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Compatriotas ou “contrapatriotas”? - Heróis Nacionais?
Henrique Mumme - Publicado em 28.06.2006

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Pensei que um herói se media, classificava ou julgava baseando-se na moral ou caráter do indivíduo, mas mais uma vez me frustro com a realidade. Claro que não é assim que ocorre na prática.
Futebol é “engraçado”. Canalhas como Maradona deviam estar presos e sofrendo tratamento psiquiátrico, no entanto, estão em comerciais de TV do Guaraná brasileiro fazendo pobres criaturas rirem defronte ao televisor.
Seres primitivos, violentos e ignorantes como o jogador Edmundo são aclamados após fazerem gols, quando deveriam ter o comportamento repreendido e punido de forma adequada. O que dizer de um ser que assassinou outros no trânsito por estar dirigindo alcoolizado, tentou entrar em um motel com duas prostitutas ao mesmo tempo e mais tarde apareceu nos jornais dando cerveja a um chimpanzé?
O Ronaldinho Gaúcho, bem como provavelmente os outros jogadores da nossa e das outras seleções, segura a bola para ganhar tempo no jogo, cava faltas que não existiram e comete faltas com níveis variáveis de violência (ações também chamadas de antijogo para aqueles que tem alguma dúvida ou consideram como ocorrências normais do jogo).
Heróis jogam sujo? Heróis seguram a bola para ganhar tempo, cavam ou cometem faltas?
“Heróis da realidade” fazem ainda muito pior, vendem sua imagem para comerciais de produtos, idéias ou serviços que não conhecem a fundo apenas para que consumidores comprem algo motivados inteira ou completamente por sua imagem e voz.
Em um comercial de celulares, Ronaldinho Gaúcho é o protagonista de uma atitude de extrema má educação ao chamar atenção com seu toque de celular especial do hino de sua pátria enquanto assiste um espetáculo em meio a uma platéia. Sua atitude é análoga à do babaca que mantém o celular ligado no cinema e irrita as outras pessoas presentes desviando a atenção da obra cinematográfica com o som de chamado do telefone, ou pior, com a conversa insuportável: “eu tô no cinema agora... é... hahaha!”.
O mais triste é que a propaganda em questão intenciona transmitir ao espectador que “ser mal educado” e desviar a atenção dos outros durante um espetáculo ou ocasião qualquer é uma vantagem. Acontece de forma similar em uma propaganda de um passado não tão distante que mostrava um indivíduo acendendo o painel luminoso azul de seu celular em uma sessão de cinema. Quantas vezes, em cinemas e teatros, não vi pessoas repetindo exatamente o que a propaganda mostrava, sendo que em muitos dos casos não havia motivação nenhuma que justificasse o uso deste painel luminoso, a não ser fazer uma brincadeira, chamar atenção ou satisfazer a curiosidade sobre eventuais mensagens recebidas.
Enquanto isso o Ronaldinho ri, recebe seu gordo cachê, e é aclamado por muitos como herói nacional porque faz malabarismos com a bola em outras propagandas e vídeos de divulgação, como os da Nike, porém, dificilmente faz algo de extraordinário no campo. Se seguirmos este raciocínio para classificação de heróis, os malabaristas de circo ou que estão nos faróis da Paulista são também heróis exemplares. Habilidades isoladas à uma análise conjunta da moral e do caráter a meu ver não são suficientes para justificar títulos como “herói nacional”.
Este comportamento repulsivo de se vender como um personagem que agrega valor ao produto, serviço ou idéia é válido para os outros jogadores, principalmente os mais famosos que estão em destaque.
Um cartaz propaganda da Pepsi exibe o Ronaldinho Gaúcho sorridente e o slogan “Arrisque Mais. Viva Mais”.
Bem, arriscar mais eu entendo. Beber Pepsi é realmente um risco à saúde, porém, viver mais não tem nada a ver com a ingestão deste produto. Este anúncio poderia ser traduzido da seguinte maneira: “Arrisque mais sua saúde em prol de um prazer momentâneo viciante. Viva menos tempo e de maneira mais superficial”, ou então, de maneira mais simplificada e típica de anúncios “Viva pouco pelo que é bom momentaneamente”.
E quanto ao Ronaldinho Gaúcho, aquele sorriso pode ser traduzido como o riso dos fabricantes de Pepsi que enriquecem à custa de consumidores desprovidos de senso crítico. Heróis da nação não deveriam se vender para anúncios de picolés artificiais cheios de corantes e conservantes, para anúncios da Nike, uma empresa que contrata mão de obra praticamente escrava e muito menos para anúncios da Pepsi, um refrigerante que entope de açúcar as veias e os cérebros dos consumidores, tão prejudicial à saúde quanto sua rival: Coca-cola, que por sua vez possui o slogan “Viva o que é bom” e disputa na justiça o direito de usar o slogan de um concorrente “Felicidade na garrafa”.
Texto retirado da Wikipédia na Internet:
“A Nike é criticada por explorar os trabalhadores em países como Indonésia e México. A companhia tem sido objeto de muitas críticas pelas condições de trabalho precárias e a exploração de mão-de-obra barata empregada em outros países sem legislação trabalhista adequada e com incentivos fiscais onde seus produtos são manufaturados. Fontes dessas críticas incluem o livro No Logo de Naomi Klein e os documentários de Michael Moore. Max Barry ironizou a reputação da companhia através de críticas em seu romance Jennifer Government, na qual um executivo da Nike imoral é o vilão da história”.
Será que viver é se arriscar ou se arriscar é viver?
Imagino que sim, a Pepsi tem razão, porém, viver verdadeiramente é se arriscar por coisas que realmente possuem valor, que acrescentam algo no espírito humano, que funcionam em longo prazo, que exibem o que há de melhor e mais no nobre no ser humano.
Se arriscar por sensações momentâneas que não significam mais do que um efeito de prazer volátil, como tomar uma Pepsi gelada, é exatamente o que o sistema quer que as pessoas engulam como objetivo humano ou como caminho para felicidade. Um caminho falso que leva ao buraco espiritual, ao vazio. Não existe felicidade enlatada ou engarrafada.
Será tão difícil assim fazer a correlação entre uma empresa que sabemos ser “malvada” como a Nike e nosso papel fomentador da “malvadeza” todas as vezes que compramos produtos da Nike ou exaltamos um jogador de futebol patrocinado pela Nike?
Será tão difícil fazer a correlação entre as denúncias de César Azambuja contra a Coca Cola no livro “Isso sim é real...” ou a exploração descabida de lençóis freáticos para transformar algo extremamente valioso como a água em um lixo assumidamente viciante, prejudicial à saúde e que comprovadamente possui folhas de coca na constituição? Ou ainda pra transformar água em refrigerantes, cervejas e porcarias que degradam a qualidade natural da água e fazem mal à saúde?
Os comerciais da Coca Cola são ótimos, muito bons mesmo, criativos e empolgantes. Isso só prova que bons publicitários e artistas vendem a alma para um produto prejudicial ao ambiente e às pessoas.
E quanto a Ayrton Senna, ele era um herói nacional?
Bem, foi este o rótulo que permaneceu, reforçado principalmente depois que morreu e foi martirizado. Mas, se eu me lembro bem, seu carro era decorado com inúmeros anunciantes, dentre eles, o que mais me marcou a memória foi um chamado “Marlboro”.
Espera aí! Marlboro não é marca de cigarro!? Aquele produto que possui mais de 4.700 substâncias tóxicas, cancerígeno e viciante?
Heróis nacionais desfilam comerciais de um produto que mata milhões de pessoas por ano no mundo?
Imagino quantos cabeças-ocas não foram parcialmente influenciados pelo logo da Marlboro se movendo a mais de 250 Km/h dirigido por Ayrton Senna, que quando eu era criança, idolatrava como uma verdadeiro herói, acompanhando até mesmo sua versão em quadrinhos infantis como Senninha.
Não estou questionando se as pessoas citadas não são ou foram capazes de atitudes nobres e altruístas, apenas afirmo que não podem ser classificados como verdadeiros heróis. Heróis de verdade não vendem sua imagem para produtos, serviços ou idéias que não aprovam ou desconhecem em plenitude.
Não faria um comercial da Coca Cola, da Marlboro, da Nike, do Governo ou da Daslu, apenas para citar alguns poucos exemplos, mesmo que me oferecessem bilhões de dólares, ou melhor, mesmo que me oferecessem todo dinheiro ou bens materiais do Planeta. Nem mesmo hipoteticamente em troca de super poderes ou poderes mágicos eu o faria. E olha que estou longe de ser um verdadeiro herói.
Manter a integridade e não vender idéias ou produtos os quais não aprovamos é essencial para que contribuamos dentro de nosso pequeno potencial para um mundo melhor, para que nos mantenhamos acima da lama e consigamos nos mover por si próprios, sem sermos arrastados pelo fluxo forte e intenso que segue para o esgoto.
Razões para Rejeição e Menosprezo de Desvios de Conduta
Vamos investigar agora porque a maioria das pessoas não liga para estes, digamos, desvios comportamentais de moral e conduta. Bem, as mesmas pessoas torcedoras são aquelas que me empurram para entrar no vagão do metrô, na escada rolante ou para conseguir um lugar melhor. O que elas não seriam capazes de fazer para vencer uma partida de futebol?
Eu joguei futebol algumas vezes, gosto do esporte em si e vivenciei por experiência própria alguns tipos de comportamento que passam despercebidos pela maioria das pessoas sem sensibilidade acurada. Mesmo em um jogo amistoso de domingo, entre colegas e amigos, sem que esteja valendo nenhum prêmio, sempre há aqueles que seguram a bola para ganhar tempo e o time poder voltar para defesa ou para garantir o resultado, aqueles que cavam faltas inexistentes, aqueles que jogam mais com o corpo, braços e mãos do que com os pés, aqueles que procuram jogar sozinho e não entenderam que o jogo é “multiplayer”, etc.
Quando se coloca em jogo o ego, reputação ou algum prêmio, as violências e desonestidades aumentam em proporção a estes, se intensificando de forma a gerar os conflitos entre jogadores, juízes, técnicos ou mesmo torcidas.
As pessoas jogam sujo para vencer uma partida, as pessoas jogam sujo para tentar vencer na vida, diga-se de passagem, um jogo “pouco” mais difícil, complexo e injusto.
Saindo do vagão do metrô em Santana eu escuto dois rapazes conversando: “Futebol não tem essa de amizade não, tem que jogar é pra ganhar”. Meses antes, na estação Vergueiro de metrô eu ouço um pai dando conselhos ao filho com cerca de sete ou oito anos de idade vestido com uniforme completo de jogador de futebol: “Quando o juiz não estiver olhando, mete a falta no adversário, empurra mesmo”.
Como a moral das pessoas não é das melhores e o nível de lama é similar, afinal, eles mesmos cometeriam as mesmas atitudes se estivessem no lugar de seus ídolos do futebol, não há problema algum em gritar gol, exaltar e idolatrar um jogador de futebol que está mais para bandido do que mocinho.
Série Compatriotas ou “contrapatriotas”?
Parte 1 - Introdução | Parte 2 - Heróis nacionais? | Parte 3 - Relações pessoais | Parte 4 - Pão e circo | Parte 5 - Mercado capitalista | Parte 6 - A Copa prostituta
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