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Luiz Fernando Cabeda - Publicado em 10.02.2006




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A crise da corrupção irrompida em 2005 não se exaure sob o ângulo legal, nem o da moralidade. É preciso encontrar razões culturais que identifiquem o modo de gestão corrupto e interesseiro, ou seja, porque valorizamos tanto essa forma de acumulação econômica, e porque escolhemos um comandante pedestre para consumá-la.

Macunaíma é o herói tribal pagão que, segundo as lendas indígenas do norte, habitava as montanhas de Roraima e tinha, embora sem a mesma solenidade, características dos deuses gregos, com sua porção de arbítrio e maldade, dignas de todos os homens, mas elevadas ao superlativo pela sua condição de divindade. Na fábula, Macunaíma detinha os poderes para controlar a eqüitativa exploração da árvore de todos os frutos. Sua incúria permitiu que ela fosse destruída pelos seus irmãos afoitos. O caminho que restou ao herói foi o de tudo dizimar, inclusive o sonho de uma igualdade mística que presidia essa história, e o de refugiar-se para além das brumas da montanha, num firmamento frio e distante.

Macunaíma foi trazido como personagem para o movimento modernista por Mário de Andrade que, fascinado pela intimidade da lenda com a nossa condição de vida, sentiu que o imaginário indígena tinha captado o sentido do herói sem nenhum caráter, imerso em declarações abissais, como pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são, mas também interesseiro, pois si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava para ganhar vintém. Esse herói, que era um autêntico filho do medo da noite, que fazia coisas de sarapantar e adormecia sonhando palavras feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar, foi transfigurado como um modelo diferente e promissor, num cenário político em que havia grande confusão dos papéis de cada tendência, em alguém que viesse afinal a representar a síntese do povo. E passou a ser esperado como uma alternativa salvadora, até sua efetiva entronização no mando da nossa injusta República.

Vivemos o bastante para ver o Presidente Macunaíma ditar nossos destinos. Isso aconteceu, parece, para que a lenda projetasse sobre nós a sua maldição sobre o fracasso recorrente, que cerca os projetos reformistas ao longo da nossa história, mas um fracasso que tem presença agora, é real e não alegórico, embora se devesse saber desde o início que muitas contradições o tornavam inexorável.

O Macunaíma histórico não podia agregar interminavelmente tantos e tão diferentes espíritos que nele projetaram um mito de salvador, de decência personalizada e de garantia de mudança na vida de cada um. Essa colossal projeção reunia tudo o que era heterogêneo: carolas crédulos em uma redenção humana tradicional a pessoas que tiveram ambições revolucionárias, sem a fortuna de viverem revoluções; intelectuais prontos para ver finalmente consagradas suas teses de poucos ouvintes acadêmicos a desocupados que passaram grande parte de suas vidas ao largo dos complexos problemas políticos; imaturos a quem o tempo ainda não oferecera a oportunidade de ultrapassar o círculo de interesse no próprio umbigo a idosos mais ou menos descartados, para quem esse mesmo tempo escasseava, e o engajamento era sempre uma dádiva muito bem-vinda. Não há nenhuma culpa a imputar a todos os que se iludiram, afinal a estrela-guia do salvacionismo havia sido adotada há vinte e cinco anos por fundadores de grande prestígio, como Sérgio Buarque de Holanda, Mário Pedrosa, Hélio Bicudo, Florestan Fernandes, Apolônio de Carvalho e ainda tantos artistas e pessoas de renome, desenganados de suas opções anteriores. A razão dos intelectuais e a ação dos operários pareciam ter-se encontrado. E logo vieram também piedosos padres e bispos dispostos a ungir os novos pastores do rebanho.

Esse engajamento, entretanto, só poderia resultar numa formidável contrafação. A trajetória pessoal do nosso comandante pedestre sempre se fez de episódios obscuros, com um currículo nada promissor e envolvendo um nível de vida privada incompatível com seu ganho, como de palavras de ordem bombásticas ou debochadas. Parlamento ? Não dava tesão... Deputados ? Coisa de 300 picaretas... Crise ? “Olhem para a minha cara para ver se estou preocupado com CPI”.

As greves do ABC que, no uso bastante razoável da metodologia marxista, por exemplo, podiam ser entendidas como movimentos reivindicatórios típicos do capitalismo, pois buscavam uma parte dos resultados do milagre econômico do regime militar, até então apropriados pelas classes média e alta, foram consagradas – por análises tendenciosas - como a extrema unção da ditadura. Na época, o comandante pedestre dizia que não era de esquerda nem de direita, era de Garanhuns. Na primeira eleição para governador, seu bordão era “vote no 3, o resto é burguês”. Meramente burguesas teriam sido a eleição de Tancredo e a Constituinte... E assim, com esses disparates, com uma falta inconcebível de autocrítica e incapacidade para compor politicamente, a utopia da estrela simbolizou desde o início uma autenticidade enganosa, como se os séculos de lutas sociais não tivessem existido. A história parecia ter recuado ao seu marco zero, na cabeça de muitos, e isso servia bastante bem à trajetória de escalada do comandante.

Foram muitos os avisos. A aposta era de alto risco. O espírito de redenção, entretanto, parecia depender cada vez mais de uma consciência absolutamente contrita dos crédulos dedicados. Se eles eram fervorosos, de um lado, também eram impositivos, arrogantes e opressivos, de outro. Seu modelo operativo foi crescentemente o do “fascio”, com as figurações vistosas dos bandeiraços e bravatas para espantar o burguês, ou melhor, o pequeno burguês. Os outros sempre eram apontados como impuros...embora não se soubesse bem o porquê. Porém, os acontecimentos agora descobertos, e que tiveram seu ensaio quando da conquista do poder em administrações municipais, como em Santo André, mostram que a fé era ilusória – e cega.

Agora, Macunaíma enxerga a solidão, mas não compreende o seu silêncio, já que o próprio séqüito sarapintado se dissolveu. Não é mais tempo de buscar atrás a consciência deixada na ilha de Marapatá. Tendo ficado jururu, ele só se lembra de passar a doença aos outros pra não morrer sozinho. Quanto à estrela, parece que seu destino é o de ser aquele do brilho bonito mas inútil em uma constelação remota, em cujo desenho nosso herói sem caráter encontrará sua lamentável figuração final, já comido por uma perna, capenga, reificado em definitivo no folclore de onde saiu como herói.

É assim, provavelmente, que a história se escreverá. Seu julgamento sereno decorre do que efetivamente aconteceu, sem o lamento da esperança vivida por muitos, mas agora perdida. Salvo, é claro, pelos impenitentes. Com relação a quem nenhum argumento pode ser acrescentado, tanto mais por quem não pretende infundir o sofrimento, pois só lhes acudirá a razão tarde demais.

Filme: Macunaíma
País: Brasil
Ano: 1969
Idioma: Português
Diretor: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade, baseado na obra de Mário de Andrade
Gênero: Comédia / Fantasia
Elenco: Grande Otelo - Macunaíma | Paulo José - Macunaíma | Jardel Filho - Venceslau Pietro Pietra | Dina Sfat - Ci | Milton Gonçalves - Jigue | Rodolfo Arena - Maanape | Joana Fomm - Sofara | Wilza Carla | Carolina Withaker | Tito de Lemos | Maria do Rosário | Maria Letícia | Zezé Macedo | Myrian Muniz | Hugo Carvana | Leovegildo Cordeiro | Maria Lúcia Dahl | Nazareth Ohana | Waldir Onofre | Rafael de Carvalho | Carmem Palhares | Maria Clara Pelegrino | Guará Rodrigues | Edy Siqueira | Márcia Tânia | entre outros.