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Marcio Markendorf - Publicado em 31.12.2005




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No romance Brave new world (Admirável mundo novo), escrito na década de 30, Aldous Huxley descreve visionariamente um futuro utópico para o ano de 635 d.F. (depois de Ford)[1]. Nessa nova sociedade o Estado garante a todos os cidadãos o bem-estar social e a felicidade permanente, além de manter a estabilidade do governo e das classes. Para efetuar o controle da população e, conseqüentemente, torná-la estável, o governo utiliza recursos da engenharia genética, da farmacologia, do entretenimento – jogos, música, cinema - sem precisar se valer dos recursos usuais de violência, da repressão ou das armas. Um tipo de regime totalitário se instala na sociedade, à medida que a liberdade de sentir e de pensar do indivíduo, sua personalidade e suas particularidades subjetivas são subtraídas por esses mesmos métodos.

Nesse futuro anunciado, a engenharia genética chega a tal estágio de desenvolvimento que permite uma revolução na técnica de fecundação através do processo bokanovsky de reprodução humana, o qual permite que um único óvulo fecundado forme cerca de 96 gêmeos idênticos. A concepção e gestação de indivíduos não se dá mais através das relações sexuais, mas nas incubadoras dos laboratórios, que simulam as características físico-químicas dos vivíparos.

O principal avanço da bokanovskização não está no número de seres idênticos que podem ser formados, mas na possibilidade de pré-determinar no indivíduo certos atributos físicos e mentais por meio da manipulação genética. Há um processo de condicionamento genético nas salas de predestinação social dos Centros de Incubação e Condicionamento que aplica funcionalmente os mesmos princípios das linhas de montagem no processo de desenvolvimento do embrião. O processo se justifica pelas próprias necessidades do mercado de trabalho: se há a necessidade de trabalhadores de determinado tipo, a quantidade é determinada e o condicionamento genético confere aos novos indivíduos capacidades inatas para o exercício das funções solicitadas. O maior problema que a engenharia genética procura dissolver é desenvolver técnicas que permitam o crescimento acelerado do indivíduo, tanto física quanto intelectualmente, de modo a permitir a “industrialização” de seres humanos.

O capitalismo continua sendo o modelo econômico vigente, mas não há uma divisão por classes econômicas e, sim, por castas intelectuais - os alfas, os gamas, os betas, os deltas e os ípsilons – em escala piramidal decrescente. Por força do condicionamento genético – intelectual e físico – e do condicionamento psicológico por hipnopedia[2], não se verifica qualquer tipo de mobilidade ou descontentamento social. No sistema social huxleano surge um outro tipo de preconceito, diferente do econômico e do social, determinado exatamente pelas diferenças de compleição entre as castas - o preconceito genético.

A partir desses aspectos, podemos observar que Huxley pretendia denunciar a possibilidade de uma sociedade sombria, num futuro distante de sua época, onde a tecnologia estaria a serviço do controle do Estado e do projeto de padronização humana segundo os conceitos de comunidade, identidade e estabilidade.

A proposta de desenvolvimento artificial de seres idênticos, científica e imaginária, talvez date da publicação de The origin of species (A origem das espécies) de Charles Darwin, em 1859, mas é um tema que se renovou nas últimas décadas com a possibilidade científica da clonagem. O primeiro mamífero a ser clonado na história foi a ovelha Dolly, em 1997, por um grupo de cientistas escoceses. A técnica utilizada torna possível a clonagem de um único indivíduo adulto por vez, pela introdução do núcleo de uma célula somática (não-reprodutiva) do indivíduo que se pretende clonar, no óvulo de uma doadora, do qual foi retirado o núcleo. Por causa da retirada do núcleo do óvulo, o indivíduo que será desenvolvido nessa fecundação manterá exclusivamente um idêntico padrão genético que o do doador, não se fundindo diferentes padrões, como ocorre nas células sexuais. Para que se prossiga o processo, o óvulo fecundado recebe uma descarga elétrica a fim de induzir a formação do indivíduo, depois se implanta o embrião no útero de uma “mãe de aluguel”.

A inviabilidade desse método reside tanto na necessidade de um grande número de tentativas (chegaram a 300 óvulos fecundados no caso da ovelha Dolly) para se formar um único indivíduo quanto nas deficiências físicas (como o envelhecimento precoce) a que o ser clonado fica propenso.

O que é bastante interessante para os estudos é que a obra foi escrita em 1932, época em que diversas áreas da ciência, principalmente a engenharia genética, ainda estavam pouco desenvolvidas, segundo um projeto de associação do imaginário, do profético e da ciência. Por esse motivo, o romance situa-se, ao lado de 1984, de George Orwell, publicado em 1948, enquanto um importante representante da literatura futurista e, sobretudo, da literatura dita visionária.

No mundo huxleano, constituído de homens produzidos em laboratório, psicologicamente designados para desempenhar o papel social exigido pelo Estado, existe a intenção de se entender o homem como uma entidade mecanizada e programável, diferentemente de outras produções futuristas, que valorizam a supremacia da máquina e da tecnologia sobre o homem. Nesse sentido, a liberdade de querer ser alguém, de crescer na vida e ter o livre arbítrio, de ter sentimentos próprios não existe. Os seres humanos passam a ser máquinas especializadas apenas para exercer determinada atividade, nada mais. Embora diferente na relação homem/máquina, Brave new world, assim como outras obras de ficção futurista que trataram do tema das potencialidades da ciência e da tecnologia, Huxley condicionou o desenvolvimento científico a formas de controle político, como aponta Szabolcsi (1990: 123) a respeito dessas produções: “Praticamente todas essas obras têm como fundamento experiências de confronto entre o poder impessoal e o indivíduo, o perigo da despersonalização e a mecanização crescentes, além do protesto contra todas as espécies de ditadura. Mi (Nós, 1924), de Evgueni Zamiantin, é o precursor, nos anos 20; Brave New World (Admirável mundo novo, 1932), de Aldous Huxley, é o produto dos anos 30, e 1984 (1949), de George Orwell, dos anos 40”

Além do condicionamento genético e psicológico, os indivíduos eram controlados emocionalmente por uma poderosa substância psicoativa – o soma. Considerado a droga perfeita por seus efeitos narcótico, eufórico e alucinante, o soma permitia ao usuário tirar férias da realidade e se evadir de qualquer tipo de comportamento emocional que fosse prejudicial ao seu desenvolvimento enquanto cidadão. Permanentemente felizes e sem qualquer tipo de distúrbio emocional - como a depressão, a tristeza, a solidão – os cidadãos nunca se motivariam a qualquer insurreição contra o Estado. Por esse motivo, era um tipo de droga lícita distribuída como ração obrigatória pelo próprio governo.Em se tratando de drogas que tenham efeitos semelhantes ao descrito por Huxley, o que podemos destacar entre os fármacos atuais é o Ecstasy e o Prozac.

O Ecstasy, nome fantasia da substância metileno-dioxido-meta-anfetamina, foi utilizado pela primeira vez em 1914 pelas tropas alemãs com a finalidade de inibir o apetite, mais tarde, na década de 60, foi descoberto seu efeito alucinógeno e seu poder de “love drug”, pois criava nos usuários a sensação de felicidade. Nos anos 70, por causa dos efeitos colaterais da droga – insônia, ansiedade fóbica, paranóia, depressão, perda de memória – houve um controle do uso até sua proibição definitiva em 1985 (Connecticut Clearinghouse, 2003).

O Prozac, como é chamado o cloridrato de fluoxetina, surgiu em 1987, e é empregado no tratamento de depressão, transtorno obsessivo compulsivo e bulimia nervosa. Oferece poucos efeitos colaterais, na maioria deles bastante brandos, se relacionados aos do Ecstasy, como dor de cabeça, tontura, sedação, e permite que o usuário mantenha padrões estáveis de felicidade.

Reforçando ainda a política do bem-estar social, estava o entretenimento alienante dos jogos – golfe obstáculo, golfe eletromagnético, pelota escalátor, balatela centífuga –, a artificialidade da música sintética e o hiper-realismo do cinema sensível. O Colégio de Engenharia Emocional explorava os recursos da cultura de massa, com o intuito de reforçar as normas sociais e promover o conformismo social, visto que os objetos produzidos por essa cultura são narcotizantes. À propaganda, à televisão, ao cinema, à música não cabiam outras funções, a não ser a de legitimar o próprio sistema que as produziu. Dentre os mecanismos de maior funcionalidade para esses propósitos, podemos selecionar a música sintética e o cinema sensível.

A música sintética era um tipo de construção musical atrelada aos padrões de consumo massivo e, conseqüentemente, alienante. As seqüências musicais eram reproduzidas em caixas de som e eram recriações eletrônicas de sons de diversos tipos de instrumentos musicais, ou melhor, era uma “música produzida a partir de não instrumentos, ou de instrumentos adaptados de forma a produzirem som modificado pela eletricidade” (Wanderley, 2003). Filippo Marinetti e Luigi Russolo, em 1912, intelectuais diretamente envolvidos com o movimento estético futurista, afirmavam a música eletrônica como a representante da modernidade. Na década de 70, com o desenvolvimento da informática, desenvolveu-se a música eletrônica como conhecemos, embora o seu significado histórico, de música produzida por eletricidade e magnetismo, tenha se perdido.

A música eletrônica integra os novos padrões tecnológicos da engenharia computacional, quando permite que até mesmo o usuário de um computador pessoal, desenvolva as funções de um estúdio digital usando, por exemplo “o seqüenciador para o auxílio à composição, o sampler para a digitalização do som, os programas de mixagem e arranjo do som digitalizado e o sintetizador, que produz sons a partir de instruções ou de códigos digitais” além da possibilidade que o padrão MIDI (Musical Instrument Digital Interface) oferece reproduzir qualquer seqüência de introduções musicais produzida em qualquer estúdio digital em qualquer sintetizador do planeta (Lévy, 1999: 141). A música eletrônica abarca diversas variedades de estilo, mas os principais são o house, o techno, o trance e o drum’n’bass. Com relação à música sintética descrita por Huxley, a música eletrônica é esteticamente superior e desvinculada dos mesmos padrões alienantes a que aquela estava condicionada. O efeito da e-music, como também é conhecida, sobre quem a consome é um tipo de efeito hipnótico garantido pelo compasso, em geral 4x4, pela velocidade de bpm (batidas por minuto) e pelas variações musicais permitidas pelos samplers, sintetizadores e outros instrumentos eletrônicos. Por causa da presença da repetitividade na batida, a música eletrônica filia-se aos conceitos de arte minimalista, embora permita seqüências musicais bastante complexas e sempre originais, e garante um status de música pós-moderna (Chies, 2003).

Da mesma forma que a música sintética estava preocupada com o consumo e a alienação, o cinema sensível procurava oferecer o máximo de realismo para o espectador, através dos cinco sentidos. Os filmes produzidos pelo Colégio de Engenharia Emocional não possuíam qualquer tipo de enredo, se fixando apenas em imagens que pudessem legitimar ainda mais os mecanismos narcotização da cultura de massa.

Da época de Huxley para cá o cinema evoluiu consideravelmente, embora não tenha atingido os mesmos padrões de realismo. Em 1935 surgiu o cinerama, que proporcionava uma ilusão de realidade ao espectador por meio da sua tela em 180º e do ângulo de filmagem do filme – simulando a visão do próprio personagem da ação. No mesmo ano também se desenvolve o padrão de cores das imagens com o technicolor. Em substituição ao som mono, em 1976 surgiu o sistema Dolby Stereo, que melhorava significativamente a qualidade do som. Na década de 90, apareceu o Dolby Surround oferecendo um padrão de realismo sonoro mais superior que os seus predecessores. Embora a imagem tenha-se digitalizado, a tela do cinema ganhado um formato plano e o efeito surround tenha simulado “realidades sonoras”, nada se compara ao que foi desenvolvido pelo Departamento de Engenharia Emocional em Brave new world.

Com vista nas tecnologias discutidas – o processo bokanovsky, o soma, a música sintética e o cinema sensível – podemos pensar na existência num imaginário tecnológico, derivado diretamente da experiência, da observação e da premonição do que estaria por ser desenvolvido em épocas posteriores. Como afirma Seymour-Smith (2002: 630), “a intenção do livro de Huxley era ser profético”, um lugar imaginativo que pudesse expressar o seu “desgosto com os rumos do seu tempo em direção à superficialidade mental e à auto-indulgência sexual”. Por esses motivos, associados às necessidades da própria obra, os valores em Brave new world são completamente inversos daquilo que conhecemos, exemplificadas pelo fato de palavras como pai, mãe, filho, família serem consideradas obscenas ou mesmo uma aversão geral pelo romantismo, pela monogamia, pelo casamento enquanto que há uma valorização da promiscuidade. E mesmo esses dispositivos de controle do Estado foram concebidos de modo a atender perfeitamente os desígnios dessa sociedade futura: o processo bokanovsky permite a formação de até 96 gêmeos idênticos, que possam atender, por exemplo, uma micro-empresa; o soma, droga perfeita para a felicidade, não oferece qualquer efeito colateral; a música sintética como tentativa de descrição da desumanização do homem e o cinema sensível, criador de efeitos hiper-realistas de imagem a fim de formar espectadores “narcotizados” pela cultura de massa.

Em relação ao livro 1984, de George Orwell, o romance de Aldous Huxley age dentro das linhas da literatura utópica, já que permite ao indivíduo viver numa felicidade permanente. Enquanto que no livro de Orwell há um clima de tensão e angústia, o mesmo não se confirma na obra que analisamos. Mesmo que os recursos tecnológicos também fossem formas de perpetuar o poder do Estado, até mesmo o efeito deles é diferente. A bokanovskização e, em maior grau, o soma, a música sintética e o cinema sensível, agradam as pessoas e as deixam felizes, mesmo que haja também, por trás disso, um condicionamento psicológico para que tudo isso seja valorizado. O futuro de Huxley e sua tecnologia se tornam importantes quando esbarram nos limites da ética: até que ponto o homem pode controlar o próprio homem?

Bibliografia:
Admirável Mundo Novo
ALDOUS HUXLEY
Cibercultura - PIERRE LEVY
1984 - Edição Comemorativa - GEORGE ORWELL
Os 100 Livros que Mais Influenciaram a Humanidade - MARTIN SEYMOUR-SMITH
Literatura Universal do Século XX: Principais Correntes - MIKLOS SZABOLCSI
• CHIES, Thais Cristine. Novas formas de viver – clubbers e ravers. Disponível em: Acesso em 24 de agosto de 2003.
• ECSTASY. Disponível em: Acesso em: 04 de setembro de 2003.
• WANDERLEY, Saulo. A origem da música eletrônica. Disponível em: Acesso em: 19 de junho de 2003.

Notas:
[1] Referência à implantação das linhas de montagem na indústria automobilística por Henry Ford. De acordo com o calendário oficial, a história se passaria num ano próximo de 2548.

[2] A hipnopedia consiste na repetição de informações durante o sono por um determinado espaço de tempo. Ao fim de cada processo hipnopédico, a informação é interiorizada e se transforma num axioma, num tipo de verdade universal para o indivíduo.


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