| |
|
|
Duplo assassinato
Maurício Gomes Angelo - Publicado em 11.10.2005

Publicidade

Brindado com a edição 1925, de 5 de outubro de 2005, da revista Veja, chamou-me a atenção sua capa e a conseqüente reportagem relacionada. Intitulada “Referendo da Fumaça”, com o subtítulo “7 razões para votar não”, e assinada por Jaime Klintowitz, ela visa analisar os pormenores do referendo sobre o comércio de armas a acontecer este mês em nosso país.
Sobretudo, o que choca no texto de Klintowitz é a infantilidade e parcialidade dos argumentos. Seria injusto dizer que a reportagem não tem nenhuma virtude. Tem. A franqueza. Poucas vezes vi um grande veículo de comunicação assumir uma postura tão declarada a favor de algo. Antes tais veículos fossem igualmente francos em todas suas abordagens. Eu sei, é pedir demais.
A matéria começa da seguinte forma: Nas páginas seguintes, Veja alinha sete razões pelas quais julga correto votar NÃO no referendo sobre o comércio de armas (...) a revista acredita que a atitude que melhor serve aos interesses de seus leitores e do país é incentivar a rejeição da proposta de proibição”.
E a tão apregoada “imparcialidade” jornalística? E a reivindicada “isenção” dos meios de comunicação? Ah, sim. “Veja” julga estar trabalhando em prol do bem público. O bem de uma população deve sobrepujar quaisquer outras coisas. A ética, inclusive. Um déja-vu.
Eles seguem atentando para a pergunta que será feita no referendo: “o comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. Para eles, tal questão é um disparate. E explicam o porquê – “ela reduz um problema social complexo a uma simplória questão comercial”. E propõem uma outra pergunta, esta sim “mais honesta e realista”: “O Estado brasileiro pode tirar das pessoas o direito de comprar uma arma de fogo?”.
Talvez seja apenas um desvio de interpretação da minha parte, mas a pergunta proposta por Veja, além de não contribuir sequer para o aprofundamento da discussão, é mais superficial e manipuladora, apelando para um sentimentalismo barato e apregoando a idéia de que o governo brasileiro está tentando usurpar da população um direito fundamental e inalienável.
A parcialidade começa a apresentar seus problemas.
Algumas linhas depois é apresentado o exemplar caso da Suíça, país que já realizou 531 referendos desde 1848, e dizem que “os suíços aprenderam a não submeter a consultas populares questões cuja efetivação dependa da concordância de outros países, grupos de interesse capazes de tornar o voto popular inócuo”. Parece razoável que se pense nisso, correto? E continuam: “para funcionar, o referendo brasileiro precisa da concordância de outros países (que vendem armas ilegalmente aos bandidos brasileiros) e de grupos particulares de interesse (os criminosos e seus asseclas na polícia)”.
Este é, provavelmente, o maior achado do texto. Enquanto escriba, embasbaco-me com a falta de percepção intelectual de alguém a escrever isto – qualquer revisão minimamente sóbria eliminaria um argumento tão absurdo. Como jornalista, fico impressionado com a gratuidade da coisa. A última citação traz a idéia de que (pasmem, leitores, pasmem!) o governo deste país precisa pedir autorização aos bandidos (tanto os contrabandistas internacionais como os contraventores locais) para aprovar ou não alguma lei. A efetividade do referendo, seja proibindo ou autorizando a venda de armas para a população, independe do que “acham” os bandidos. A lei será cumprida. Ponto. Acabar com a exportação ilegal e combater o banditismo de toda sorte é outro departamento. Diria o filósofo das empanadas que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.
Continua Klintowitz: “o referendo é um despiste, uma tentativa de mudar de assunto, de desviar a atenção das pessoas do mal que realmente as atormenta: o banditismo”. Oh! Uma hipótese considerável! Será mesmo? Segue ele: “Pior ainda. Como uma possível vitória do SIM não terá efeito positivo algum – ao contrário, vai ajudar a aumentar ainda mais o poder de fogo dos bandidos -, as pessoas vão se sentir culpadas pelos crimes que continuarão acontecendo”. Droga. Até que estava indo bem...
Três pontos. (1) - É obviamente perigoso afirmar que a “vitória do sim” não terá efeito positivo nenhum. (2) - Proibindo a população civil de não poder ter, legalmente, uma arma, isto não aumentará nem afetará de forma alguma o acesso dos bandidos às armas, considerando que, atualmente, praticamente todo o arsenal destes já é conseguido ilegalmente, ou seja... (3) – O grau de apelação da frase “as pessoas vão se sentir culpadas pelos crimes que continuarão acontecendo” é suficientemente repugnante por si só.
Temos outra pérola à frente. “Se vencer o SIM, ele apenas vai desequilibrar ainda mais o balanço de forças entre as pessoas comuns e os bandidos – a favor dos bandidos”.
Em outras palavras, o que essa frase quer dizer? Há uma guerra declarada, de um lado, as pessoas de bem, comuns, que seguem sua vida normal, do outro, os criminosos, seres desprezíveis e perigosos que querem dizimar a população. Com o primeiro grupo desarmado, o segundo alcança uma nítida vantagem e poderá pôr em prática seu massacre, dizimando-os. Tal frase sugere que devemos combater os bandidos face-a-face, olho por olho, dente por dente, dar o troco, caçá-los, e nos prepararmos para isso. Como? Tendo uma arma. Este é o tipo de coisa (uma guerra entre o bem e o mal) que habita o imaginário de uma criança de 3 anos, e a proposta de “ir pro pau” é incrivelmente medieval. Viva a involução!
É dito que o poder público brasileiro sempre foge do problema real e busca soluções “encantadas” para as adversidades. Como na inflação, quando a solução “bala mágica” foi implantada várias vezes e nunca deu certo. Ela só foi extinta “quando o Plano Real optou pela racionalidade e aceitou a existência de um mundo real do lado de fora dos gabinetes de Brasília. O referendo carece dessa racionalidade”. Viram como se acham brechas para imputar a ideologia de um veículo em suas matérias? No meio das armas, o Plano Real. Clap, clap, clap.
O segundo argumento das “7 razões para votar não” é que “as pessoas temem as armas. A vitória do “sim” no referendo não vai tira-las de circulação no Brasil”. Este é realmente engenhoso. Coisa de mestre. E dentro dele encontramos a seguinte passagem: “Nas zonas rurais brasileiras, longe dos pontos policiais, (as armas) servem para os sitiantes e fazendeiros defenderem suas propriedades de assaltos, invasões do MST e dos ataques de animais predadores a seus rebanhos e criações.”
Entre bandidos e animais ferozes, o MST. O MST que tanto incomoda. Que é tão demonizado. Por que?
Uma reivindicação legítima colocada lado-a-lado a “estragos” naturais – os predadores – e ações criminosas. Ensinaram-me que as técnicas de persuasão da imprensa tinham ficado mais sutis nos tempos atuais. Tenho minhas dúvidas.
O terceiro argumento é fantástico: “O desarmamento da população é historicamente um dos pilares do totalitarismo. Hitler, Stalin, Mussolini, Fidel Castro e Mao Tsé-tung estão entre os que proibiram o povo de possuir armas”.
Achava que nossos formadores de opinião já tinham desistido de insinuar que o governo petista tem traços de “autoritarismo”. Vez por outra, eles não resistem à tentação. Mesmo o presidente Lulla provando que é tão ou mais conivente com o sistema que seus antecessores. Povo medroso esse.
Para corroborar o argumento acima, a revista traz a opinião de Angelo Segrillo, professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense. Como reza a cartilha, nada melhor que a opinião de um “especialista” externo, respeitável, “isento” por excelência, para reforçar o raciocínio do veículo. Diz ele: “O desarmamento faz parte da filosofia comunista de que toda e qualquer liberdade individual deve ser abolida em benefício do Estado operário”. Incrível como tentam, incessantemente, reduzir, deturpar e tornar maléfico o pensamento de Marx. Vício de hienas, que se contentam com pouco.
Quarto argumento. “A Polícia brasileira é incapaz de garantir a segurança dos cidadãos”. Moral da história? Faça você mesmo a sua lei. Bang-bang.
Sexto argumento. “Obviamente, os criminosos não vão obedecer à proibição do comércio de armas.” Este é relevante! Já notaram a preocupação recorrente com a vida dos criminosos? Coisa estranha...
Sétimo e último. “O referendo desvia a atenção daquilo que realmente deve ser feito: a limpeza e o aparelhamento da polícia, da justiça e das penitenciárias”. Bom, quase apropriado. Das sete razões apontadas pela revista, no mínimo cinco são irracionais. E nenhuma passagem da matéria omitida neste artigo é capaz de melhorar sua qualidade.
A reportagem de Veja é um duplo assassínio. Primeiro, de toda a ética jornalística. Segundo, da inteligência do leitor. Este último, só acontece se você deixar.
Não acho que o porte de armas seja um fator fundamental para a combate à criminalidade de nosso país. O uso de armas de fogo já sofreu as restrições necessárias anos atrás. Não creio que a proibição ou liberação do porte irá influenciar grandemente nem no aumento, nem no declínio do índice de mortes. Como prova a história, não há correlação exata entre a não existência de armas e o número de homicídios. A própria Veja traz em sua irresponsável reportagem um quadro mostrando que, em países como Suíça e Canadá, onde a venda de armas é praticamente liberada e o grande parte da população possui armamento em casa, a taxa de homicídios é baixíssima. Na Inglaterra e no Japão, idem. E na Jamaica, onde a venda é proibida, o índice de homicídios é alto. No Brasil, onde poucas residências têm armas, também. Tudo muito bonito, bem explicadinho, em termos de dados. Qual a peculiaridade deste quadro?
Os únicos países onde os índices de homicídio são altos, independente da proibição, restrição ou liberação do uso de armas, são a Jamaica e o Brasil. O que eles têm em comum? Acertou. Os dois são pobres, “terceiro-mundistas”, de qualidade e expectativa de vida baixa, os dois são “periféricos” na economia mundial. Os problemas de criminalidade de um país vão muito além do simples porte de armas por sua população. E, sim, equipar, estruturar, informatizar, preparar a polícia para enfrentar o crime é importante e deve ser debatido, otimizar o papel da Justiça também, em todos os sentidos. Contudo, ainda não chegamos ao cerne do problema. O preparo da polícia não é o que realmente importa, trata-se apenas do subterfúgio do subterfúgio. Melhorar este aspecto é só um paliativo, que se enveredará em conseqüências previsíveis se amontoando sem fim até um novo colapso. A origem do mal, seja ele qual for, que assola nossa sociedade, passa necessariamente pela história, e principalmente, pela política. É ela a forma de mudar tudo isso. Perder-se em divagações sobre o porte de armas e o preparo da polícia não passa de mais um estratagema da imprensa mundial.
Estratagema (palavra que acho plasticamente reprovável, mas incrivelmente apropriada) significa o uso de um ardil para enganar o inimigo. Se há um inimigo, há um conflito. Uma guerra de interesses. Não uma guerra civil, não uma guerra entre as pessoas comuns (o “bem”) e os bandidos (o “mal”), mas uma guerra de classes. O eterno retorno (no sentido semântico, não filosófico). José Serra disse recentemente que a diferença entre direita e esquerda é que a esquerda tem um projeto de transformação social, que quer mudar a vida da população, a direita não pensa sim, ele (a direita) quer dar remédios e comida para o povo, quer tratá-lo bem, fazê-lo feliz, coisas do tipo. Há uma infinidade de ardis e paradoxos nesta declaração. Uma observação deveras suculenta. Serra, ex-revolucionário, sabe o que fala. O que a imprensa não pode admitir, nunca, como origem do problema, é o sistema vigente. O que ela, jamais, pode sugerir como resultado dessa dialética (vamos falar baixinho para não assustar) é a revolução. Ela, esta “utopia anacrônica”. Este “pensamento natimorto”.
Sempre voltamos a ela. Sempre estamos aqui novamente. “Revolução, revolução, revolução...”. Este mantra, que já perdeu tanto de seu poder de sedução. Não de seu poder real. Antes fosse obsessão, utopia, cegueira, insanidade, doença, o que seja. Se a revolução invariavelmente aparece como verdade e urgência final de discussões intelectuais, não é porque eu, e milhares de outros, querem, mas porque esta é a realidade. Acusem-me do que quiserem. Tentem provar o contrário. Serei chato, serei inacreditavelmente chato, se assim for necessário proceder para aniquilar o establishment.
Se a revolução estivesse mesmo morta, os meios de comunicação não precisariam gastar tanto tempo e espaço para desacreditá-la. Há um fantasma assombrando-os. Eles tremem diante dela. Sempre tremeram. Estão usando de estratagemas para tentar enganar o inimigo. O “inimigo” somos nós. A improvável insurreição dos proles. Está na hora de retribuirmos o tratamento.
• Especial Desarmamento hoje. E amanhã?
|
|
|