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Silas Corrêa Leite - Publicado em 16.06.2004


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Por ocasião da data que corresponderia ao seu século de vida, se estivesse vivo no findar do ano passado, o país todo sofreu - sob o foco e a febre da mídia - um verdadeiro “Ano Drummond”, então vivenciado como nunca se viu antes, tornando repentinamente (e sem fazer ao seu estilo e gosto) um poeta Cult bem marotamente algo Pop.

Curto e grosso: Banalizaram Drummond.

O que deveria ser um confeito de justíssima homenagem, virou uma espécie assim (como se diz lá em Itararé) de “carne de pescoço”. No programeco brega de rádio, tava lá o locutor conservador recitando o bendito “E Agora José?”. Ao fim do sem seca Jornal Nacional, cada dia era uma descoberta bem espúria dessa invenção chamada poesia, banalizada até atropelos e incorreções no imediatismo de últimas horas.

Era criança bocejando ao declarar não entendendo patavinas a tal “Pedra No Meio do Caminho”; era um ou outro poema do velho mestre de Itabira musicado às pressas e cantado mal-e-mal num horror pseudopop tamanho. Ou ainda uma professorinha desses quintais alhures querendo fazer jogral com a poesia-crônica de um Drummond extremamente subjetivo e com sua poesia de contradições e enluos, pouco convencional. Falando sério: aqui e ali, foi duro de agüentar. Em alguns casos até mesmo mataram novamente o Drummond que eu adoro.

Isso quando não, também no açodado do momento, um jornalista meio babaquara recitando seu repertório de um Drummond velho ou água-com-açúcar (nem tudo pode ser perfeito), quando não, trocando um poema de outro poeta pelo acervo de Drummond, ou ainda, pior, declamando uma croniqueta apócrifa dizendo que era um mimo de Drummond, quando era clandestina, falsa, piegas. Haja paciência.

Claro que Drummond é um dos dez melhores poetas do Brasil em 500 anos, para dizer o mínimo, claro que ele ser lido e cantado em verso e prosa é uma beleza, tudo isso se não fosse mais um enviesado da mídia não tendo mais o que fazer, o que criar, o que investigar (como as falcatruas da Cultura e Educação no reino inumano do tucanato) resolveu colocar o poeta da pedra no enfoque de tantas honras e também de tantos padecimentos vernaculares e constrangimentos de todas as formas inimagináveis.

Gosto de ler poesia, não de ouvi-las declamadas ou teatralizadas. Drummond era de um intimismo universal, mas ainda assim poetaço de de ser lido, curtido, alimentando-se homeopaticamente com suas jazidas, não com enxurradas de homenagens e veiculações bobas querendo procurar no Drummond o que nem mesmo o Drummond se sabia, muito menos a metáfora pedra de seu caminho como investigação de rupturas ou jogo de palavras cruzadas, até porque, ele era mesmo um trocadilhista de mão cheia e com fino humor irônico no tranversal de sua cabeça única.

Assim, acordar Drummond, beber Drummond, comer Drummond, ver a empregada com o livro rifado do sebo dele, ver o cidadão de rua citando-o porque ouviu no decoreba do filho por força da imposição do open doping da mídia, foi um desespero. Pobre Drummond.

Talvez nem comemorasse mesmo o aniversário se fizesse vivíssimo o centenário em carne e osso e pedra, mas saber-se atacado de todas as formas, lambido pela fama temporária, ocasional e tendenciosa (para dizer o mínimo), depois certamente cair no esquecimento (brasileiro tem memória curta) foi muito chato.

A pessoa dúbia do Drummond. Quem não é? A filha com nome de flor. A mulher mal reconhecida. A amante (quem?) que talvez fosse e seria, no entanto, contudo, todavia, porém...ninguém sabe, ninguém viu. Chutes. A vida em cargo público. As amizades em verde-amarelo. O seu lado coisa, o seu lado socialista. Os amigos mineiros e suas panelas de ferro. As entradas e bandeiras. Até um estátua fizeram pra ele num calçadão chique do Rio entojado de um ocasional turismo bocó com seus piscinões de águas pardas. Foi um angu de caroços. Que tristeza.

Drummond que faria cem anos em 30/1202, da Rosa do Povo ao Farewell, das análises certinhas pra boi dormir, às falsas conversas fiadas dele, o que ele quis desdizer no que disse, os erros e acertos, as iluminuras e a tez chão. Aventuras e lambanças. Ave Drummond.

Isso para não dizer das açodadas imperfeitas pajelanças de ocasião, com a mineiridade forte da mídia trocando alhos por manjedouras, momentos por difusões, créditos por invencionices, sempre, claro, tudo muito bem roteirizado ao sabor do vento favorável, no oportunismo dos entrelaços. Sai de baixo.

O sujeito empírico da persona da Drummond. Ele era só o que era?. Ou mal se conduzia entre o ser de si, os self de um não-lugar e o pensar um humanismo de resultados? E o lado sombra de Drummond? Reflexões e alusões. E ainda bobas ilações do arco da velha.

Drummond de terno e gravata, Drummond de sonhos e esperanças. Um vaidoso Drummond oficineiro no tear de seu íntimo revisitado, sempre, a poética indizível da contradição, a alma obscura - ou só confete no palavreiro, com o vetor irônico de seu lagar: as caras e as coragens... Afinal, que Drummond há em Drummond? Decifra-me e eu te devoro...

Aquele só nosso, que amávamos como um butim especial, de poucos, de especiais, sentidores e sensíveis, tornou-se uma aventura popularesca sob o manto diáfano da fantasia charlatã, e de uma mídia que gosta de datas, pontos, spot light, camarins e coxias, e pouco de difundir a cultura literária, principalmente a poesia de qualidade propriamente dita.

A melancolia-angústia de Drummond. A pá de cal sobre todas as tentativas de revelar seu lado avesso. O seu sentido plural-comuntário de vida, sem verniz político assumido sob uma as/piração explícita e prático-funcional.

O Drummond faquir nos arames e pregos de sua teia excepcional de vivendas e noiteadeiros. Um Drummond lúcido, por isso mesmo brigando com palavras, cortando-as, interrompendo fluxos e rebites emocionais, para tocar o cerne do humanus enquanto finito bicho também. Um Drummond ora agnóstico, ora no sagracial de sua inspiração privilegiada tocando os euses

Quem era Drummond? Se ele soubesse, não seria poeta, claro. Pior: a mídia entrando de roldão em sua eventual magna data, deu um banho de inversão de valores, mesmices repetitivas, tocou fios pouco críveis, popularizou a banalidade, alimentou lucros, impulsionou curiosos a beberem do nectar dos deuses engodado pelo furacão Drummond, enfim, a sua bela poesia foi virada de cabeça pra baixo, e pouco valoraram mesmo da qualidade dele como criador, de seu fazer poético, de sua alma nau procurando os fungos desse mundo tão conturbado antes dele, e, certamente ainda mais tenebroso e amoral, com lucros injustos, feudos palaciais, riquezas impunes - muito ouro e pouco pão - depois dele, principalmente por causa das camufladas mineirices políticas liberais de ocasião, a partir de historicidade aprendidas lá nos idos das trevas da inquisição, das derramas e barrocas, das fugas de escravos a argumentações ilícitas nos clubes dos egos, até esses tempos em que uma data manda mais que o conteúdo em si, em que o nome foi pop, quando, realmente, o seu esplêndido material de trabalho ainda fica restrito a feudos editoriais e ainda assim a preços exorbitantes.

Banalizaram Drummond. A Mídia em geral exagerou nas doses do óbvio ululante. Nem por isso deixarei de amá-lo, claro. Mas, confesso, por esses dias de quarentena - até que o esqueçam, que o deixem em paz - vou voltar a ler Rilke, Neruda, Lorca, Yets, Ezra, Pessoa, Silvia Plath, e, das magistrais pratas da terra brasilis, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Castro Alves, e outros tantos.

E dos vivíssimos e saradinhos, Manuel de Barros, Carlos Nejar, Soares Feitosa e Ledo Ivo, além dos novos como Lau Siqueira, Erorci Santana, Ana Peluso e tantos outros inventores do inexistente...

E, fazendo essa espécie de ocasional retiro espiritual pós-dumondiano, se alguém for louco de, num apurado de falsa cultura de ocasião, me recitar na bucha “E Agora, José?”, vou guardar meus maus bofes, curtir minha biles cervejiana e berrar, cobrando do próprio homenageado:

E agora, Drummond?


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