O Anticristo e o Brasil - "...eu sou, em grego, e não apenas em grego, o Anticristo..." - assim se autodefiniu Friedrich Nietzsche em Ecce Homo < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Fabrício Alves - Publicado em 02.02.2004

"...eu sou, em grego, e não apenas em grego, o Anticristo..." - assim se autodefiniu Friedrich Nietzsche em Ecce Homo (De como a gente se torna o que a gente é), um dos mais conhecidos filósofos alemães da história, um crítico voraz de toda a espécie humana, da religião, da moral, e principalmente, dos alemães.

Para Nietzsche, os Alemães arrancaram da Europa as conquistas e o sentido da
  Friedrich Nietzsche, o anticristo
 


 

última grande época, a época da Renascença, eram culpados da irracionalidade anticultural, do nacionalismo, da política caseira... criticou também Lutero por ter restabelecido a igreja, e assim, ter ajudado indiretamente a sucumbida Igreja Católica voltar com toda a força, trazendo de volta todos os seus valores morais e cristãos...

O asco de Nietzsche chegava ao extremo de, mesmo sendo filho de alemães, alegava ser judeu, apenas para se distanciar ainda mais do povo alemão, que valorizava menos suas obras literárias que os povos vizinhos. Mesmo com essa pouca influência em sua própria pátria, a maior parte da classe operária da Alemanha na época já havia lido algum livro de Nietzsche, a população tinha um nível cultural alto, destacavam-se ainda nessa época compositores, pintores e artistas respeitados em todo o mundo, como por exemplo o compositor Wagner, inicialmente um dos ídolos e posteriormente mais um objeto de críticas de Nietzsche, devido ao seu xonofobismo.

Nietzsche odiava a Alemanha.
Nietzsche nunca conheceu o Brasil.

Nietzsche provavelmente não teria conseguido reunir em um só livro todas suas críticas humanas, culturais e religiosas, caso tivesse nascido ao final do século 20, no Brasil. Faltaria espaço para descrever séculos de desvalorização da cultura, da falta de criatividade de nossos pintores, escritores, escultores, músicos, salvo meia-dúzia destes. Precisaria também de um livro especial para descrever como o brasileiro se tornou aquilo que ele realmente é: "humano, demasiado humano."

O filósofo alemão poderia também procurar as origens dessa "Transvaloração de todos os valores" em nosso povo. Seriam os governantes os culpados? Mas não somos nós que os elegemos? Ou seria a mídia? Os veículos de comunicação através da história teriam alguma influência sobre a mente de todos nós? Ou eles apenas foram adequados a transmitir aquilo que temos capacidade de compreender?

Poderia ser ainda a falta de nacionalismo de nosso povo... Bom, se isto resolvesse algo, a Alemanha teria progredido culturalmente de uma maneira incrível durante o período do nazismo, algo que a queima de livros, a cegueira da população diante do sistema e a caça aos artistas "decadentes" não permitiram.

Onde estaria então o problema?

Nietzsche morreu após sérios problemas mentais, que o atingiram fortemente durante os seus últimos anos de vida. Talvez o "excesso" de problemas com os alemães e a sociedade da época tivesse causado isto.

Quanto tempo será que o filósofo mais crítico de toda a história sobreviveria vivendo no Brasil, e como ele aprenderia a sobreviver nessa sociedade deteriorada, violenta e aculturada?

O Brasil precisa urgentemente de um Nietzsche, não só para criticar e cobrar todas essas coisas, que já são corriqueiras, mas também para acrescentar algo realmente útil à nossa literatura, a nossa cultura e ao nosso desenvolvimento humano, nem que para isto, precise “bater” duramente em todos os pontos fracos de nosso sistema.

Leia também: Nietzsche, Foucault e a história - Viegas Fernandes da Costa

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