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Algo de podre no reino da Dinamarca? Ou no senso de humor islâmico?
Joe Rocha Rangel - Publicado em 17.02.2006

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De como a publicação de umas ilustrações debochadas do Profeta Maomé sacudiu as relações entre o Islã e o Ocidente, e aprofundou o divisor de águas entre as duas culturas.
A Anatomia de Uma Crise
Tudo começou em tom frugal e inócuo. Um jornal dinamarquês decidiu testar a susceptibilidade muçulmana e marcar pontos banais no quesito ‘liberdade de expressão’.
Consciente de que a fé islamita proíbe a representação icônica do profeta Maomé, um editor do “Jullands-Posten” convocou os cartunistas do país a submeterem charges ironizando a inflexibilidade canônica dos maometanos e satirizando seu profeta. Uma dúzia de desenhistas prontificou-se a cumprir a tarefa. Uma vez publicadas, as caricaturas deflagraram a mais do que prevista ira dos ofendidos, e a tentativa por parte de clérigos islamitas residentes na Dinamarca de censurarem a crítica jocosa. Jornais da Noruega, e mais tarde de outros países europeus, reeditaram os desenhos, num ato de solidariedade à sacrossanta liberdade de imprensa, uma fortaleza inexpugnável da democracia ocidental.
O incidente, até esse ponto, limitava-se à altercação de natureza verbal. Líderes de comunidades muçulmanas estabelecidas na Europa argumentavam que a liberdade de expressão não deveria servir de pretexto para a ridicularização da fé alheia; apologistas das caricaturas justificavam que ofender era uma prerrogativa das sociedades abertas.
Indiferente à tempestade que aos poucos ia ganhando consistência ao seu redor, o Primeiro Ministro dinamarquês esnobou a petição de um grupo de embaixadores árabes para um encontro formal, onde a questão seria abordada de forma diplomática.
Em dezembro, líderes dos 57 países membros da Organização da Conferência Islâmica realizaram uma reunião de cúpula na cidade de Meca, Arábia Saudita. A reunião atraiu o mínimo de cobertura da imprensa ocidental, embora entre os presentes estivesse o incendiário presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.
Pertinente lembrar um outro incidente extremado envolvendo sensibilidades dogmáticas melindradas. Em 1989, a cólera islâmica inaugurou a “síndrome de Salmam Rushdie”. Furioso com o conteúdo do romance “Os Versos Satânicos”, o Aiatolá Khomeini promulgou um fatwa, decreto religioso, condenando o autor à morte. Embora o escritor tenha pedido perdão, e oferecido uma declaração formal de reverência ao Islã, o fatwa não foi revogado. E Salmam Rushdie desapareceu do mundo.
Pouco depois da conferência em Meca, a revolta contra as charges alcançava o topo hierárquico dos gabinetes governamentais. No Irã e na Síria, as agências estatais de notícia divulgaram o fato com alarde sedicioso e conotações nacionalistas. Demonstrações de rua foram incentivadas e facilitadas por órgãos oficiais do governo. A emoção coletiva evoluiu espontaneamente e tornou-se retaliação destrutiva. Passaram a queimar bandeiras, e, mais grave, sedes de embaixadas.
Como que a autenticar a teoria do caos, segundo a qual o movimento das asas de uma borboleta na Tanzânia pode provocar um furacão no estado de Kansas, uma fagulha, iniciada em uma minúscula comunidade muçulmana num minúsculo país no noroeste da Europa originara um fogaréu diabólico e incontrolável.
Mas os desenhos foram apenas o estopim de uma animosidade que vinha sendo destilada há anos.
Há na Europa um crescente ressentimento no íntimo das comunidades de imigrantes muçulmanos, cerca de 15 milhões de almas, contra a xenofobia propagada por organizações políticas ultraconservadoras. A expressão “corã-nimais”, um neologismo ultrajante que funde a palavra corão, o livro sagrado dos muçulmanos, à palavra “animais” é de emprego corriqueiro no vernáculo direitista. (Um dos partidos integrantes da coalizão governista em Copenhagem é ostensivamente antiimigrantista).
Há, paralelamente, um sentimento quase unânime no mundo árabe de que a religião muçulmana está sob ataque de modernas cruzadas ocidentais. Interpretam a invasão do Iraque e do Afeganistão, a humilhação e tortura de muçulmanos em Abu Graib e Guantânamo, e a obstinação com que Europa e Estados Unidos se empenham para obstruir o programa nuclear iraniano — sem emitir um pio contra o arsenal atômico de Israel— como evidências irrefutáveis de uma conspiração global. Os governantes desses países, hostis aos conceitos gerais de democracia, e avessos `a expansão de movimentos seculares, aproveitam para lembrar a seus governados que secularismo e democracia estilo ocidental implicam divórcio, homossexualismo, vícios, e autorização para acanalhar sua fé. A terem que optar entre liberdade de expressão e Maomé, como se os dois fossem irreconciliáveis e incompatíveis, ficam com o Santo Profeta.
O incidente dos cartuns dinamarqueses é um banho de água frígida nas aspirações de grupos islâmicos moderados que sonham com reformas, a separação de Estado e da religião, e a busca de uma forma equilibrada de manifestação espiritual. As recentes eleições na Palestina, no próprio Irã, no Iraque, e no Egito, demonstram uma tendência popular a favor de partidos religiosos radicais, e um repúdio tácito à modernização de suas sociedades.
E assim testemunhamos, no horário nobre da imprensa internacional, o proverbial choque de civilizações: a colisão do mundo pré-moderno da devoção mística com o descaso profano das tiras dos jornais do ocidente; uma queda de braços entre o Monty Python escandinavo e o califado da Indonésia e da Síria.
A fé extremada, o chauvinismo, e o complexo de vítima, manipulados politicamente por regimes que rejeitam nosso ideal de democracia, e o apresentam como uma intromissão arrogante, são ingredientes perfeitos para a confecção de um bolo explosivo, a eclosão de paixões vulcânicas.
O triunfo da irracionalidade e da intolerância serve de proteína ao radicalismo da Al Qaeda e ao fanatismo suicida. Receio que estes sejam os grandes beneficiários de toda essa insanidade.
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