O trabalho enobrece o homem? - Sobre o ensaio "Para que trabalhar?" de Max Weber - Parte 2: O trabalho braçal, o trabalho intelectual e o ócio < Artigos < Duplipensar.net
 

 



Artigo sobre o ensaio "Para que trabalhar?" de Max Weber
Parte 2: O trabalho braçal, o trabalho intelectual e o ócio

Paulo Alexandre Filho - Publicado em 23.01.2004

“O trabalho enobrece o homem”. Este ditado tão enaltecido, esta frase de efeito repetida orgulhosamente, ressalta a capacidade que tem o trabalho de engrandecer o indivíduo em muitos de seus mais pronunciados valores. Então além de prover as condições materiais de subsistência, o trabalho contemplaria também a dignidade do trabalhador e
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se converteria numa verdadeira e orgulhosa dádiva por ele desfrutada, uma dádiva que transforma a natureza e gera riquezas – ainda que estas riquezas sejam por vezes desfrutadas por outrem.

Esta lógica floreada de dignidade do trabalho é, para alguém como Bertrand Russell, uma mera ilusão convenientemente orquestrada e empregada para ludibriar os trabalhadores ao longo de várias gerações. Uma ilusão patrocinada pelas elites, pois estabelecer este tipo de percepção serviu exatamente para aplacar os pobres, isto é, foram os ricos quem pregaram o discurso da dignidade do trabalho para os pobres “enquanto tratavam de se manter indignos a respeito do mesmo assunto”. O trabalho enobrece, mas os nobres não trabalham – ou pelo menos não realizam a mesma natureza de trabalho a qual se dedicam os pobres. Então emerge uma distinção das atividades desempenhadas pelas classes sociais.

Desde os tempos clássicos do florescimento da cultura ocidental, o trabalho veio passando por construções e interpretações variáveis. Se no período pré-socrático (VI a V a.C.) havia uma noção que associava de maneira harmoniosa técnica e especulação abstrata, esta visão não durou através dos períodos seguintes. Era comum na Grécia de então que as classes ligadas à manufatura, ao artesanato e atividades comerciais tivessem respeito social e até detivessem o poder nas polis. Sólon, um grande reformador das leis em Atenas, chegou a estabelecer que nenhum filho teria obrigação de garantir a subsistência e o amparo a seu pai na velhice se este não houvesse lhe ensinado um ofício, indício que demonstrava a importância de uma profissão e do trabalho na sociedade grega naquela época. Um conflito conceitual em torno do trabalho foi travado ainda na Grécia. De um lado debatia-se a noção de que o trabalho deveria ser valorizado por ter relação ao conhecimento, de outro lado, contudo, o trabalho era desvalorizado como uma atividade inferior relativa à sua prática física irrefletida e mecanizada e a segunda perspectiva acabou prevalecendo. A técnica se afastou da abstração, o trabalho físico, em conseqüência, se divorciou do trabalho intelectual. A escravidão e o emprego de cativos no desempenho dos trabalhos físicos foi o grande fator a deteriorar o valor do trabalho para a cultura ocidental. Deste modo, o trabalho físico passou a ser desempenhado por indivíduos dos estratos sociais mais pobres e inferiorizados enquanto os trabalhos de natureza intelectual couberam a quem estava em condições de dirigir a vida social, política e econômica das sociedades. O que se verificou em Roma após a consolidação de suas conquistas no século II está também relacionado a este fato. A noção positiva de “labor” foi suplantada pela lógica aviltante da noção romana de “trabalho”, termo que deriva de um instrumento utilizado para dar tração a bois empregados no transporte de cargas, o “tripalium”. Esta noção sobreviveu aos tempos e a separação entre os tipos de trabalho também permaneceu viva.

Há aquelas atividades que possuem um caráter mais operacional e físico, atividades que o antropólogo e economista Thorstein Veblen classificou como industriais e que Bertrand Russel considerou como um tipo de trabalho que “modifica a posição dos corpos na superfície da Terra ou perto dela”. Estes trabalhos físicos, repetitivos e corriqueiros, trabalhos que não exprimem proeza ou imponência são executados pelos pobres, a maioria da massa trabalhadora. O segundo tipo é “o que manda que outras pessoas façam o primeiro”, trabalhos que abrangem atividades governamentais, militares, religiosas, de controle e exploração de propriedades, enfim, atividades que se destacam e se distinguem dos trabalhos físicos ordinários. O segundo tipo das atividades é encarado como sendo composto por ofícios nobres, dignos, escapam à vulgaridade própria das atividades industriais mesmo com a falaciosa pregação de que “o trabalho enobrece”. E não é casualidade que o primeiro tipo de trabalho seja “desagradável e mal pago” enquanto o segundo seja “agradável e muito bem pago”, como mais uma vez distingue Bertrand Russell. Esta distinção é muito bem difundida tanto entre a elite quanto entre a classe trabalhadora.

O camarada russo I. Kudriavtsev achava que a contradição entre trabalho físico e intelectual era um fenômeno histórico e que ela havia surgido com a divisão da sociedade em classes, concordando então com o que já havia sido observado tanto por Engels quanto por Veblen (que não era comunista). Acrescentou ainda que o desenvolvimento do capitalismo acentuou esta contradição, considerando que a força de trabalho, nas condições criadas e impostas pelo capitalismo, passou a ser a mercadoria mais explorada e usurpada. Kudriavtsev, um stalinista inveterado, acreditava que o socialismo iria superar a diferença entre o trabalho físico e o trabalho intelectual e achava que seu líder Stalin estava dando progressivos passos neste sentido (seu artigo “Pela supressão da diferença essencial entre o trabalho intelectual e o trabalho físico” foi publicado em 1955). Argumentou que a base para a existência desta distinção havia sido combatida, isto é, a propriedade privada dos meios de produção havia sido seriamente derrotada na URSS, portanto, impondo uma nova relação de produção sem que existisse a exploração injusta da força de trabalho. Além do mais, observou que a educação havia sido democratizada sob o regime socialista e que os intelectuais da nova ordem soviética integravam também uma nova camada intelectual proveniente dos meios operários e camponeses – “intelectuais do povo”. Estes “trabalhadores intelectuais” não discriminavam nem se opunham aos trabalhadores manuais, ao contrário, estavam todos unidos pela supressão da noção de desvalorização do trabalho, que se tornou um “ponto de glória, de valor e de heroísmo”.

Também sob o socialismo soviético houve a evocação do trabalho como agente valorizador do homem. O trabalhador virou herói, mas, apesar do discurso, continuava a haver distinção entre trabalho intelectual e físico. A forte importância da burocracia do PC soviético era preponderante e sua composição básica era de intelectuais. Mesmo considerando a existência das kokhozes e das sovkhozes onde os trabalhadores atuavam de maneira mais integrada e onde sua força de trabalho era revertida em benefício coletivo, não se pode negar que uma elite intelectual continuou a ter mais influência e participação no comando da URSS, afinal, alguma contradição entre o trabalho físico e intelectual continuou a existir, ainda que sob novas condições e orientações políticas. Se a prática soviética não correspondeu à retórica comunista relativa ao trabalho com exatidão, pelo menos a exploração foi atenuada (a jornada de trabalho soviética chagou a ser reduzida para 7 horas diárias).

Das distinções entre as atividades que caracterizam as classes sociais deriva a noção de que a elite econômica, comparada à classe trabalhadora, é uma verdadeira classe ociosa. Trata-se de uma classe que “desfrutava vantagens que não tinham qualquer fundamento na justiça social, o que tornou essa classe inapelavelmente opressora, limitou seu sentido de solidariedade e levou-a a inventar teorias para justificar seus privilégios.

O sentido de contaminação moral do trabalho é retrato evidente da divisão das classes sociais e do estabelecimento dos padrões de valorização e dignificação dos indivíduos que orbitam nestas classes. Mas se há glória no ócio, então o que seria do discurso de que o trabalho enobrece o homem e de que a ociosidade é mãe de todos os vícios? A preguiça, afinal, não é um pecado capital? Há possibilidade de defender o ócio para quem está fora da classe ociosa? Pois, como já defendeu Bertrand Russel, este tipo de noção que visa ressaltar o trabalho e denegrir a ociosidade não é sincera já em sua origem, pois ela parte de quem, na ociosidade, nutre-se do trabalho alheio. Paul Lafargue e seu posicionamento comunista, independente de sua condição de genro de ninguém menos que Karl Marx, defendeu os trabalhadores exatamente do trabalho. Segundo ele, os desvalidos se encontram atormentados por uma espécie de loucura: “Esta loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole. Em vez de reagir contra essa aberração mental, os padres, economistas, moralistas, sacrossantificam o trabalho”. Loucura. Eis que mais uma possibilidade nos surge: o domínio da sanidade dos ociosos prevalece sobre os loucos trabalhadores? Segundo Lafargue isto é absolutamente verdadeiro. Sua conclamação pela ociosidade contra a loucura do trabalho acabou tomando uma dimensão divina, pois ele tomou um exemplo insuperável: lembrou que o próprio Deus decidiu descansar eternamente após seis dias de trabalho na criação do mundo, num supremo exemplo de preguiça.

Bertrand Russell acreditava que o ideal da vida não seria o desintegrar-se completamente pelo trabalho, mas o desfrutar da liberdade de momentos nos quais se estaria completamente livre do trabalho. Defendeu a classe ociosa, apesar de se manifestar contrário ao sentido de injustiça social que fez “diminuir enormemente sua excelência”, porque ela contribuiu notavelmente para construir o que se entende por civilização e mais: “Ela cultivou as artes e descobriu as ciências, escreveu os livros, inventou as Filosofias, aperfeiçoou as relações sociais. Mesmo a libertação dos oprimidos foi geralmente iniciada a partir de cima. Sem a classe ociosa, a humanidade nunca teria saído da barbárie”. A idealização de uma vida livre e ociosa, sem a torturante obrigação do trabalho, sempre foi projeto para poucos. O teatrólogo checo Karel Capek vislumbrou em sua peça Rossum’s Universal Robots, de 1920 (da peça originou-se o termo “robô”), um ambiente livre do trabalho, que era realizado por máquinas concebidas à imagem e semelhança dos homens.

Nada mais agradável que imaginar um mundo sem o trabalho, esta antítese de liberdade. Contudo, o estágio no qual vivemos, com suas exigências sobre nossos meios e condições de subsistência, requer que tenhamos o trabalho como fonte. A tecnologia tem atuado no sentido de viabilizar mais conforto e melhores condições de vida ao mesmo tempo em que reduziu postos de trabalho, tendo o desemprego como um de seus mais notáveis subprodutos. Para um desempregado não importa se sua força de trabalho será explorada nem se a jornada de trabalho irá lhe privar de tempo que seria ociosamente desfrutado para nos livrar da barbárie. A promessa de libertação do trabalho não deixa de ser contraditória e paradoxal independentemente se proposta por marxistas ou neo-hedonistas.

Leia também: O trabalho enobrece o homem? - Parte 1

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