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Compatriotas ou “contrapatriotas”? - Copa prostituta
Henrique Mumme - Publicado em 02.07.2006

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A Copa do Mundo é uma prostituta de luxo das mais caras, desejadas e disputadas.
Se o time brasileiro perde o campeonato é como se tivesse broxado com esta prostituta fenomenal. Se ele ganha, ele goza e a faz gozar levando ambos, bem como os torcedores, a um lugar paradisíaco.
Porém, logo após o orgasmo, o paraíso se despedaça como um quebra cabeça que cai no chão, vem a sensação de vazio, de ausência de sentido e significado, podendo evoluir até mesmo para uma sensação de culpa, como se depois da vitória lembrássemos que temos uma esposa que está sendo traída e que deveria ser a companheira destes prazeres.
Ao transar com a Copa traímos nosso amado Brasil. Está certo que nossa “esposa” Brasil está feia e mal cuidada, porém, mais um motivo para darmos mais atenção à ela e não afundar com qualquer possibilidade de recuperação dela ao degradarmos inclusive sua reputação.
A Copa do Mundo, bem como qualquer outro campeonato de futebol vinculado pela mídia, está longe de ser uma amante verdadeira e fiel, é apenas algo superficial, um prazer momentâneo desprovido de sentimentos reais (deve ser por isso que combina tão bem com Coca-cola, cerveja e churrasco). É um gole de Coca-cola, é um torpedo da Vivo, é a “ode ao agora” e ao mesmo tempo um ataque contra a sustentabilidade, ao duradouro, à significância. É o pão venenoso devorado com vontade e o circo estúpido assistido com atenção redobrada e olhos maravilhados análogos aos de Mildred, esposa de Montag no romance “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury.
O mundo retratado por Bradbury em Fahrenheit não precisou ser imaginado, ele “o era” e ele “o é” agora mesmo. As pessoas conversam cada vez mais sobre coisas menos verdadeiramente importantes. O número de palavras impressas ou proferidas e cenas filmadas que pouco significam cresce violentamente.
Quanto antes e mais feio o Brasil broxar, melhor. Talvez funcione como um choque no sentido de despertar os brasileiros para realidade (não digo trazer de volta, pois muitos nunca entraram em contato, vivem imersos na ilusão, seja na ilusão miserável ou na ilusão luxuosa). Quem sabe depois de muitas broxadas o brasileiro não perceba que se envolver com uma prostituta não é o comportamento mais adequado e parta em busca de um amor verdadeiro e significante.
O ideal seria se todos os times dos diferentes países perdessem (broxassem) em todos os jogos, porém, com certeza haverá um time campeão da Copa do Mundo para erguer a taça e meu ideal se torna impossível (com exceção dos jogos que empatam, que alguns consideram como uma vitória para ambos, mas a maioria considera como uma derrota), portanto, torço para que o Brasil perca logo e de maneira humilhante de preferência.
Uma derrota no limiar da vitória do campeonato, como na Copa em que o time brasileiro enfrentou o francês na final, também tem seu mérito, no entanto, esta hipótese prolonga demais o show ilusionista e o entusiasmo hipócrita. Quanto antes quebrar a redoma que envolve o gás intoxicante de falso patriotismo ou caírem as tendas armadas para o circo, melhor.
O Futebol Poderia ser Benéfico e Útil?
O esporte em si tem potencial para desenvolver espírito de união, inclusão social, melhorar e manter a saúde corporal e mental.
Quando surgiu e durante seu desenvolvimento primordial, o futebol tinha muito mais a ver com o lugar onde nascemos, com o bairro onde crescemos, com histórias e paixões pessoais. Aos poucos, todos os jogadores deixaram de jogar em um time por paixão ou por ideal próprio. Escolhem um time em função do dinheiro envolvido, da reputação, da marca, do destaque e da posição que ocuparão em campo e na mídia.
Muitos torcedores ainda motivados por paixões e fatos antigos retro-alimentam e propagam um futebol que não mais existe e provavelmente nunca mais existirá.
Atualmente o futebol é sinônimo de dinheiro e imagem, nada mais. Vende-se a falsa idéia de “paixão nacional” como jargão comercial. Milhões de pessoas admiram e veneram esse “show” que hoje nada difere de um desfile de moda. A perda de ideais e paixões verdadeiras é apenas um dos efeitos colaterais do mundo competitivo consumista superficial. Isto ocorre com diferentes intensidades em outros esportes e em todas as áreas humanas.
Acredito que seria possível uma Copa do Mundo onde pudéssemos nos divertir e aprender algo de maneira efetiva, uma Copa sem influência de anunciantes, patrocinadores, sem guerras e monopólio da mídia, sem exclusão, sem estrelismos, sem torcedores fanáticos, sem ser levada tão a sério. Uma Copa que prezasse pelo intercâmbio cultural, pela sinceridade e pelo espírito de companheirismo, onde competir para ganhar não seria o grande objetivo, pois todos estariam ganhando de maneira efetiva com aquele encontro. O que vemos hoje não passa de uma guerra disfarçada com imenso poder de circulação da economia e de manutenção do maquiavélico sistema vigente, que poderia muito bem ser uma reunião pacífica e enriquecedora.
Já dizia George Orwell: "Guerra é Paz". E podemos dizer agora: "Futebol é Paz".
Série Compatriotas ou “contrapatriotas”?
Parte 1 - Introdução | Parte 2 - Heróis nacionais? | Parte 3 - Relações pessoais | Parte 4 - Pão e circo | Parte 5 - Mercado Capitalista (01.07) | Parte 6 - Copa Prostituta (02.07)
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