de televisão desbravavam a ventania, e ofereciam aos telespectadores a bravura profissional encharcada. Terça-feira, quando Nova Orleans começou a ser inundada com a ruptura das barragens que protegem a cidade ao longo do Rio Mississippi, o Presidente Bush estava em São Diego, Califórnia, exaltando a nova constituição do Iraque. Quarta-feira, o país perplexo assistia a cenas de anarquia, saques, desespero, miséria. Na quinta-feira, a Secretária de Estado, Condoleezza Rice, afro-americana nascida e criada no Alabama, encontrava-se num quarteirão elegante da Quinta Avenida. Comprava sapatos na renomada Loja Ferragamo’s.

Só então o Presidente Bush foi à televisão em rede nacional. Mas seu discurso foi seco, ostensivamente destituído de emoção. Parecia inteiramente desligado das dimensões do desastre no sul do país. Minha impressão foi que ele cumpria, a contragosto, uma tarefa burocrática incômoda.

E as tropas federais? Por onde andava a FEMA (Federal Emergency Management Agency), departamento do governo incumbido de coordenar o controle de emergência em situações como aquela? E a Guarda Nacional do estado de Louisiana, treinada para manter a lei e a ordem em caso de desastre natural? A resposta à última pergunta deixou muita gente enfurecida: um terço da Guarda Nacional da Louisiana está no Iraque — reconstruindo Bagdá. Aparentemente o Golfo Pérsico é mais importante do que o Golfo do México.

E então algo inédito em 25 anos de CNN ocorreu: repórteres, como que possuídos de uma santa indignação, largaram a compostura, e passaram a desafiar asperamente depoimentos públicos de políticos e autoridades governamentais. Um senador de Louisiana agradeceu o Presidente Bush “por tudo que ele estava fazendo pelo estado”. “Desculpe, senador” esbravejou o repórter Anderson Cooper, “até agora não teve ajuda coisa nenhuma: as pessoas estão morrendo na rua, não há comida, não há água...”. Quando o governador do Mississippi, Haley Barbour, tirava o seu da reta dizendo que Katrina chegara à Flórida como um furacão categoria um, foi interrompido por um correspondente com cara exausta e cabelo desgrenhado, “governador, com todo respeito, os meteorologistas começaram a prever que este seria um furacão categoria cinco no domingo, como é que o senhor não sabia disso?”. O anchor Wolf Blitz perguntou à produtora da CNN, Kim Segal, que estava no Centro de Convenções de Nova Orleans, quem estava prestando os primeiros cuidados às vítimas. A resposta foi de uma espontaneidade fulminante, “ninguém, não há ninguém aqui, só o povo sofrendo e nós, jornalistas, impotentes diante da zona. O que há é caos absoluto, Wolf, tem gente morrendo diante dos nossos olhos”.

Finalmente, na sexta-feira, o Presidente Bush foi pessoalmente a uma das áreas afetadas pelo furacão. A guarda nacional de outros estados fora mobilizada para Nova Orleans, e Biloxi. Caminhões do exército deslizavam por ruas desertas e alagadas. Helicópteros Black Hawk trouxeram comida, água. O Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, fez uma aparição súbita a Baton Rouge, capital de Louisiana, acompanhado do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas. O diretor do recém criado Departamento de Segurança do Território Nacional, Michael Chertoff, estava em todos os talk shows de domingo dando explicações.

No fim de semana, uma onda de revolta, mesmo entre deputados e senadores simpatizantes do Presidente Bush, misturava a guerra no Iraque, o preço da gasolina, e racismo, ao desleixo com que o governo tratou a catástrofe na Costa do Golfo.

Nova Orleans estará inabitável por muitos meses, talvez um ano. Muita gente foi levada ao Texas, e de lá não se sabe para onde vão. Os que sobreviveram `a fúria da natureza, vítimas também da negligência oficial, não têm onde morar, não têm emprego, não têm perspectivas para o futuro, não têm mais nada.

Será que foram esquecidos por que eram pretos e pobres? Por que o Terceiro Mundo no nosso quintal não pega bem? Não quero ser leviano. Mas sei que o ano passado, quando o furacão Ivan atingiu uma área de classe média branca na Flórida, a preparação foi impecável, assistência humanitária federal chegou imediatamente, a Guarda Nacional entrou em estado de alerta vários dias antes da chegada do furacão. Um furacão categoria três, se não me engano. Como é possível que Palm Beach mereça mais cuidado do que uma cidade com 287 anos de história, capital do jazz e do blues, conhecida no mundo inteiro?

Logo depois da tragédia terrorista de 11 de setembro de 2001, o Presidente Bush declarou guerra ao Afeganistão. Dois anos depois invadiu o Iraque. Poderia desfazer a impressão de que não se importa com os pretos, decretando guerra à pobreza, revertendo a redução de impostos à classe alta, e investindo maciçamente em comunidades carentes, especialmente no Mississippi, em Louisiana, no Alabama.

Por ora, George W. Bush está incorporado à galeria dos piores presidentes dos EUA, com todas as desonras pertinentes, na companhia de Herbert Hoover, Lyndon Johson, e Richard Nixon.