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Liberté, Egalité, Fraternité
Adilson Luiz Gonçalves - Publicado em 22.11.2005

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Distúrbios sociais, culturais e raciais nos subúrbios de Paris... Tumultos atingem o centro de Paris... Ministro do Interior francês culpa a “gentalha” e decreta "toque de recolher"...
Parece que a "Cidade Luz" está sombria, apesar de iluminada, pelo fogo do vandalismo!
Poderia ser qualquer cidade européia, mas Paris, que sempre foi símbolo de tolerância, evolução e resistência, cada uma a seu tempo: da Revolução Francesa à Comuna de Paris, da Segunda Guerra às manifestações de 1968; de repente se vê palco de manifestações de vandalismo e repressão, que surpreendem e preocupam a todos. Há muitas lições nisso, embora alguns só vejam prejuízos ao turismo, de uma cidade tão bonita e chique...
São promovidas por imigrantes? Não! Os atores são a terceira geração de egressos de ex-colônias e protetorados, mas, também, de um país, a Argélia, que já foi um departamento francês, o equivalente a um estado, no Brasil! São franceses!
Não são manifestações com "grife" ou "fashions", que movimentam fortunas e enriquecem seus idealizadores. Não são gangues ou hordas com uniformes "tribais", cabelos esquisitos ou carecas, tatuagens, "piercings" e "inserts", que deformam e mutilam, e modos estranhos, às vezes agressivos - física e verbalmente - que seus militantes adotam, para demonstrar "atitude". Mas, existe um padrão que iguala Paris, Washington, Tóquio, São Paulo e várias outras metrópoles mundiais: adolescência, desocupação mental e falta de perspectiva! Raça, nacionalidade e religião não são as variáveis determinantes! Se todos fossem ricos elas não passariam de detalhes...
As situações limites ocorrem entre opostos sociais: de um lado os jovens ricos, minoria, cheios de arrogância e impunidade; do outro, a juventude dos subúrbios, maioria, cheia de revolta e vazia de esperança, esquecida pelos governos, isolada pelas elites, e dominada por criminosos e mistificadores.
A concentração de riqueza, o excesso de corrupção, a falta de educação e oportunidades, e o uso unidirecional dos instrumentos de repressão institucionais, contra as populações de baixa renda agravam o represamento social e elevam as tensões urbanas. Nessas condições, qualquer desculpa servirá para justificar atos extremos de qualquer parte. Isso só demonstra a existência, ou melhor, persistência da fragmentação social deletéria. Em alguns casos, é como se ainda estivéssemos na Idade Média, com suas cidades fortificadas, que protegiam o orgulho hereditário e a fraqueza moral da nobreza, que delas só saía para fazer guerras, e só ia ao encontro do povo para: coletar de tributos, arregimentar soldados, e seqüestrar e violar donzelas indefesas.
A ameaça de convulsão social é, hoje, mais preocupante que o risco de confrontos internacionais, pois minam as nações por dentro. O avanço da globalização, que só tem favorecido aos países que a promovem, mostra que, além de aumentar o desequilíbrio social nos países emergentes e pobres, também não conseguiu resolver esse tipo de problema dentro das próprias fronteiras. Os pobres são cidadãos de segunda classe: “estrangeiros” em seu próprio país!
Os governantes demonstram mais preocupação com os seus egos e lucros, que com o objetivo, responsabilidade e alcance de suas funções. Falta-lhes sensibilidade para entender que, desde os tempos do Rei Salomão, a sabedoria é indispensável! Destempêro verbal e manifestações de energia desmesuradas só contribuem para aumentar as rachaduras da "represa", com conseqüências previsíveis, no pior sentido. Afinal, a convulsão social é produto de erros acumulados, que os governos escondem ou não admitem.
A busca da harmonia social envolve firmeza, sim, mas permeada pelo equilíbrio entre a razão e a emoção!
Para reverter o quadro atual - que não é, apenas, parisiense - será preciso muito mais que "toques de recolher", "muros de vergonha", ou motes nacionalistas, que falem de liberdade, fraternidade e igualdade, ou ordem e progresso... Será necessário provar que os governos são capazes de olhar a população com respeito e atenção, e de dar presente e futuro aos jovens. E não se consegue isso com o chicote da repressão: É preciso da batuta de “maestros” e de muitos ensaios! E será preciso que lemas belíssimos deixem de ser mera retórica, ou privilégio de poucos, para se tornarem a mais legítima e imprescindível realidade, para uso interno e externo!
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