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Henrique Mumme - Publicado em 29.06.2006




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Se você diz a alguém que não irá assistir aos jogos da Copa e nem mesmo torcer pelo Brasil, as pessoas reagem como se você fosse um extraterrestre. No meu caso em particular, é só mais um dos fatores que caracterizam meu estado de ser “alienígena”, já que não como carne sem ser de peixe ou camarão, não bebo refrigerantes, não bebo álcool e sou contra pornografia, apenas para citar alguns exemplos. Algumas pessoas correlacionam estas características ao homossexualismo. Elas devem saber de coisas que ainda desconheço, provavelmente a masculinidade só pode ser mantida e exercida através de dosagens freqüentes de futebol, churrasco, cerveja e pornografia. Logo meu reservatório de masculinidade se esgotará e eu me apaixonarei por outros homens.

Tenho plena certeza de que se fosse feita uma pesquisa de rua onde a pergunta ao entrevistado fosse: “Você acha que o brasileiro que não torce pelo Brasil na Copa tem algum problema?”, as respostas na maioria das vezes seriam positivas: “Sim, ele tem algum problema”.

Eu me pergunto: “Quem é que possui problema na realidade?”.

Táxi Patriótico

Certa vez iniciei uma conversa com um taxista que fugia do convencional. Primeiramente discutimos sobre política e ambos manifestamos nosso repúdio a diversas facetas dos governantes. Até aí nada de extraordinário, muitos são os revoltosos contra o governo e a política, porém, emendando o assunto ele disse: “O pior é que agora com a Copa do Mundo todo mundo esquece tudo. O brasileiro vive se anestesiando com futebol, samba e cachaça”.

Eu não podia concordar mais e disse-lhe que ainda adolescente deixei de torcer por qualquer time ao perceber as reais motivações dos jogadores e gradualmente perdi o interesse pelo futebol, me tornando na verdade um crítico do mesmo. O taxista então me confessou: “Quer saber? Se o Brasil perder os jogos desta Copa eu vou é dar risada!” Concordei plenamente e disse-lhe que faria o mesmo, brinquei dizendo que falássemos baixo, pois se nos escutassem provavelmente seríamos linchados.

Continuei a conversa expressando minha surpresa devido ao fato de quão raro não era encontrar pessoas que pensassem como ele e eu. Fiquei notadamente feliz pelo ponto de vista que presenciei, pois é bom se encontrar parcialmente em outras pessoas de vez em quando, assim como acontece quando leio obras de Aldous Huxley, George Orwell ou Ray Bradbury. Ajuda-me a reafirmar minha lucidez e afastar a possibilidade que passa algumas vezes em minha cabeça de que estou me aprofundando em loucuras.

O taxista me disse então que às vezes pensava não ser uma pessoa normal devido a sua visão sobre política e futebol. Respondi que se ele era anormal, eu também o era. Acredito que conceitos de normal e anormal são relativos, porém, a despeito de achar que somos normais, sei que somos a minoria.

Engraçado notar que no mundo distorcido atual, os verdadeiros patriotas não somente não se interessam pela Copa do Mundo de futebol, como a criticam duramente.

Amigos e Familiares

As pessoas que amo e estimo, amigos e familiares, são praticamente todos entorpecidos pelo futebol em diferentes dosagens.

Vejo meu irmão cada vez menos. Ele chega tarde e já estou dormindo. Eu acordo cedo e ele ainda está dormindo. Nas manhãs de sábado e domingo temos uma das raras oportunidades de interagir.

Em um sábado eu o vejo acordar, pois estava sentado em minha cama escrevendo. Ele nem ao menos olha em minha direção, está preocupado com o horário no relógio não sei por que razão. Arrisco um bom dia. Ele responde com a típica voz rouca e arrastada de quem acabou de acordar enquanto se vira de costas para voltar a dormir.

Eu saio do quarto e vou terminar de ler o livro “A Pele Fria” na sala. Assim que acabo vou pra cozinha tomar café da manhã. De repente ouço sons exaltados e enérgicos que não consigo distinguir de onde vêm. Parece que alguma televisão está ligada e alguém se entusiasma defronte a ela gritando “Gol! Ahh! Quase!”, repetindo depois de períodos curtos a mesma expressão ou uma variação qualquer.

Mais tarde percebi que se tratava de meu irmão, ele havia acordado, não havia se comunicado comigo, e agora se encontrava sentado no sofá assistindo na TV um jogo de futebol da Copa do Mundo entre Inglaterra e sei lá que time, parecendo tão envolvido com o jogo que se exaltava gritando e falando sozinho. Sua energia ao assistir o jogo contrastava com a energia despendida no “bom dia”. A estas alturas percebi o porquê dele estranhamente estar preocupado com o horário em uma manhã de sábado.

Fiquei chateado tanto por ele não ter vindo conversar comigo como pelo seu comportamento defronte à TV, considerado por mim, de certa forma, como primitivo.

Fico pensando quão longe do caminho mais adequado não estão os que se deixam iludir pelas sensações sem significado profundo de uma partida de futebol. Não que eu saiba ao certo qual é este caminho e seja um exemplo de místico espiritualmente avançado, também possuo comportamentos primitivos, porém, prefiro acreditar que ao enxergar aos poucos os desvios comportamentais que nos retornam infelicidades, angústias, dúvidas e vazios existenciais, estou trilhando um longo e gradual caminho em busca da liberdade e, mais ainda, em busca do encontro com a névoa do desconhecido, ou Deus.

Engraçado que de vez em quando meu irmão chega próximo de mim e me dá um abraço apertado como se existisse um contato íntimo que justificasse tal atitude. Ainda gosto e admiro muito meu irmão, mas infelizmente esta intimidade não existe mais da mesma forma entre nós, vem se desintegrando com o tempo por culpa de limitações de ambos. Acredito que forçar o seu retorno antinatural através de abraços que causam estranheza não seja a metodologia mais adequada.

Em casa já experimentei discussões calorosas (eu não sou nenhum monge espiritualmente elevado e acabo me exaltando mais do que devia em diversas ocasiões) devido a pequenos conflitos entre minhas crenças e atitudes rotineiras, como minha mãe me pedir para comprar mortadela, cigarros e coca cola, ou ainda, meu irmão me pedir para comprar figurinhas da Copa para ele.

Recuso-me expressamente alegando que vai contra meus princípios, o que fica difícil deles entenderem já que em outros quesitos meus princípios ainda falham em proporções semelhantes, como meu próprio irmão faz questão de me lembrar: “Olha pra você, está de moletom com emblema do Charlotte Hornets e usa uma mochila da Mizuno”.

Possuo o moletom citado há mais de dez anos e o uso como pijama. Infelizmente ainda não tenho possibilidades de confeccionar minha própria roupa e mochila a exemplo de Gandhi e, nessa longa empreitada da vida, é possível que eu não alcance tal estágio. Acredito que mudanças devem ser graduais. Parece-me lógico que no meio do caminho podem ser constatadas certas contrariedades em pessoas que buscam mudar de forma gradual, conforme as possibilidades para tal se apresentam.

Jogos do Brasil e Eu

No dia do primeiro jogo do Brasil fiquei além da dispensa no escritório e resolvi sair exatamente no meio do jogo, para aproveitar as ruas e o metrô vazios. Pensei também em aproveitar para pegar uma sessão de cinema vazia, mas a maioria das salas interrompeu as exibições no horário do jogo. O vazio das ruas combina com o vazio de significados valorosos da Copa.

Já o segundo jogo resolvi assistir ao lado de meu irmão, um amigo e da minha namorada, enquanto minha mãe fazia o almoço. Estava torcendo para que o Brasil não só perdesse, mas fosse humilhado, para que um verdadeiro balde de água fria fosse jogado nas pessoas e quem sabe assim elas decidissem dedicar-se a atividades mais louváveis e úteis.

Claro, na prática há certa controvérsia neste modo de pensar, pois, imagino que as pessoas ainda consigam dedicar o tempo que antes era dedicado à Copa e ao futebol para coisas ainda mais insossas, desprovidas de significados importantes para evolução social e, ainda por cima, mais prejudiciais. Mas não acredito que erros justifiquem outros erros, portanto, defender que o tempo perdido com a Copa é melhor do que o perdido com tráfico e consumo de drogas, assaltos, pornografia, novelas, programas sensacionalistas, entre outros, não é de maneira alguma válido. O único ponto válido é defender que o tempo seja gasto de maneira mais sábia e útil ao desenvolvimento humano do que com superficialidades onde se enquadram o assistir futebol junto com inúmeras outras atividades infrutíferas.

Gostaria mesmo é que todos os times fossem derrotados logo de cara, quem sabe assim o véu cairia e as pessoas aos poucos perceberiam que tudo não passou de uma festa imaginária. Como me importo com meu país, gostaria especialmente que o Brasil perdesse e os brasileiros dedicassem mais tempo e esforço à realidade, tanto para os males como para os motivos reais para festas e comemorações.

Quando assisti ao segundo jogo do Brasil na Copa, onde este enfrentou a Austrália, fui percebendo como é forte o efeito deste jogo no espectador. Aos poucos fui tendo vontade de comentar os lances, me revoltar com certas jogadas e mesmo soltar expressões com ardor, como: “vai”, “ufa”, “nossa”, “ahh” e algumas outras mais. No caso estava torcendo para que o Brasil fosse derrotado, no entanto, o poder de me envolver na partida foi enorme.

Minha namorada e meu irmão ficaram levemente bravos comigo por estar torcendo contra o Brasil. A filosofia da minha namorada é outro aspecto interessante. Ela me disse que sempre torce pelo time que estiver jogando melhor, pois sabemos que nem sempre o time que joga melhor é o vencedor devido a golpes de sorte ou ao acaso.

Respondi à ela que este tipo de visão é melhor do que torcer cegamente pelo Brasil, mas que estava também limitada ao jogo em si e que a Copa do Mundo e seu efeito extrapolava os limites do campo. Continuamos vendo o jogo e enquanto isso ela ficou procurando quais eram os jogadores mais bonitos da partida, inclusive com auxílio do álbum de figurinhas do meu irmão, comentando se aquele jogador era bonito, bonitinho, “mais ou menos” ou feio. Já havia testemunhado este tipo de comportamento por parte de outras mulheres, mas admito que por parte da minha namorada me surpreendeu, mesmo que fosse simplesmente uma brincadeira inofensiva.

Figurinhas da Copa

Outro dia estava passando em frente a uma banca de revistas e observei um garotinho de aproximadamente 10 anos de idade perguntar ao dono da banca se havia figurinhas da copa:

- Hei moço! Tem figurinha da Copa?

O dono da banca respondeu:

- Não.

Achei muito estranho não ter figurinhas da Copa em época tão propícia! Continuei andando e passei defronte a outra banca. Um senhor de aproximadamente 50 anos, de cabelos brancos, se aproximou e fez exatamente a mesma pergunta e, por incrível que pareça, o dono da banca também respondeu não possuir as figurinhas. Logo percebi que a demanda destas figurinhas por parte de pessoas de todas as raças, credos e idades devia ser tanta que os estoques de figurinhas das bancas haviam se esgotado momentaneamente.

Ao chegar em casa neste dia, meu irmão me exibe contente sua nova aquisição: um álbum de figurinhas da Copa! Minha única reação foi dizer “Até você!”.

O álbum de figurinhas da Copa é uma publicação muito bem feita, com a competência tradicional da Panini, que virou moda ou mania mundial. Os fanáticos por Copa adoram colecionar as figurinhas, decorar os números das camisas e feições de cada jogador de todas as seleções, saber quando e onde serão os jogos, quantos cabem no estádio “x”, quantas vezes tal time foi campeão ou já enfrentou o Brasil, resultados passados, etc.

Dessa forma, estando atualizado e bem informado, o espectador da Copa sente-se apto a fazer comentários “inteligentes” em momentos apropriados dos jogos, identificando rapidamente quem fez a falta no time da Holanda ou quem é o árbitro da partida. Saber detalhes desta natureza acrescenta muito no “status futebolístico”.

Efeito Bolão

Meu irmão foi um dos realizadores do bolão da Volkswagen onde podemos palpitar resultados no site virtual e concorrer a prêmios. Entrei no site e achei-o muito bem feito, fiquei orgulhoso a priori do trabalho em que meu irmão possuía mérito parcial e, pensando unicamente na possibilidade de prêmios sem ter de pagar para participar e em divulgar o trabalho do meu irmão, acabei repassando o link para várias pessoas na minha lista de e-mails. Antes de enviar ainda senti certo aperto no peito, mas achei ser bobagem e prossegui. Geralmente sinto este aperto quando tenho de tomar coragem e enviar uma opinião polêmica pela qual provavelmente serei rechaçado, mal interpretado e condenado por muitos (como o próprio texto que aqui se apresenta), mas no caso em questão foi um aperto devido à contrariedade de minha atitude frente às minhas próprias crenças.

Procuro seguir o código de honra samurai, também conhecido como bushidô, de forma que vivo cada dia como se fosse o último, sem medo do futuro, sendo fiel às minhas crenças e impressões, sendo sincero com o mundo exterior. “Cada pessoa trilha seu próprio caminho, já que existem vários caminhos, como o caminho da cura pelo médico, o caminho da literatura pelo poeta ou escritor, e muitas outras artes e habilidades. Cada pessoa pratica de acordo com a sua inclinação. Por isso pode-se chamar de guerreiro aquele que segue seu caminho específico”. “O guerreiro vive o presente sem se preocupar com o amanhã, de modo que quando contempla o rosto das pessoas, sente como se nunca mais fosse vê-los novamente e, portanto, seu dever e consideração às pessoas, serão profundamente sinceros”.

Obs.: Texto entre aspas à http://www.bushido-online.com.br/bushido.htm.

Mais tarde recobrei meus sentidos e pude visualizar na prática o efeito de um bolão da Copa. Ele potencializa a atratividade do evento como que colocando fogo na palha, sendo que eu mesmo fui um dos disseminadores deste fogo. Ele coloca sal na Copa, tornando-a mais apetitosa, realçando seu sabor.

Muitos estão acostumados a perder dinheiro de forma homeopática em bolões para loteria federal. O bolão da Copa é apenas mais uma modalidade de jogo divertido que extrai o dinheiro principalmente dos que já não possuem muito. Juntam-se características típicas humanas: o vício por jogos e a competitividade. O resultado é o bolão como fomentador da temática. Todos querem saber resultados e conferir a classificação.

Série Compatriotas ou “contrapatriotas”?
Parte 1 - Introdução | Parte 2 - Heróis nacionais? | Parte 3 - Relações pessoais | Parte 4 - Pão e circo | Parte 5 - Mercado capitalista | Parte 6 - A Copa prostituta

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