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Compatriotas ou “contrapatriotas”? - Pão e circo
Henrique Mumme - Publicado em 30.06.2006
Futebol. Paixão nacional? Não. Ilusão nacional. Ilusão que se alastra pelo mundo na época de Copa dando-lhe caráter mundial.
Há pães que alimentam e circos que instruem. Claro que o sistema, através dos governos, instituições e empresas, fomenta e distribui apenas pães e circos de qualidade paupérrima que atuam como ferramenta de manipulação e controle. A distribuição é feita em eventos e principalmente pela mídia. O futebol, da maneira que se apresenta, é apenas mais um pão sem nutrientes que apenas engorda e um circo sem graça que distorce o humor e pouco ou nada acrescenta de útil à humanidade.
Recomendo procurarmos “alimentos” mais nutritivos, com menos efeitos colaterais adversos à saúde física/mental e circos que entretenham ao mesmo tempo em que transmitam mensagens importantes que refletem em uma vida mais funcional, justa e harmoniosa.
O preço a pagar por este “circo” é muito mais caro que a assinatura de TV digital, uma viagem para Alemanha ou mesmo o ingresso para o camarote dos estádios.
Será correto aproveitar-se do pão e do circo mesmo sabendo-se quais são seus verdadeiros propósitos, suas razões de ser e existir?
O futebol, assim como outros assuntos supérfluos, une as pessoas de forma ineficiente, como se fosse um cimento de qualidade inferior. Qualquer abalo faz com que os tijolos desmoronem. Qualquer abalo faz com que os “amigos” unidos pelo futebol, pelas novelas, pelos reality shows, pelas piadas homossexuais, pelo clima ou por outro assunto supérfluo se tornem ferrenhos inimigos.
O sentimento de solidariedade e “camaradismo” coletivo que deveria ser constante inunda a sociedade brasileira durante os jogos da seleção como se todos tivessem combinado de interpretar uma peça teatral de poucas horas de duração.
Dizer que há profundidade no futebol, que nele pode-se aprender sobre união e discutir-se temas polêmicos e importantes como racismo é uma meia verdade.
Primeiro que estes temas são abordados de forma extremamente limitada e rasa (talvez mais um motivo do porque o povo amar tanto futebol: é raso e fácil de enxergar o fundo, tão fácil de entender como uma estória para crianças – e mesmo assim, nem estas muitos entendem).
Segundo que estes temas não são priorizados, colocados em destaque ou muito menos assimilados pelos apreciadores deste show. Racistas, fanáticos, alcoólatras, assassinos, estupradores, individualistas, corruptos, etc. todos estes tipos adoram futebol.
O Relógio Biológico e o Futebol
Se somos dispensados do trabalho ou dos estudos exclusivamente devido ao importantíssimo motivo de acompanhar o jogo do time brasileiro na Copa, é óbvio que neste tempo cedido disponível procuramos concluir sem questionar o objetivo de nossa dispensa. Pouquíssimos são os que dedicam este tempo à outras atividades.
O número de conversas dedicadas ao tema futebol, que já é extremamente alto no Brasil, sobe para margens estarrecedoras na época de Copa, de forma que se torna impossível acordar, viver o dia e ir dormir sem ouvir uma palavra sobre o “show-esporte”.
A mídia bombardeia com suas diferentes armas (internet, jornais, revistas, banners, placas, rádio e televisão) gastando uma munição de fazer inveja às metralhadoras de John Rambo. Como exemplo, já faz um bom tempo que todas as manchetes do portal principal do Yahoo são relativas à Copa.
O tempo dedicado a estas conversas é outro fator importante, tanto as conversas nas ruas, elevadores, corredores, escritórios, bares, restaurantes e lares quanto os programas e reportagens dedicadas à temática se tornam ainda mais extensos. Não deixa de me impressionar o quanto uma discussão em torno de algo que deveria ser tão insignificante se prolonga por tanto tempo e é tratado com extrema seriedade, com pessoas de todos os cantos estudando, analisando e opinando sobre um lance qualquer de uma partida ou sobre a “novela do futebol”, que trata desde relacionamentos amorosos, moda, peso e dieta dos jogadores até acidentes com veículos e opções religiosas dos envolvidos.
O tempo valioso e extremamente extenso que é gasto com conversas sobre o mundo do futebol que não levam a melhoria alguma social é espantoso. Em todo lugar é o assunto em voga, não só em época de Copa no caso do Brasil e imagino que no caso de alguns outros países também.
Vamos pensar um pouco mais em termos de quantidade de tempo. Logicamente, o tempo dedicado ao futebol: aos jogos, aos preparativos, aos informes, as notícias nos jornais, TVs e rádios, ao álbum de figurinhas, ao bolão, à compra de “badulaques patrióticos”, as conversas com os amigos e conhecidos, etc, com toda certeza não pode ser reutilizado para coisas mais importantes, como discussões filosóficas, meditação, atividades esportivas benéficas à saúde, interação harmoniosa com a natureza e com as pessoas, tocar um instrumento, compor uma música, cultivar a terra com sabedoria, estudar a natureza, reflexões pessoais, realização de atos de solidariedade não paliativa, reclamações e lutas por melhorias, realização ou apreciação de obras artísticas que acrescentam algo ao caráter dos que estão aptos para tal, como através de leituras, visualização de documentários, programas educativos, filmes e seriados que possuam conteúdo aproveitável, etc.
Muito mais afinco e esforço são dedicados a solucionar as questões do futebol do que para quaisquer outras questões políticas ou econômicas, principalmente por parte da população que, quando o assunto é futebol, é extremamente interessada, colaborativa e participativa.
Imagino que na vida de um brasileiro comum, a média de tempo gasto com futebol é maior do que o tempo gasto com qualquer outro tema, tendo como principais concorrentes o carnaval, o sexo desprovido de sentimentos, os reality shows e as novelas.
Ironicamente, uma boa parte do tempo que dediquei à este texto foi utilizada nos dias do primeiro e terceiro jogo do Brasil na Copa.
Futebologia
Entendo que no futebol o brasileiro encontre uma das poucas coisas que pode acompanhar e se tornar um entendido. Há verdadeiros doutores em “futebologia”, que apesar de muitas vezes não praticarem o esporte em si, entendem tudo sobre jogadores, técnicos, diretoria de times, valores de passes, regras, falcatruas, estádios, aspectos técnicos das vestimentas e acessórios, como as próprias chuteiras e tipos de bolas, etc.
Um jogo pode ser acompanhado do início ao fim e o espectador pode tirar suas próprias conclusões, apenas limitado pelos ângulos de câmera que transmitem a partida ou pela limitação visual do lugar ocupado no estádio.
Uma ação política infelizmente não exibe as mesmas vantagens e facilidades. A luta por telefones públicos que funcionem, pelo transporte público não degradante, por condições mínimas de saúde, educação e saneamento básico, os direitos de não ser sacaneado por burocracias envolvendo obtenção ou renovação de documentos, etc.
Para tudo isso não conseguimos ver o começo, meio e fim, não podemos concluir por si próprios quem é o vencedor, quantas faltas ocorreram e muito menos quais foram os jogadores expulsos e o saldo de gols.
Isto explica em parte o porquê do futebol unir tantas pessoas: é relativamente simples, crianças, mulheres e homens podem participar mais ou menos de igual para igual, não se exige intelecto e nem muito esforço cerebral, os acompanhantes “perfeitos” são churrasco e cerveja, ou seja, é uma “maravilha”! Portanto, as pessoas se dedicam de corpo e alma para aproveitarem um prazer momentâneo sem significado prático importante para vida deles no sentido de se criar um mundo mais justo, igualitário e livre.
Vejamos o jogo, reunamos os amigos e familiares, bebamos, mastiguemos a carne, gritemos gol, pulemos, xinguemos as injustiças do jogo e os maus entendimentos do juiz e dos bandeirinhas e comemoremos a vitória. E depois?
Depois voltemos a nossa vida medíocre cheia de corrupção, de maridos que batem nas esposas e nos filhos, de estupros e assassinatos, de guerras urbanas, de bancos que vendem seguros com cláusulas sacanas, de multas injustificadas, de burocracia estúpida, de concursos e seleções fraudados, de nepotismo, de cidades imundas, de ruas e calçadas esburacadas, de mecânicos enganadores, de muros pichados, de mensalões, de ignorâncias, de falta de oportunidades, de ambientes naturais devastados, de hipocrisia, de radicalismo, de preconceitos, de idolatria a falsos deuses, de racismo, de falta de educação, civilidade, bom senso, companheirismo e solidariedade. Voltemos a ocupar nosso papel de engrenagem na máquina de desenvolvimento suicida, seja fabricando, consumindo ou sendo excluído e tornando-se um pária, um dos “males sociais”.
Copa do Mundo da Ilusão
As ilusões da Copa do Mundo se traduzem também através dos locais onde são sediados tais eventos: sempre países ricos, povos belos e bem nutridos, grandes construções dignas de cartões postais, enfim, um cenário nada representativo da situação humana na maior parte do Planeta. Gostaria sinceramente que as Copas e também Jogos Olímpicos fossem sediados em países ou localidades miseráveis e que a mídia exibisse um pouco da realidade arrebatadora de forma fiel e não manipulável ou distorcida.
Outro fator interessante a notar é o fato da rede Globo de televisão ter praticamente monopolizado a transmissão dos jogos na TV aberta brasileira. A Globo é a atual dona da Copa e ninguém tira o “doce” da mão dela. Então, para maioria das pessoas assistirem os jogos, obrigatoriamente elas têm de dar audiência à Globo e ser bombardeada com as propagandas de idéias e produtos que a Globo decidiu divulgar.
Trombetas do Apocalipse
Cornetas e buzinas soam com freqüência irritante. Cada vez que presencio alguém assoprar uma corneta ou tocar uma buzina vejo que a reação logo após é sempre a mesma: risos e gargalhadas! Seria esta a tão almejada felicidade? Ou seria uma falsa felicidade, uma gargalhada desprovida de sentido fundamentada em areia movediça, em ilusão, em futebol? Uma “felicidade na corneta” ao invés de na garrafa?
Cornetas e buzinas não me irritam se elas carregam consigo um sentido importante, como de alerta ou de comemoração realmente justificada, porém, o que mais presenciamos são buzinas motivadas por um interesse pessoal e banal qualquer, como descarregar a tensão e o estresse ou chamar atenção para si próprio apenas para que os outros o notem: “Olhe, estou aqui, tenho uma buzina! Também estou participando! Sou brasileiro! Quero que o Brasil ganhe o jogo!”.
O som destas cornetas e buzinas anuncia a vinda de uma nova era, um mundo melhor e mais justo, que se concretizará com a vitória da seleção brasileira na Copa ou está mais para o anúncio das trombetas do Apocalipse?
Celebremos a ignorância que nos aprisiona e as ações que cometemos que mais tarde retornam para nos afligir, momento este no qual reclamamos da vida injusta, de nosso azar, de onde está Deus! Bem, Deus está na nossa cara, ele é ação e reação sob leis visíveis e invisíveis, conhecidas e não conhecidas, portanto, não reclamemos de nossos tormentos, somos os únicos responsáveis por eles.
Tenho certeza de que quando o Apocalipse (colapso ambiental ou/e guerra) adentrar de forma devastadora as portas e janelas dos lares e penetrar no aposento, boa parte da humanidade estará sentada defronte à TV se exaltando com uma partida de futebol ou se iludindo com uma novela, com o carnaval ou um reality show qualquer.
O ser humano faz coisas para se sentir mais vivo que ironicamente o aproxima mais da morte espiritual.
Futebol e Religiosidade
Se a forma como é concebida a Copa do Mundo e outros campeonatos de futebol ou mesmo outros esportes nos afasta da religiosidade, seja própria ou embutida por lavagem cerebral, seria de se esperar que padres, pastores e líderes religiosos quaisquer fizessem críticas ao comportamento equivocado das pessoas em relação aos esportes, em especial ao futebol. Porém, encontramos religiosos orando para que o Brasil faça gols e seja vitorioso, fazendo votos de apoio à seleção durante sermões e missas, enfeitando capelas, igrejas e templos com bandeirinhas e, no caso da Igreja próxima à minha casa, até mesmo fazem badalar o sino com entusiasmo quando o Brasil faz gols ou é vencedor.
Se apegar à uma religião pré-existente em minha visão pessoal é quase como escolher um time de futebol pra torcer. Talvez seja por esta razão que ambos se apóiem tanto. Religiões rivais dando as mãos em prol de um benefício mútuo!
Claro, apoiar o entusiasmo fervoroso da Copa ou do futebol propriamente dito é uma prática vantajosa de apelo populista que consegue agregar carisma e admiração aos que defendem e usam de artifícios futebolísticos. Já no meu caso, que é criticar o futebol como entorpecente, acabo agregando ódio e incompreensão por parte da maioria, sendo alvo de ofensas e críticas negativas. Ainda bem que não estou buscando votos para me eleger.
Sou a favor das pessoas ingerirem menos soma, de deixarem de se dopar e anestesiar. E futebol hoje é uma anestesia. Não enxerga quem não quer, quem vive anestesiado ou quem prefere ignorar porque acha vantajoso estar anestesiado ou viver em meio à um bando de dopados.
Série Compatriotas ou “contrapatriotas”?
Parte 1 - Introdução | Parte 2 - Heróis nacionais? | Parte 3 - Relações pessoais | Parte 4 - Pão e circo | Parte 5 - Mercado capitalista | Parte 6 - A Copa prostituta
Leia também:
• História das Copas do Mundo de futebol da Fifa
• Estatísticas e curiosidades da Copa do Mundo
• Grupos, resultados e classificação das seleções da Copa do Mundo de 2006
• Tabela da Copa do Mundo de 2006
• Equipes da Copa do Mundo de 2006
Especial Copa do Mundo da Alemanha 2006
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