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Duplo Palocci O número errado do CPF enviado por Antônio Palocci à Justiça Eleitoral
Jaime Leitão - Publicado em 08.08.2006
O ex-ministro Antônio Palocci é um duplo de si mesmo. Pelo menos apresentou à Justiça Eleitoral, para validar a sua candidatura a deputado federal, um CPF que não é dele. Como alguém pode ter dois CPFs? Só se for duplo, ou um super-homem. Não parece ser o seu caso.
Tudo foi descoberto sem grande dificuldade. Será que ele esqueceu que o sistema de informática é capaz de rastrear todos os CPFs do país em poucos minutos? A justificativa dele é de que houve engano. Engano?
Seria a mesma coisa que eu apresentar o CPF do meu irmão, que se chama Pedro, e depois eu dizer: - Eu me enganei. Pedro é um nome muito parecido com Jaime.
O CPF que o ex-ministro, ex-deputado e ex-prefeito apresentou , segundo foi apurado, a Nélio Aguiar Bíscaro, nome muito parecido com Antônio Palocci, você não acha? Nélio é filho de José Bíscaro, ex-secretário de Administração da Prefeitura de Ribeirão Preto na época em que Palocci foi prefeito de lá, que por sua vez cuidava das licitações da prefeitura, muitas das quais vêm sendo questionadas na Justiça.
Por que será que Palocci apresentou o CPF do filho do seu ex-secretário? Evitou apresentar o que pertencia a ele para que as suas contas não fossem questionadas pelo tribunal? É claro que eu tenho que perguntar. É um escândalo. Não tiro meu CPF do bolso em nenhuma circunstância. Como posso apresentar o CPF do meu vizinho alegando que ele caiu no meu jardim por descuido dele, e eu, que sou muito distraído, acabei achando que havia caído do meu bolso? O nome do meu vizinho? Vamos dizer que seja Heleodoro. Parecido com Jaime. Não é?
Se uma história como essa colar, e o ministro conseguir que a sua candidatura seja referendada, mesmo com tantas denúncias que pesam contra ele, então daqui a pouco vai ter fábrica de CPF para produzir CPFs quites com o leão.
George Orwell, que antecipou a duplicidade dos pensamentos, nunca foi tão atual. Os duplos se materializam no Brasil de uns tempos pra cá com uma constância sem fim. Um deputado mensaleiro, eu me lembro, afirmou que quem havia ganho propina não era ele, mas um homônimo, quer dizer, alguém com o mesmo nome.
A duplicidade abre espaço para todo tipo de atitude lesa-lógica, lesa-país, lesa-cidadão.
Se alguém é apanhado fraudando um documento, simplesmente tem a cara de pau de dizer, não fui eu, foi um sujeito com o meu nome, ou, então, esse CPF é meu, o nome não bate, mas isso é só um detalhe.
Os políticos duplos amanhã poderão ser triplos, mais adiante quádruplos. Reprodução espantosa a desse vírus, que se não for contida, devorará a democracia, o bom senso, a realidade. George Orwell tinha razão. E isso nos arrepia. A literatura antecipa a realidade, e muitas vezes essa constatação assusta.
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