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Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Bakunin, Deus e o Estado  



Gabriel Passetti - Publicado em 05.11.2003


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Vivemos em tempos de questionamento do papel dos Estados com a criação dos blocos econômicos, com o neo-liberalismo e com o crescimento das ONGs; em tempos de crescimento dos conflitos religiosos no mundo - vide Oriente Médio, Afeganistão, Irlanda, etc - e de mudanças na religiosidade brasileira - expansão das igrejas evangélicas e fortalecimento dos Carismáticos na Igreja Católica; em tempos de rápidas e assombrosas mudanças na ciência, com as técnicas de clonagem e a engenharia genética. Nestes tempos, a leitura do clássico Deus e o Estado de Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) se faz cada vez mais interessante, atual e reveladora.

Escrevendo na Europa da segunda metade do século XIX, Bakunin apresenta-nos uma crítica que é um retrato do momento em que passava aquela sociedade, na qual vivia e contra a qual lutava.

Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) Nesta sociedade, as implicações da Revolução Francesa já faziam-se muito presentes, com idas e vindas do poder nas mãos de burgueses e monarquistas na França, além de debates no campo ideológico e dentro do movimento operário internacional, que faziam-se cada vez mais intensos - principalmente entre as correntes vinculadas ao pensamento do próprio Bakunin e aquela vinculada a Karl Marx e Friedrich Engels. A Revolução Industrial já mostrava a sua faceta mais forte e cruel em países como a Inglaterra, a Alemanha e a França. A crítica de Bakunin fundamenta-se na relação intensa entre o poder do Estado e de sua oligarquia dirigente com o poder da Igreja (e/ou da religião) e o do clero, ambos grupos defendendo seus próprios interesses contra aqueles da maioria da população.

Igreja e Estado estão desta forma intimamente ligados desde suas origens, dependendo e justificando-se mutuamente. O autor trabalha fundamentalmente com a Igreja Católica e com algo das Igrejas Protestantes, entretanto, como veremos, tal relação Estado-Religião pode ser feita em todas as religiões com relação aos seus Estados.

Deus e o Estado apresenta para seu leitor alguns pontos principais de discussão. Além da óbvia relação entre religião e Estado que está delimitada no título do trabalho, questões envolvendo a teoria anarquista de Bakunin, o papel da ciência como substituidora da religião e a legitimidade das autoridades são discutidas na obra.

Materialismo e Idealismo

A fundamentação teórica para a discussão entre a ligação entre Estado e Religião passa inicialmente pela questão da origem das religiões. Estas, se dizem idealistas e se contrapõem àquilo que seria o materialismo. Seu ideal seria o passado, e a sociedade viveria em uma queda contínua a partir do ponto inicial - a Criação.

Entretanto, as sociedades humanas ao desenvolverem-se, passam a negar as suas origens primatas, selvagens e ignorantes para desejarem o futuro idealizado. Assim, as origens passam a ser vistas como um ponto negativo para a sociedade, e o inverso deste momento, ou seja, o ponto final da ascensão se torna o ápice. Está assim invertida a questão teológica envolvendo o materialismo e o idealismo.

Os idealistas (religiosos e defensores da "cidadania burguesa"), que teriam como origem e explicação para tudo um ideal, Deus, no seu desenvolvimento passam a negar esta origem idealista para se aproximarem cada vez mais do seu oposto, o materialismo - fixação às coisas mundanas, ao despotismo e à brutalização da sociedade - enquanto que os materialistas (anarquistas), fariam o caminho inverso. Partindo do físico, da vida e do homem, buscam a idealização, a humanização e a emancipação social.

Assim, a ordem vigente foi invertida, mostrando-se que na realidade são os que se dizem idealistas aqueles que ligam-se mais ao material, e os materialistas são aqueles que na realidade buscam o ideal - a liberdade.

Ciência como solução e contraposição à religião?

Apesar de Bakunin viver em uma época de grande exaltação e deslumbramento com os descobrimentos da ciência, ele apresenta uma crítica ferrenha aos cientistas e à sua pretensa autoridade, anunciando o que viria a ser a ditadura da ciência tempos depois.

Ele usa a ciência como parâmetro para criticar a religião, afirmando que as leis naturais - que fazem a ciência - são aceitas por todas e regem a vida individual e da sociedade, sendo portanto o verdadeiro fundamento para o novo modelo de vida proposto. Ciência e religião são opostos, e a ignorância da ciência teria sido o motor gerador das crenças mais remotas em nossos antepassados.

Apesar do elogio à ciência e do reconhecimento de sua importância, Bakunin alerta quanto ao governo a partir desta. Não há autoridade legitimamente imposta, e a autoridade de um cientista seria imposta. Mesmo os maiores gênios, no momento em que passassem a formar uma casta privilegiada e governante, começariam a dedicar-se menos à ciência e mais ao trabalho de manter sua posição social privilegiada.

O governo a partir da ciência faz-se, portanto, ilegítimo e desprezível, visto que este geraria somente uma nova casta privilegiada. A ciência não funcionaria como modelo de governo, visto que seus estudos baseiam-se na abstração e não na realidade, pensando esta realidade e não sendo esta realidade, pensando sobre a vida e não sendo a vida. Assim, deturpada, a imagem da vida e da realidade poderia ser manipulada. A vida social deve reger-se, então, a partir destes dois princípios e não da ciência.

Ela em si é uma autoridade por trabalhar com as leis da natureza, as leis da vida, mas quem trabalha com ela, o cientista, não pode ser tratado como autoridade.

A função da ciência deve ser unicamente a de iluminar a vida, e não de governa-la. Se a iluminação da ciência se faz de maneira desigual e cambaleante, então é preferível que não exista esta iluminação, portanto, se a ciência trabalha e existe somente para alguns, é melhor que ela não exista, para que não haja nem autoridade e nem hierarquia.

Bakunin não contesta a autoridade da Natureza, de suas leis e da vida, que são reconhecidas por todos - não impostas por Estados ou Igrejas - e assim são legítimas. A força natural, por ser a base da existência humana, não permite a desobediência. Por outro lado, as outras autoridades são contestáveis. Todas, desde o cientista até o senhor, não são autoridades inerentes ao homem ou à Natureza, não fazem parte da base da sua existência e portanto não tem porque existir.

Deus(es) e o Estado

A origem da religião está no desconhecimento de nossos antepassados do mundo que os cercava, das Leis Naturais. Assim, inteligência, vida, relações e movimentos saem da matéria, passam de serem meras manifestações naturais e tornam-se abstração: Deus.

Criado o plantel de deuses, o Homem não tinha conhecimento que ele próprio o havia criado, e passa assim a temê-lo e a ser seu escravo. Rapidamente, surge uma casta de intermediadores, que aproveitando-se da ignorância e da pobreza reinantes passa a utilizar-se da religiosidade para seu próprio proveito. Tendo os deuses se estabelecido no imaginário coletivo, surge o clero, os inspirados intermediadores da sabedoria dos deuses, ou seja, a autoridade e a hierarquia do conhecimento e da inspiração.

Com o passar do tempo, apenas a fundamentação moral não funciona mais para legitimar tal poder, devendo assim ser acompanhada da fundamentação da espada, do Estado, que é legitimado e legitima a religião, acompanhando seu modelo de hierarquização e autoridade. Ambos andam desta forma lado-a-lado. Na teologia nada é contestável, tudo é auto-explicativo. No Estado, nada deve ser contestado.

Todas as religiões têm um calcanhar de Aquiles: quando, como e porque o Ser divino eterno, infinito e absoluto, entediado de si mesmo resolveu criar o Homem? Nenhuma religião nem ninguém tem a resposta à esta questão, não há discussão, afinal os deuses seriam tão superiores que nos restaria apenas louva-los e não entendê-los. Mas, reconhecer que tudo o que é grande e belo é divino é desacreditar na potencialidade da humanidade, transforma-la na escória, no lixo, na oposição do poder total de Deus. E é exatamente contra isto que Bakunin lutava.

Os padres conduzem seu rebanho - nome um tanto pejorativo e demonstrador da visão dos fiéis como ignorantes e manipuláveis - e não sacrifica-se por ele, ao contrário, o sacrifica em nome de Deus e da Santa Madre Igreja.

A manipulação dos fiéis permite então a rápida acumulação de poder e propriedades nas mãos da casta dirigente, que passa a utilizar-se desta grandiosidade para buscar por novas formas de conquistar mais poder e fontes de riqueza, e encontra assim a formação do Estado como uma excelente base para administrar e justificar seu poder, fazendo com que em uma via de dupla mão, ambos - Igreja e Estado - beneficiem-se mutuamente do poder para conquistar ainda mais poder e mais recursos para seus dirigentes.

Passa-se então ao momento histórico dos Estados Religiosos, onde as Cruzadas, as Navegações, a Escravidão Moderna e a Exploração do Desconhecido são justificadas pela religião e aplicadas pelo Estado. O vínculo torna-se claro e inegável: a dominação é legitimada e estimulada pelas duas instituições.

Maximilien Robespierre Voltaire disse uma célebre frase: "se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo". Bakunin, rebate-a: "se Deus existisse, seria preciso aboli-lo", afinal, "se Deus existe, o homem é escravo; ora, o homem pode, deve ser livre, portanto, Deus não existe" (p. 29). Voltaire, entretanto, não compreendeu que o Deus que ele buscava não era o dos idealistas, e sim o dos materialistas, ou seja, o Estado. Este novo deus foi criado, assim com o Outro, e sua forma mais moderna foi a sugerida por Russeau e aplicado fielmente por Robespierre.

A Revolução Francesa em seu princípio, derrubou Monarquia e Igreja. Mas, estabelecida no poder, a burguesia percebe que para preservar seus recém-conquistados privilégios contra a massa proletária ainda insatisfeita, não bastaria somente o Terror, a guilhotina e o rifle, mas sim também a moral. Abrem-se então as portas da França para o retorno da Igreja, que legitimará então mais uma vez o Estado e seu poder despótico.

A educação passa a ter com a passagem do tempo cada vez mais importância, visto que a qualificação dos trabalhadores se faz necessária ao mesmo tempo e que o controle destes torna-se cada vez mais complicado.

A Escola passa, então, a funcionar como órgão legitimador da ideologia estatal, ensinando que Deus, para consolar-nos dos problemas da vida terrena enviou-nos os Santos Governantes, que devem ser louvados e reverenciados, Santos Homens como os Reis Ibéricos, os Czares e Napoleão!

O poder, a onipotência, a onipresença e a onisciência fazem com que Deus seja obviamente infinitamente maiores e melhores do que todos os homens juntos jamais serão.

Este poder total e avassalador entra na mentalidade das pessoas, que passam a compreender que o controle e o poder total do Estado também são fenômenos normais assim como Deus.

Nos nossos dias, a discussão em torno dos pontos levantados por Bakunin faz-se cada vez mais intensa e mais importante. Conflitos religiosos proliferam-se pelo mundo ao mesmo tempo em que conflitos anti-globalização tornam-se cada vez mais fortes e violentos. Ciência, Estado e Religião estão cada vez mais com uma ligação umbilical. A leitura de Deus e o Estado é cada vez mais atual, sendo uma boa base para a compreensão da força do Estado, das igrejas e seus discursos legimitizadores a partir do ponto de vista anarquista.

Artigo publicado em parceria com o site Klepsidra.

Bibliografia
• AVRICH, Paul: Anarchist portraits. Princeton University Press, Princeton, s/ data.
• GUÉRIN, Daniel: El Anarquismo. Nodan, Buenos Aires, 1975.
• HARRISON, Frank: The Modern State. Black Rose, Québec, 1983.
• NETTLAU, Max: La Anarquia a traves de los tiempos. Júcar, Madri, 1977.
• TOMASSI, Tina: Breviario del pensamiento educativo libertario. Associación Artística La Cuchilla, Cali, 1988.

Leia também:
Dilema do Estado - Flávio Calazans
O poder que cega - Jaime Leitão

Quem foi Bakunin?:

Mikhail Alexandrovich Bakunin nasceu em 30 de maio de 1814 em Premukhimo, Rússia. Bakunin é conhecido como um dos pais do anarquismo moderno.

Filho de proprietário de terras Bakunin teve acessos aos estudos e em 1837 começou a estudar a filosofia hegeliana. Três anos depois iria para a Universidade de Berlim estudar filosofia. Ali desenvolveu atividades políticas. Viajou pela Europa entre 1843 e 1848, onde pode conhecer Karl Marx e Proudhon. Em 1849 Bakunin foi preso e condenado à morte por sua participação na insurreição de Dresden. A pena de morte foi trocada pela sua extradição para a Rússia. Ficou preso em São Petersburgo e depois exilado na Sibéria, onde fugiu para o Japão e depois para a Suíça. Na Polônia não teve sucesso em organizar movimentos anarquistas. Em 1868 Bakunin fundou a Aliança Internacional da Democracia Social. Seu desejo era fundi-la com a Associação Internacional de Trabalhadores, na qual Karl Marx era líder. Marx e Bakunin se desentenderam durante o Congresso de Haia e Bakunin foi expulso da Associação Internacional de Trabalhadores.

Bakunin defendia a união de todos os povos eslavos e acreditava que os problemas sociais estavam na centralização da autoridade e do Estado. Para Bakunin a descentralização das organizações levaria o desenvolvimento dos homens. Bakunin criou associações para tentar unir os anarquistas de todo o mundo. Bakunin apoiou a Comuna de Paris em 1871. Retirou-se para Lugano em 1873 e morreu em Berna, Suíça, em 1º de julho de 1876.

"Pegue o mais ardente dos revolucionários, dê-lhe o poder absoluto. Dentro de um ano ele poderá se tornar pior do que o próprio Czar." M. A. Bakunin.

Livros de Mikhail Alexandrovich Bakunin selecionados:
• Estatismo e Anarquia - MIKHAIL A. BAKUNIN
• Deus e o Estado - MIKHAIL A. BAKUNIN