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Artigo sobre o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho
Márcio Neves - Publicado em maio de 2002


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É notório que, entre os presidenciáveis, Anthony Garotinho tem a preferência do eleitorado carioca. Lógico que esse eleitorado não está nem aí para quem enterrou R$10 milhões num lago artificial salgado. Mas vamos dar o braço a torcer: o projeto da casa & comida a R$1 é um apelo, mas muito atraente. Meses antes de ter deixado o governo para se candidatar a presidente, a "oposição" denunciava auditorias prevendo a bancarrota do fluxo de caixa do Estado. Ninguém estranhou que, depois de renunciar, o Garotinho tivesse a "visão" que "talvez o governo do PT não pague as contas". E, como não poderia deixar de ser um bom apagar de luzes, não poderiam faltar as inaugurações de benfeitorias que nem iniciadas foram. Uma placa e uma demão de tinta resolvem qualquer parada. Até hospital sem raios-X, centros cirúrgicos, aparelhos de esterilização e tal.

Como é possível manter a popularidade? A dobradinha mídia/populismo é receita de bolo. Onde está a mídia? Rádio. Garotinho é parceiro de Francisco Silva (Deputado Federal, PL-RJ), dono da Rede Melodia, uma rede nacional de rádios evangélicas, que no Rio de Janeiro é campeão de audiência entre todas as fm´s (vide os relatórios do IBOPE). Saído do Governo, Garotinho mantém seu ibope lendo trechos bíblicos durante todo o dia, além de uma conversinha matutina diária com os ouvintes. Ah, a família não foi esquecida: a esposa Rosinha também desfigura (sic) um programa sobre clássicos evangélicos, gastando todo seu "talento radialístico" e "conhecimento histórico" da música evangélica. Pronto, está garantida a empatia potencial com um público estimado de 20 milhões de crentes do Brasil, adestramento certo.

Para quê esse discorrimento desconexo (sim, vale o trocadilho)? Há poucos dias saiu a notícia de que José Serra conseguiu apoio no reduto do Garotinho. Detalhando: o presidenciável conseguiu o apoio formal das Igrejas evangélicas Assembléia de Deus, que numa estimativa pra lá de grosseira representa pelo menos 50% do eleitorado evangélico. Isto foi um soco no estômago do Garotinho em seu próprio reduto. Mas, vejam o rápido contragolpe de Garotinho e Rádio Melodia, líder do segmento e do Rio: por várias vezes ao dia é veiculado um calhau alertando os irmãos-ouvintes: "quando você precisa de ajuda, você consulta seu Pastor. Mas há algumas decisões que você têm que tomar por conta própria. Você vai deixar nas mãos de seu pastor decisões que afetam seu dia-a-dia, etc.?". Ponto para Francisco Silva. De forma duplipensada, estimula a rebeldia na Igreja em favor de seu parceiro Garotinho, jogando por terra o mérito da aliança conseguida por Serra. Como sequer chegamos ao meio do ano, vamos ver como brinca o Garotinho (que sofre pressões para deixar a candidatura, mas não larga o brinquedo).