Consumidor, um sofredor. Eleitor, um enigma < Artigos < Duplipensar.net Português do Brasil  English 
 

 
Consumidor, um sofredor. Eleitor, um enigma Consumidor, um sofredor. Eleitor, um enigma Consumidor, um sofredor. Eleitor, um enigma Consumidor, um sofredor. Eleitor, um enigma Consumidor, um sofredor. Eleitor, um enigma Consumidor, um sofredor. Eleitor, um enigma  



Mark Manahan - Publicado em maiode 2002


  Publicidade

Em tempos de relações paroquiais no mundo, onde cada um critica no outro só enxerga o seu próprio lado e perde-se a visão de conjunto, é bom aderir e dar uma olhada nos chamados problemas estruturais do país. O capitalismo é selvagem só na hora da produção ou na hora da venda, em que o consumidor é tratado como perfeito e legítimo otário?

Jamais esqueço certo homem do Itamaraty que atuava como ministro do planejamento - ou da economia? Aqui em Brasilis e quase-Brasilis dá tudo no mesmo... - quando abriu a boca pra disparar "empresário é tudo bandido" . E referia-se a questões de fisco, etc. Eu diria que vai mais além. O próprio sistema não apresenta uma fronteira clara entre o que se pode e o que não se deve fazer. O estímulo pela realização do produto em países de fortes relações patrimoniais como os latino-americanos beira o tráfico de influência quando não é o próprio tráfico mesmo. Deve haver em algum lugar desse país histórias empresariais de sucesso sem burla às leis ou desrespeito aos consumidores dentro das leis. Deve haver pela probabilidade estatística, não duvido. Mas eu desconheço. Não sei qual o percentual que resistiria a uma auditoria séria IR/PROCON.

As famosas técnicas de comércio são bem ilustradas nas cenas de abertura do filme Nixon. Um bom vendedor vende qualquer coisa, e sabe por quê? Porque não importa O QUE ele está vendendo mas COMO ele vende. É a arte de passar lixo adiante e sair ganhando com isso. Os empresários e instrutores de técnicas comerciais agem ao que parece, na pressuposição de que o cliente nunca mais voltará, portanto deve-se tomar-lhe o dinheiro quase como num assalto. Tal cena se repete em todo lugar do mundo. Alguém entrega valor em troca de algo que dificilmente corresponde a expectativa montada em torno do objeto. É a propaganda. A diferença que pode existir é que em alguns lugares os abusos são severamente punidos mesmo quando estimulados. Creio ser o vendedor um esquizofrênico multidividido e extremamente duplipensado.

Se há algo bom na aparente sintonia geral acerca das eleições vindouras, é que se configura um aparente voto de protesto contra tudo o que disse acima e contra muito mais. Mas como cedo aprendemos a não nos alegrarmos muito, devo duplipensar a figura do eleitor como aquele que fica indignado pelo que é feito nos altos escalões e na padaria do bairro Mas quando vejo o ex-eleitor ou ex-militante guindado às posições de mando, percebo pelas suas atitudes que a indignação era ainda maior por não ser ele o que obtinha ganhos com as negociações escusas. Todo eleitor odeia o governo quando não se sente parte dele, o problema é: que tipo de parte ele queria ser? A parte podre?

Outro ponto a se repensar seria sobre as alternativas disponíveis. Há muito tempo que a urna eleitoral - eletrônica ou não - se me parece com uma gigantesca tábua de frios onde todos os canapés e iguarias servidos são intoleráveis ao meu paladar e fatais à minha saúde. E como sou péssimo na cozinha vou comendo aquilo que tem mesmo e vomito minhas mágoas no banheiro depois...

O problema do eleitor/consumidor é que se faz o pedido e se paga a conta sem saber ou pior, achando que se sabe o que será servido. Tal o retrato das eleições.

O que acontecerá no dia em que eu e os outros clientes nos recusarmos a comer o que está sendo servido? Por enquanto vou curtindo uma gigantesca fome...

[+] Envie este artigo para um amigo: