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Henrique Mumme - Publicado em 01.07.2006




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Quanto patriotismo! Lojas no Brasil inteiro, do Oiapoque ao Chuí, investem nas cores verde-amarelo.

Torça pelo Brasil ou outros times na Copa, torça pela Coca Cola, pela Pepsi, pela Vivo, pela Nike, pela Nova Schin, pelo Banco Santander! Estas empresas também torcem, torcem as pessoas até a última gota de sangue e dignidade. Claro, a correlação não é fácil de fazer para a maioria das pessoas, afinal, a mídia tem ensinado pontos de vista muito mais interessantes e atrativos.

O que está sendo defendido em campo afinal? A superioridade de uma nação? Melhores salários? Mais oportunidades de estudo e emprego? Menos crimes?

O que está sendo defendido em campo é a imagem dos jogadores e demais participantes do show, como técnicos, patrocinadores, instituições e empresas que ganham agregando valor em seus produtos e idéias que são relacionados sem critério algum à Copa, à seleção brasileira e é claro, à vitória do Brasil.

Curiosamente as idéias e produtos que ganham com a Copa são os mesmos que nos afligem a curto e longo prazo, contribuindo para mais injustiças, problemas de saúde e no ambiente.

Estou exagerando, afinal, é só futebol!

Só futebol:

Um esporte transformado em show comercial que dá emprego para milhares de dirigentes de times e seleções, os quais movem e recebem quantias enormes de dinheiro, que chegam a bilhões de dólares por ano.

Dentre o rol imenso de empregos diretos e indiretos criados pelo futebol estão os técnicos, treinadores, massagistas, fisioterapeutas, nutricionistas, jogadores, árbitros, bandeirinhas, gandulas, fabricantes e vendedores de material esportivo e souvenires com emblemas dos times, fotógrafos, cinegrafistas, jornalistas, comentaristas, vendedores de ingressos, varredores de estádios, cambistas e, é claro, os falsificadores e piratas dos mais diversos produtos correlatos, como camisas esportivas e chaveiros. Além disso, há uma série de produtos que correlacionam o futebol em suas propagandas, como energéticos, pomadas antiinflamatórias, cervejas, refrigerantes, águas minerais, bancos, celulares, sofás, eletrodomésticos e até mesmo clubes esportivos ou de lazer.

Com o advento da Copa do Mundo de Futebol, as vendas de fogos de artifício e “materiais verde-amarelos” como fitas, bandanas, chapéus, pulseiras, bexigas, buzinas, cornetas, apitos, camisas, bonés, bandeiras, jogos de videogame, tintas e enfeites diversos feitos com plástico, papelão e isopor sobem em proporção astronômica. Seguem esta proporção o lucro de alguns bons vendedores, a quantidade de resíduos prejudiciais ao ambiente formados na fabricação destes materiais e a posterior formação de lixo depositado em grande parte de maneira indevida, e pior, não reciclado ou reutilizado de maneira apropriada.

Quando chego a um dos sebos de livros que costumo visitar com certa freqüência, o dono do lugar me informa que as vendas caíram cerca de 70% com a Copa do Mundo. Acredito que isto se deva em parte ao fato das ruas, galerias e shoppings ficarem praticamente desertos nos dias de jogo da seleção brasileira e também porque a Copa consegue desviar a atenção das pessoas de outras coisas, dentre elas, a leitura e, é claro, os males que afetam nosso país, como nosso governo não só corrupto como incompetente.

Na quarta feira almocei em um restaurante vegetariano que estava muito movimentado, ouvi a dona comentar que era ótimo que estivesse assim para compensar os prejuízos de quinta feira, o dia do jogo do Brasil.

Bandeira Brasileira

Não gosto e não me lembro de ter gostado de bandeiras, a não ser pela sua eventual beleza estética e, em alguns casos, até pelo valor artístico. A única bandeira que usaria seria uma que representasse todos os seres vivos, os ambientes naturais, suas importâncias e inter-relações.

Quais os significados das cores verde, amarelo e azul que enfeitam as pessoas e recintos? Elas representam nosso país? Há algum motivo que justifique a exaltação destas cores? O nosso país vem preservando e usando com sabedoria estas cores? Não seria o preto representando luto e o nariz de palhaço mais apropriado para ocasião?

O real e principal significado ou propósito destas cores é o potencial mercadológico embutido, além de retro-alimentar o tóxico gregário ou hipnose coletiva.

A maioria das bandeiras brasileiras que adornam a paisagem é fixada apenas em uma das extremidades, de forma que o vento e a chuva acabam enrolando-as e tornando-as, ironicamente, mais representativas da nossa pátria. Além disso, a poluição atmosférica logo as torna encardidas, auxiliando ainda mais no propósito de tornar o símbolo mais apropriado as condições reais do país: um país enrolado, amassado e encardido, onde o verde das matas já foi borrado, o azul do céu manchado por nuvens escuras de poluição, a maioria das estrelas não são visíveis e o ouro amarelo foi borrifado com sangue e destinado para propósitos imorais.

“Desordem e Progresso Suicida” são os verdadeiros dizeres no centro de nossa bandeira. Nossos Estados nem de longe brilham como estrelas ou merecem tal simbologia. Nossas riquezas são extraídas da natureza como se um aspirador poderoso sugasse o sangue de nossas veias. E pior, ao invés de serem disponibilizadas para a nação, são exportadas, de forma que ficamos apenas com os subprodutos, como por exemplo, no caso de metais, de pedras preciosas e demais minerais, do cacau, da soja, do figo e de outras frutas. Somente os ricos podem importar de volta os produtos de qualidade que mandamos embora em nome do progresso econômico e usufruir dos frutos de nossa própria terra.

Não me apego ao significado original das cores da bandeira, pois dizer que estas cores são oriundas das famílias reais descendentes de Dom Pedro I ou outros imperadores e reis quaisquer significa apenas que já naquela época o ser humano gostava de marcar o território como um cachorro urina em um poste, um pichador imprime sua marca nos muros do bairro ou o Itaú coloca o novo e imenso banner na Avenida Paulista.

Da mesma forma que uma bandeira enrolada, amassada e encardida representa de forma mais fiel nossa nação, um time brasileiro de futebol derrotado e humilhado também o faz. Claro, não precisaria ser assim se o esporte não assumisse as proporções e dimensões astronômicas que assume, com potencial espantoso de inferir na vida das pessoas, de forma muito mais negativa do que positiva.

Hino Nacional

Lembro-me de quando estava na pré-escola e a professora nos fazia sentar de pernas cruzadas sob uma linha desenhada com uma fita amarela no chão do fundo da classe e que formava algo similar a um losango.

Sentados na linha aprendíamos canções ou ouvíamos estórias infantis. Frequentemente sentávamos na linha para aprender trechos do hino nacional. Ouvíamos e líamos repetidamente até memorizarmos no cérebro.

Logo nas primeiras séries iniciou-se um ritual. Toda quinta feira, antes das aulas se iniciarem, todos os alunos do colégio eram enfileirados por ordem de tamanho e separados por classe, em um pátio aberto defronte à secretaria. O espaçamento entre um aluno era rigorosamente medido com um braço e ambos os braços deveriam ficar retos e rentes ao corpo. Imagino que parte da disciplina que incorporei em meu caráter advenha destes “rituais patrióticos semimilitares”.

A vitrola (quando me iniciaram no ritual ainda não existiam CD players) começava então a emitir o som do hino nacional enquanto um aluno que era especialmente escolhido hasteava a bandeira brasileira. O desafio era terminar de hasteá-la exatamente quando o hino terminasse. O aluno que não conseguia tal proeza de coordenação frequentemente era gozado pelos colegas.

Aos poucos quase todos pegavam firmeza com a canção e logo estavam cantando de peito aberto, sem medo de errar.

Sempre havia aqueles que distorciam a letra do hino trocando as palavras que não faziam muito sentido para nós por palavras engraçadas, de forma que completávamos as rimas junto com gargalhadas.

Houve uma ocasião em que até mesmo um professor de capoeira ficou fazendo palhaçadas enquanto o hino tocava. Estava ao alcance dos olhos de alguns alunos, incluindo eu mesmo, porém, escondido da visão da alta hierarquia do colégio localizada no andar superior da diretoria.

Os alunos não se agüentavam e riam em intervalos entrecortados pela letra do hino. Os professores e diretores não entendiam qual era a causa do riso e ficaram seriamente abalados com expressões de reprovação, preocupados em resolver o mistério assim que a música cessasse. Lembro-me que o professor mais tarde foi reprimido pela sua atitude fora do convencional e “desrespeitosa”, mas que teve muito mais significado prático real do que nossa cantoria coletiva e disciplinada do hino nacional. Aquele riso em conjunto nos unia de forma humana, o hino nos unia de forma mecânica.

Os anos foram passando, mudei de colégio, e o ritual ficou menos freqüente e sofreu algumas pequenas variações, no entanto, a essência era a mesma.

Nunca ninguém nos ensinou a interpretar o que estávamos cantando, o porquê de realizarmos tal tipo de comportamento ou o significado prático daquela letra na sociedade do passado, da atualidade ou do futuro.

Apenas diziam que era importante para a pátria, que estávamos honrando nosso país e nossa condição de brasileiro.

Mais e mais fui percebendo o vazio e a hipocrisia daquele ritual e a coisa me incomodou a tal ponto que cheguei a parar de cantar o hino nacional. Já faz anos que não o canto, pois infelizmente não vejo propósito ou significado na canção. Afinal, não estamos cantando um país que “foi, é ou será” e sim um país que “poderia ser”.

Não há muito para se orgulhar de nosso país quando olhamos o passado, o presente ou as prospecções aterradoras de futuro. Os únicos fatores que me motivam a celebrar nosso país são a exuberância natural e certos aspectos artísticos e culturais, porém, ambos estão devastados e desgastados devido a uma força atroz chamada de progresso ou desenvolvimento.

Pouquíssimos sabem cantar o hino nacional. A maioria dos que sabem cantá-lo não o sabem interpretá-lo, tanto no sentido literal como também seu significado na atualidade ou influência prática na sociedade. Porque cantamos o hino? Para que serve? Quem estamos defendendo e exaltando? Quais os resultados advindos de se cantar este hino?

O hino é apenas mais uma das máscaras que usamos para encobrir a realidade, apenas mais uma das ferramentas de manipulação e controle de nossa máquina social hipócrita. Cantamos a democracia, quando o verdadeiro regime chama-se hipocrisia.

Brasil, apenas mais um dos países medíocres do globo terrestre com potencial absurdamente incrível sendo queimado de maneira mais grave e chocante do que a queima do papel chamado dinheiro que os humanos tanto prezam.

Série Compatriotas ou “contrapatriotas”?
Parte 1 - Introdução | Parte 2 - Heróis nacionais? | Parte 3 - Relações pessoais | Parte 4 - Pão e circo | Parte 5 - Mercado capitalista | Parte 6 - A Copa prostituta

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