discutir através de dois artigos como se constituiu o processo de valorização/desvalorização do trabalho a partir do emprego de perspectivas que atuaram de maneiras variadas na conformação da cultura capitalista. Este primeiro artigo parte das idéias que foram apresentadas, acrescentando mais uns ou outros aspectos que talvez sirvam para ajudar na discussão.
Antes de tudo, concordo plenamente com a reflexão feita pelo autor sobre a idéia que se pode constituir a partir da leitura do clássico livro de Max Weber de que as religiões, ao contrário de servirem como desinteressadas disseminadoras dos mais puros anseios de igualdade e paz entre os homens, acabam, na verdade, fundamentando muito daquilo que muitos de nós tememos e detestamos no universo humano. Weber apontou para a noção de que as religiões e seitas protestantes contribuíram notavelmente para que o tal “espírito do capitalismo” emergisse triunfantemente e avaliou como o discurso teológico contido nas derivações religiosas que nasceram a partir das Reformas acabaram redundando em relevantes posturas no plano da economia através de sua influência na doutrina capitalista. Certamente Weber não foi o primeiro a relacionar religião, política e economia, mas em “A ética protestante e o espírito do capitalismo” ele apresentou elementos com uma contundência inovadora.
O protestantismo e o catolicismo possuem suas diferenças que se traduzem na forma como se organizaram econômica, política, social e culturalmente as sociedades que se constituíram com base em tais alinhamentos religiosos. Gilberto Freyre traçou uma classificação curiosa para diferenciar as sociedades que se constituíram a partir do catolicismo e do protestantismo. Ele passou a classificar as sociedades católicas como dionisíacas e as protestantes como apolíneas, ambas opostas em muitos aspectos, apesar de cristãs. Freyre tomou os exemplos de colonização que foram implantados nas Américas para tentar demonstrar as diferenças entre os modelos de sociedades dionisíacas e apolíneas, sendo colônias como o Brasil e os Estados Unidos ilustrativas sobre como se verificavam e operavam as concepções distintas que acabaram efetivamente construindo duas sociedades acentuadas por diferenças entre si, mesmo que ambas já possuíssem uma população indígena anteriormente à chegada dos colonizadores europeus que implantaram nelas o trabalho escravo de africanos neste Novo Mundo.
Segundo Gilberto Freyre, as sociedades apolíneas são caracterizadas por suas feições racionais, pragmáticas, austeras, limitadas capacidades adaptativas e assimilativas e são menos capazes de lidar com a diversidade. Já as sociedades dionisíacas, seriam aquelas onde se verificam maiores capacidades assimilativas e adaptativas, além de serem mais dotadas de plasticidade e apelos ao aspecto emocional. Estas observações feitas por Gilberto Freyre podem ser relacionadas ao que já fora percebido por Max Weber a respeito das diferenças elementares entre a moral católica e a protestante, embora o foco principal das diferenciações observadas por Freyre e Weber aponte para fenômenos e aspectos distintos. Freyre buscava entender, por exemplo, o porquê do processo de miscigenação que se verificou nas colônias ibéricas e católicas em oposição a segregação que se viu nas colônias anglo-saxônicas e protestantes, enquanto Weber tentava avaliar o grau de relação entre desenvolvimento capitalista e a moral protestante, observando que o protestantismo impulsionou o capitalismo ao impor uma série de perspectivas que destoaram do que se verificava nas sociedades católicas. Em ambos os casos, perceberam Weber e Freyre que os resultados que encontraram eram derivados das diferenças básicas entre as posturas dos protestantes e dos católicos quanto a forma de constituírem a condução de suas vidas e de encarar o mundo sob as óticas que suas religiões lhes proviam.
Daí se pode concluir que se por um lado as sociedades católicas presumivelmente tenham possibilitado maiores condições de interação racial, como o que ocorreu no Brasil, por outro lado as sociedades influenciadas pelo protestantismo possibilitaram maiores condições para o desenvolvimento do capitalismo, como foi o caso dos Estados Unidos. As idéias de Weber e Freyre se complementam ao vermos nelas algumas semelhanças que ajudam a reforçar a noção de que as bases notadas nas duas espécies de sociedades foram determinantes para que se percebam em tais bases os elementos que contribuíram para a construção das feições econômicas verificadas nas sociedades católicas e protestantes.
Acrescente-se ainda mais uma distinção, desta vez proposta por Sérgio Buarque de Holanda, de que há dois princípios que concorrem para a caracterização de uma sociedade. O princípio aventureiro enfoca uma postura segundo a qual os fins possuem maior interesse que os meios, que atraem intensamente a atenção do princípio trabalhador. Estes são princípios opostos que até “se combatem de morte”, embora possam atuar em maior ou menor grau e em variadas combinações entre si, como acrescentou o autor de “Raízes do Brasil”. A existência de tais princípios está contida no plano das idéias e, ainda conforme Buarque de Holanda, “os dois conceitos nos ajudam a situar e a melhor ordenar nosso conhecimento a respeito dos homens e dos conjuntos sociais”.
A ética do trabalho e a ética da aventura, naturalmente, são opostas. Aventureiros e trabalhadores atribuem valores morais distintos a determinadas atitudes tais como a ânsia por resultados imediatos, estabilidade e a realização de proezas audaciosas. Certamente, estas diferenciações são responsáveis por distintas delineações quanto ao comportamento de sociedades que sejam orientadas ou influenciadas por algum destes princípios de forma dominante. A caracterização das sociedades apolíneas protestantes está associada ao princípio trabalhador numa intensidade muito maior que as sociedades dionisíacas católicas, mais relacionadas ao princípio aventureiro.
Expondo parca e sumariamente tais noções a respeito de diferenciações relativas ao protestantismo e ao catolicismo e sobre os princípios de trabalho e aventura como elementos capazes de agir de forma a moldar a dinâmica de uma sociedade e os meios que nela atuam através de valores tais como o trabalho e a produção, somos tentados a concluir que sob o protestantismo se construiu um modelo de sociedade onde se valoriza muito mais o trabalho, ao passo em que nas sociedades católicas o valor dado ao trabalho é de uma intensidade muito menor, aliás, o trabalho chega a ser mesmo desvalorizado.
Muito do que se aponta como virtude do trabalho, contudo, é objeto de contestações que apontam o emprego da valorização do trabalho como discurso apropriadamente empregado para justificar a preponderância do capitalismo. Este será o tema abordado na seqüência deste artigo.
Leia também: O trabalho enobrece o homem? - Parte 2
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