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O osso e o filé mignon A metáfora de Lula no discurso de início de campanha pela reeleição
Jaime Leitão - Publicado em 03.08.2006
O presidente Lula disse nesse seu início de campanha pela reeleição que já roeu muito osso e não vai dar de bandeja para a oposição o filé mignon que ele produziu. Que osso duro ele roeu? Não consigo esquecer na última campanha, antes de ele ter sido eleito, do vinho Romanée Conti que ele tomou com o seu marqueteiro da época, Duda Mendonça. A garrafa se não me engano custou seis mil reais. Não questiono a origem do dinheiro para comprar o vinho. Parece que saiu do bolso de Duda, que na época ainda não estava sob suspeita. Mas a questão é outra. Quando ele fala que roeu osso, a minha memória me remete instantaneamente à imagem do vinho.
Lula usa a metáfora do osso para dizer que pegou o país destroçado, arruinado: "um osso duro de roer" e o transformou, com todo esforço, numa luta de David contra Golias, em menos de quatro anos , em um "filé mignon", uma espécie de paraíso.
Na verdade, quem roeu sempre osso e continua roendo é a população carente. O primeiro osso é o da carência de alimentos, que ainda é grande. O Bolsa-Família só atinge uma parcela dos miseráveis. E, por mais que contribua para garantir alimentação diária, ele cria uma ilusão porque gera uma dependência e não um emprego ou uma condição de vida melhor e mais digna.
O filé mignon é para os bancos mais uma vez, que lucraram como nunca no governo Lula.
Encontrei há pouco na rua com um aposentado que me disse: "O meu filé mignon é um bife de coxão duro duas vezes por semana. Com esse aumento que o Lula nos deu, até essa carne está ameaçada."
Outra interpretação da fala de Lula, de que a casa está agora em ordem, e por isso não quer entregar para a oposição o governo, também é enganosa. Que casa em ordem é essa com tanta corrupção campeando entre "mensaleiros" e "sanguessugas", quase todos aliados do governo? A saúde e a educação estão em situação tão precária quanto estavam no tempo de FHC. Que filé mignon é esse, do qual Lula se vangloria tanto? Há muitos ossos para serem roídos até se chegar ao filé mignon. Só que ele tem que ser para todos.
O que lembra filé mignon, quero dizer, luxo, são certas compras que estão sendo feitas pelo Planalto como 309 mil envelopes e cartões, por R$ 304 mil. Para que tanto envelope e cartão? Outra compra pelo menos curiosa: R$ 19 mil com material cirúrgico. Que cirurgia será feita no Planalto? Gostaria tanto de saber.
Lula se coloca de novo como o grande perseguido, o que roeu osso, o que comeu o pão que o diabo amassou. É tocante. Dá pena de ver tamanho sofrimento. Esse discurso por enquanto está representando votos, de acordo com as pesquisas, mas falta a ele o mínimo de substância.
A insistência de Lula em culpar o sistema político pela corrupção e não os políticos individualmente significa buscar argumentos onde não há para afastar-se de qualquer contaminação dos corruptos que estão próximos dele.
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