Mais um 11 de setembro, o centenário de Adorno - Artigo sobre a vida e obra de Theodor Adorno < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Paulo Giardullo - Publicado em 30.11.2003

A descoberta da existência dos frankfurtianos
Cheguei à Faculdade de história, com a bagagem de anos de leituras autodidatas em bibliotecas públicas e um anseio enorme de encontrar respostas para a desumanização da sociedade. Havia uma intuição de que nem o capitalismo e nem o socialismo
  Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno.
 


 

tradicionais poderiam oferecer tais respostas. Leituras recentes de Orwell e Huxley deram forma a esta intuição. Na faculdade encontrei o professor que eu costumo chamar de “Léo Marcuse”. Ele me esclareceu detalhes sobre o marxismo, de forma muito clara e esteticamente marcante, dentro dos velhos padrões do “giz e saliva”, formato que o guru capitalista, o palestrante Valdez Ludiwig, disse que está ultrapassado: “O professor que não tiver um computador, que não se atualizar, que insistir no ‘cuspe e giz” está fadado ao fracasso” (risos e uma balançada de cabeça para ajeitar a longa franja partida de lado). Aliás eu vi parte desta palestra em uma fita de vídeo mostrada pelo próprio “Léo Marcuse”, para contrapormos ao Valdez, lógico. “Elo” foi esclarecedor em suas aulas, principalmente sobre as nuances da ideologia dominante (capitalista) e de como ela está arraigada, entremeada, espalhada sutilmente pela sociedade, ditando comportamentos, forjando convicções, difícil de ser detectada.

Pois, dentro daqueles anseios meus em questionar os valores de nossa sociedade atual, da minha sede por justiça social, igualdade, liberdade real, eu o apoiei nas suas críticas à sociedade capitalista, mas me opus à sua alternativa marxista mais ou menos clássica. Pois, apesar de reconhecer que o marxismo foi a opção mais bem formulada aos crimes capitalistas da direita, depois da KGB e das lavagens cerebrais na China, não aceito se falar em leninismo ou ditadura do proletariado como alternativas ao capitalismo, por mais barbaridades que este último nos proporcione.

Diante destes meus questionamentos, o professor então me dizia insistentemente: “Leia os filósofos de Frankfurt”. Seus nomes me soaram estranhos e musicais ao mesmo tempo. Não consegui decorá-los para pesquisa. Um dia me lembro de que após a aula de “Léo Marcuse, no recreio, nós saímos conversando pelo corredor da faculdade, ele havia me falado alguma coisa sobre Aristóteles ou Platão que ensinavam em jardins, me parece que liceus, onde tiravam as dúvidas dos discípulos em didática meio contemplativa, não necessariamente cronológica e utilitarista como a de hoje. Lembro-me de que o professor falou alguma coisa sobre a dicotomia professor e mestre. Mestre seria aquele que compartilha o conhecimento, interagindo com o aluno e não apenas o transmite e que nem sempre a educação foi assim como hoje: com filas em salas de aulas. Nessa noite, andando pelo corredor fomos conversando, eu expondo meus questionamentos contra a massificação, a cultura de massas, a uniformização, ele em parte concordando, mas sempre recomendando os filósofos de Frankfurt. Após entregar o diário de classe, bater o cartão de ponto foucault-orwelliano (vigilância eletrônica), ele se sentou humildemente no degrau de uma sala, no corredor, com as pessoas passando apressadas em volta, abriu sua pasta e disse para mim: “leia sobre os pensadores da Escola de Frankfurt, como é mesmo o nome, deixe me lembrar... (ele sempre esquecia alguns nomes e datas, havia um suspense característico nesses momentos, ele não era tão velho assim, apenas tinha uns lapsos, talvez sinal de genialidade) ... eu tinha umas anotações aqui na pasta... deixe-me ver (procurou entre papéis um tanto desordenados) ... há, sim! Aqui está, encontrei: Walter Benjamim, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Theodor Adorno. Leia e me fale depois”. Ele entrou em seu Tempra escuro e saiu. Eu fiquei andando pelo pátio, pensando naqueles nomes exóticos, mas que emanavam uma áurea especial.

Mais uma vez esqueci os nomes, cheguei a anotá-los em um pedaço de papel, mas o perdi. Não pude pesquisar de imediato, porque as obrigações da maratona acadêmica não me permitiram. Depois nas primeiras férias escolares que tive, eu os procurei. Encontrei-os na coleção de pensadores das bibliotecas e na Internet. Como havia esquecido a maioria daqueles nomes alemães complicados, joguei na procura Filósofos ou Escola de Frankfurt.

Os homens e suas idéias

Os nomes e idéias se delinearam em minha frente: Walter Benjamin, escreveu sobre o cinema, sobre a perda da áurea pelas obras de arte com a reprodução em série. Preso pela GESTAPO na fronteira com a Espanha, em 1940, suicidou-se, não resistindo às pressões. Pouco tempo depois, ironicamente, a fronteira com aquele país se abriu. Os outros seguiram para o exílio nos EUA, fugindo ao terror nazista. Max Horkheimer escreveu sobre razão instrumental e que o socialismo soviético foi um capitalismo de Estado. Herbert Marcuse escreveu entre outras coisas, o Homem Unidimensional, de pensamento único, fechado, limitado, a que se é reduzido no fascismo (e por que não dizer no capitalismo?). Marcuse foi um dos inspiradores dos movimentos estudantis de 1968. Theodor Adorno escreveu críticas sobre a sociedade tecnológica, que produz barbárie, a qual não é uma regressão a modos primitivos da humanidade, mas um produto do próprio progresso e da civilização. Criticou o iluminismo, na medida em que ele se propõe a destruir os mitos, mas cria outros. Erich Fromm, psicólogo escreveu sobre a Cidade de Deus (Idade Média), onde havia um predomínio da relação vertical com Deus, depois houve a Cidade do Ter ( sociedade capitalista baseada no lucro) e precisamos alcançar a Cidade do Ser. Havia outros e uma sobrevida da escola, após a volta do exílio para a Alemanha.

Além da dicotomia amigo-inimigo, preto-branco

Bem, nos frankfurtianos estavam guardadas grande parte das respostas que eu, um estudante, com sede de crítica à direita e a esquerda tradicionais, procurava ansiosamente. Mas, quando finalmente fiz algumas leituras e poderia trocar algumas idéias com o professor “Léo Marcuse”, ele já não trabalhava mais naquela faculdade. Umas coisas de mercado, sabe como é, aliadas ao seu fervor “marcuseano” causaram sua saída dos quadros daquele estabelecimento de ensino. Assim, como os filósofos do Instituto de Pesquisa Social, cumpriu seu auto-exílio em outras faculdades. Não pude mostrar-lhe o retorno de minhas pesquisas. Mas, foi muito gratificante e frutífero saber que existiram e existem pensadores da linha teórico-filosófica que ousam criticar as distorções das propostas tanto de direita, como de esquerda tradicionais e nos inspiram a procurarmos alternativas em que a igualdade, a liberdade, sejam metas realmente buscadas, sem as justificativas e os embustes ideológicos que fazem de uma tortura ou de uma lavagem cerebral um “ato de amor”. Até então, eu observava certo tom maniqueísta entre os partidários do socialismo ou capitalismo, como torcedores fanáticos de futebol ou fiéis dogmáticos de diferentes religiões, que não ousam aceitar ou formular críticas contra a sua ideologia política, endeusando a sua e diabolizando a do “adversário”. Um capitalista convicto cita invariavelmente o fracasso econômico de Cuba e da URSS e as atrocidades de Fidel, para justificar que a “história acabou e só resta o capitalismo, o único que funciona”. Nada mencionará sobre a miséria da África ou a mediocridade da cultura mesmo nos países de 1º mundo. Os socialistas convictos irão sempre fechar os olhos para a insanidade stalinista, para a mão de ferro de Fidel e Mao, com a justificativa de que se Lênin não tivesse morrido... salientando os benefícios em educação e esportes da pequena ilha cubana e irão enumerar as mazelas capitalistas.

Por isso a importância, de se estudar pensadores como Orwell, Huxley, os Filósofos de Frankfurt, no rastro deles, conheci Michel Foucault e Hannah Arendt. São de uma safra que conheceram as marcas indeléveis dos totalitarismos da primeira metade do século XX (de direita e esquerda) e da massificação da Indústria Cultural capitalista. Souberam criticar ambas as formas que marcaram o século XX, se colocando, sem dúvida, mais à esquerda, mas não omitindo os pontos altamente bárbaros do socialismo, pelo menos do socialismo real.

Os dilemas de um filósofo libertário, Adorno x Bush

Dentro deste contexto, chegou até mim um exemplar do Caderno Mais da Folha de São Paulo, entregue também por um profissional do ensino, uma professora. Era uma reportagem sobre a comemoração dos 100 anos de Theodor W. Adorno, um dos ícones da Escola de Frankfurt, que completaria o seu centenário em 11 de setembro último. Gostei muito da matéria, mas uma pena que chegou tarde. Já haviam passado alguns dias da data. Se eu tivesse conhecimento antes, teria feito artigos e incluído o filósofo alemão em uma exposição que fiz sobre os 100 anos de George Orwell. Também poderia ter participado dos inúmeros congressos e eventos sobre o autor de Dialética do Esclarecimento, que agora sei que ocorreram em várias partes do país. Mas tudo bem, ainda dá para lembrar do velho filósofo careca e sisudo que teve uma aula invadida por três moças militantes em 1969, como retaliação porque ele se recusava a imprimir uma militância prática radical a suas teorias, sem dúvida, muito revolucionárias. Morreu naquele ano, talvez em função às críticas à sua recusa em seguir as palavras de ordem ativistas. Muitos não o entenderam, mas ele achava que cumpria seu papel, trabalhando a filosofia apenas em teoria, o que era sua forma, preciosíssima, diga-se de passagem, de militância. Seu companheiro no Instituto, Herbert Marcuse, ao contrário, já aderiu àquela onda ativista, sendo aliás, um de seus epicentros. Essa divergência na forma de encarar o movimento gerou cartas entre ambos, discutindo o assunto. Essas cartas podem fomentar discussões riquíssimas sobre o papel dos intelectuais. Adorno foi o criador, em parceria com Horkheirmer, do termo Indústria Cultural, em contraposição ao termo Cultura de Massas, já que este termo sugere que ela tem origem espontânea nas próprias massas, quando na verdade é forjada de forma a se moldar aos interesses capitalistas. Dizem que o termo virou um clichê, um jargão acadêmico, usado impropriamente. Eu, particularmente, acho que tanto o termo, como o conteúdo em si dos trabalhos de Adorno são extremamente atuais e aplicáveis para entendermos e combatermos a “uniformização cultural pela mediocridade” que nos é imposta pela sociedade tecnológica capitalista.

Agora um detalhe importante: Adorno completaria 100 anos justamente em 11 de setembro. Lembrem-se que esta é a data que Bush e os seus falcões querem transformar no Dia Mundial Contra o Terrorismo que “barbaramente dizimou civis inocentes norte-americanos”.

Pois, o Duplipensar.net, publicou matéria sobre um outro certo 11 de setembro, o caso do golpe militar do Chile que depôs e matou Salvador Allende, com os norte-americanos por trás. Muita gente também divulgou sobre o 11 de setembro chileno. É meio paranóico, alucinado, mas chego a pensar que o fato do atentado às torres gêmeas ter acontecido logo num 11 de setembro, pode ter algo relacionado com uma tentativa de se abafar o 11 de setembro de 1973 do Chile. Talvez para apagar ou ofuscar essa página negra da “democracia” do tio San e revertê-los à condição de vítimas. Se não foi nada planejado, então temos aí um típico caso da sincronicidade jungiana.*

Dentro da lógica orwelliana, de quem controla o passado, controla o presente e o futuro, temos um outro 11 de setembro marcante a nosso favor: o aniversário de Adorno.

* O psicólogo-psiquiatra Jung, que divergiu em alguns pontos de Freud quanto à psicanálise, falava da Sincronicidade, algo relacionado, mas que transcende a coincidência. É quando dois ou mais fatos, de teor e conseqüências interligados, acontecem simultaneamente, parecendo haver fatores, energias, longínquos e afins que os motivaram.

Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno

Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno nasceu em Frankfurt sobre o Main em 11 de setembro de 1903. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Adorno é conhecido por ser membro da Escola de Frankfurt com Max Horkheimer, Jürgen Habermas, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, entre outros. Filho de um protestante de origem judaica e uma cantora lírica católica italiana, Adorno se destacou desde cedo nos estudos de música e filosofia. Estudou-a na Universidade de Frankfurt (atual Universidade Johann Wolfgang Goethe), além de psicologia, musicologia, e sociologia. Antes de se graduar conhece Max Horkheimer e Walter Benjamin. Antes da obra Kierkegaard publicou centenas de artigos sobre música. Em suas obras destaca-se perspectiva da dialética. Suas obras mais importantes são A idéia de História Natural, Minima Moralia, Dialética do Esclarecimento, Dialética Negativa e Teoria Estética. Adorno faleceu no dia 6 de agosto de 1969 em decorrência de problemas cardíacos.

Livros de Theodor Adorno

• Dialética do Esclarecimento MAX HORKHEIMER e THEODOR WIESENGRUND ADORNO
• Filosofia da Nova Música THEODOR WIESENGRUND ADORNO
• Palavras e Sinais: Modelos Críticos, 2 THEODOR WIESENGRUND ADORNO
• Educação e Emancipação THEODOR W. ADORNO
• Notas de Literatura I THEODOR WIESENGRUND ADORNO
• Teoria Estética THEODOR W. ADORNO
• Mínima Moralia: Reflexões Partir da Vida Danificada THEODOR WIESENGRUND ADORNO
• Indústria Cultural e Sociedade THEODOR WIESENGRUND ADORNO I
• Prismas: Crítica Cultura e Sociedade THEODOR WIESENGRUND ADORNO
• Espectro de Narciso na Modernidade: Freud a Adorno MONICA TEXEIRA DO AMARAL
• Adorno: o Poder Educativo do Pensamento Crítico ANTONIO ALVARO SOARES ZUIN, BRUNO PUCCI e NEWTON RAMOS DE OLIVEIRA
• Depois de Auschwitz: a Querstão do Anti-Semitismo em Theodor W. Adorno DOUGLAS GARCIA ALVES JR.
• Adorno NOVA CULTURAL (ED.)
• Experiência e Criação Artística TH.W. ADORNO
• Adorno e a Arte Contemporânea VERLAINE FREITAS

  Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno. Além de renomado sociólogo e filósofo, Adorno foi um respeitado musicólogo e compositor. Quem foi Theodor Adorno? Biografia de Adorno.

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