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As eleições e os "candidatos éticos"
Jaime Leitão - Publicado em 21.08.2006




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Campanhas nas ruas, candidatos exibindo faixas, retratos, fazendo anúncios. Minha primeira observação: quantos candidatos éticos. Nunca vi tantos. Até esse que todos sabem que é o avesso da ética e da moralidade, defendendo a pobre, a pisada, a tão esquecida ética.

É um assalto à mão armada contra a língua, a linguagem, as palavras. Como alguém sabidamente não-ético pode apropriar-se das palavras ética e moralidade como se fosse dono delas?

Esse mau uso de certas palavras tão fundamentais banaliza-as, desmoraliza-as de tal forma, que aqueles que são éticos pensam muitas vezes antes de utilizá-las. Também há um outro lado aí: o candidato usurpador de palavras e de dinheiro público, ao assumir-se como o defensor maior da moral vira chacota, piada, perde aquele um por cento de credibilidade que talvez ainda possuísse.

Roubar palavras deveria dar cadeia tanto quanto apoderar-se do dinheiro público. Isso porque esse roubo interfere em todo processo de comunicação, inverte o significado de tudo. E quando a comunicação deixa de existir, o caos se instala.

Isso me lembra uma história que meu pai contava de um colega seu de faculdade que se dizia ateu, mas que, em uma procissão, ajudou a carregar o andor da santa, para ingressar na política. Conseguiu sucesso, mas escancarou a sua falta de caráter, de ética, de seriedade.

Não somos donos das palavras. Nem o maior poeta de uma língua ou de um país pode se considerar dono das palavras. Porque elas possuem uma força e uma magia que nos escapam ao controle por mais que queiramos domá-las, enquadrá-las. Carlos Drummond de Andrade, em seu belíssimo poema “O Lutador”, deixa isso bem claro: “Lutar com palavras é a luta mais vã./ Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

Alguns políticos são seviciadores de palavras, seqüestram-nas sem nenhum pudor e têm o hábito de pronunciá-las repetidamente até destruí-las. Mas que engano. O usurpador de palavras acaba se dando mal porque as palavras ditas sem verdade, sinceridade, soam de forma estranha, absurda, e isso transparece de tal forma que chega um momento que é impossível esconder as piores intenções, mesmo que sejam usadas as palavras ética e moral o dia inteiro.

As palavras são imunes àqueles que atentam contra ela. Podem dar idéia que se curvam hoje, mas amanhã ressurgem fortes como nunca e deixam aquele que as usou em vão ridicularizado pelo próprio discurso que não tem sentido, vigor, verdade. Os ladrões de palavras deveriam ser condenados à mudez eterna ou a uma exposição pública em que fossem obrigados a repetir mil vezes diante de uma platéia de estudantes: -Não façam como eu. Eu não sou exemplo para ninguém. Usei a palavra ética de forma errada, criminosa.

Quem sabe assim os ladrões de palavras passem a tomar cuidado antes de assaltá-las.