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De volta para o futuro Ou como a política brasileira retornou aos anos 50
Paulo Diniz Zamboni - Publicado em setembro de 2002
Enquanto faltam apenas algumas escassas semanas para o primeiro turno das eleições de 6 de outubro, dúvidas mais do que relevantes ainda pairam no ar.
Por exemplo, será que os eleitores brasileiros já possuem candidatos para todos os cargos que serão preenchidos no próximo pleito? Ao que parece, somente a disputa presidencial é que está sendo objeto de atenção da mídia e dos eleitores, embora, da parte destes últimos, seja possível afirmar que é uma atenção carregada de dúvidas, como atestam as últimas pesquisas de intenção de voto, onde cerca de 30% dos eleitores não sabem dizer em quem votarão para presidente.
Outro ponto que chama a atenção, é o notório caráter eminentemente populista de todos os candidatos, no melhor estilo Getúlio Vargas.
Todos eles falam de criação de empregos, direitos sociais, direitos trabalhistas, apoiar o setor produtivo, estimular exportações, combater o capital especulativo, etc., obviamente utilizando-se do Estado, já sobrecarregado ao extremo, para conseguir tais proezas.
Quando eu ouço esses discursos, lembro-me de um filme onde o herói embarcava num carro (na verdade, uma máquina do tempo), e viajava até a década de 1950. Lá, em meio a uma série de peripécias, lutava o tempo todo para conseguir voltar para o futuro.
Pois é, a próxima eleição parece que vai funcionar como uma "máquina do tempo", onde, se dermos crédito aos discursos dos candidatos ao cargo máximo do país, seremos lançados de volta aos anos 50.
Conversas sobre "fixar o homem no campo", quando se sabe que o futuro aponta para sociedades cada vez mais urbanizadas, com uma agricultura moderna e altamente produtiva, é apenas mais uma das inúmeras pérolas que esses senhores estão soltando aos quatro ventos.
Um candidato afirmou que o país deve "buscar caminhos alternativos no mercado internacional, aproximando-se da China e Índia". Somente esqueceu-se de dizer que, quando necessitamos de crédito ou mercado consumidor para nossos produtos, nossos parceiros fundamentais são os EUA e os países europeus. Até porque, os referidos países asiáticos já estão envolvidos em negócios com os EUA e a Europa, e a participação brasileira nesses novos mercados, embora desejável, não seria suficiente para substituir os tradicionais parceiros comerciais. Esse mesmo candidato vive afirmando que o Brasil precisa priorizar o setor produtivo, em detrimento do especulativo. Muito bonito. Contudo, quem vai dizer onde os investidores devem ou não aplicar seu próprio dinheiro? Pela forma autoritária como o candidato fala sobre o assunto, não há dúvida que vai ser, para variar, "a mãe dos ricos", o Estado, quem vai definir isso. Claro que adotar políticas como diminuição de impostos (para estimular o setor produtivo), e corte nos gastos estatais, fazendo o que qualquer chefe de família ou dona-de-casa responsável faz quando o orçamento está apertado, é algo totalmente fora de cogitação para os senhores candidatos.
Um outro candidato gaba-se no horário eleitoral de que, quando era ministro da saúde, criou 300 mil empregos. Será que é por isso que várias epidemias de doenças dadas como controladas aconteceram? Por que o Sr. ex-ministro, agora candidato, ao invés de cuidar da saúde, estava "gerando empregos"?
Fundamentalmente, todos os candidatos defendem o Estado como mola mestra do Brasil. O Estado deve dizer onde as pessoas vão aplicar seu dinheiro, o Estado deve adotar políticas assistencialistas, o Estado deve gerar empregos, o Estado deve orientar e dirigir da forma mais completa possível as vidas de todos, e assim por diante.
Para acentuar o clima "nostálgico" alguns candidatos adotam discursos que parecem ter saído direto dos anos 50 ou 60, sobre supostas "conspirações contra a soberania nacional", como o recente acordo com o FMI. A verdade é que depender de dinheiro do FMI pode não ser uma maravilha, mas não resta alternativa, já que não existem recursos suficientes dentro do país para formação de poupança que permita saldar os compromissos externos e internos, e sustentar o crescimento. A paranóia de certos candidatos é tão grande, que já estão vendo o dedo dos EUA nos rumos da compra de caças para a FAB. Segundo a nova teoria conspiratória (a qual parte da imprensa, para variar, endossou), haveria a tendência de se comprar caças de uma empresa ligada a interesses norte-americanos, tudo por conta do acordo firmado com o FMI. Em outras palavras, o acordo do Fundo com o Brasil só teria sido fechado depois de o governo brasileiro ter se comprometido a comprar os aviões da referida empresa. Francamente, agora só falta aparecer alguém dizendo que a CIA está por trás da alta do dólar no Brasil...
Mas pelo que os candidatos afirmam, quando eles estiverem sentados na cadeira presidencial, as coisas serão maravilhosas. Todos prometem empregos, saúde, educação, melhorias sociais e econômicas. Assim, parece que estamos de volta ao tempo em que fazer política era simplesmente prometer o paraíso na face da Terra. Que eu saiba, nenhum dos srs. candidatos ainda explicou satisfatoriamente como vai fazer isso tudo, a não ser o candidato do ex-"Partidão", que sempre diz a mesma coisa: "desonerando a cadeia produtiva e combatendo a especulação financeira". Entretanto, quando indagado seriamente sobre como vai conseguir isso, ele fica irritado ou não responde. Nos tempos áureos do populismo, se a realidade apontava, como agora, para a impossibilidade de se cumprir sequer uma pequena fração das promessas eleitorais, não havia problema, pois a realidade era um mero detalhe.
Acima de tudo, o que chama mais a atenção em todos os candidatos é a ausência de algum tipo de proposta que garanta a produtividade, a geração de riquezas e o estímulo ao trabalho e a criação de empregos, sem a necessidade de subsídios estatais, reservas de mercado, impostos absurdamente altos, em suma, que valorize a capacidade e a liberdade das pessoas individualmente. Os candidatos também nada falam sobre racionalizar o setor público, cortando não apenas investimentos, mas, sobretudo diminuindo o tamanho da presença estatal, privatizando-se empresas falidas ou incompetentes. Aliás, pelo discurso de um dos candidatos em recente visita à Brasília, os gastos do Estado com funcionalismo deveriam ser aumentados.
E é por essas e outras que o Brasil caminha de volta para os anos 50, quando o Estado era tido e havido como o "bem-feitor nacional" (e principalmente de grupos econômicos privilegiados e do funcionalismo), a verdadeira panacéia que solucionaria todos os problemas brasileiros. E parece que muitos empresários estão realmente contando com isso, pois as possibilidades de obtenção de verbas estatais e subsídios são tentadores demais para serem deixadas de lado.
Não é por outra razão, por exemplo, que o candidato da extrema-esquerda brasileira, pessoa notoriamente despreparada, que para fazer uma simples visita de uma hora ao presidente da República, precisou levar três assessores e um calhamaço de anotações, está navegando em "águas calmas" no processo sucessório.
Apoiando-se numa máquina de propaganda que não se via há muito tempo, e na indisfarçável simpatia da mídia, que de todas as formas possíveis e imagináveis oculta ou minimiza informações que possam prejudicá-lo, como as ligações de seu partido com extremistas totalitários, ou o seu evidente despreparo para o cargo que postula, o referido cidadão assumiu ares de "estadista", "democrata" e "moderado", ludibriando os incautos e indiferentes. Mas o "golpe de mestre" foi a aproximação com velhas raposas da política nacional, senhores do populismo e da demagogia, que lhe facilitaram o acesso ao patrocínio de muitos empresários, que a vida inteira somente tiveram um objetivo: mamar nas tetas do Estado, obtendo vantagens e benefícios de todos os tipos, além, é claro, de barrar eventuais concorrentes. Afinal, o Brasil deve ser um dos países onde menos se admite concorrência. Quanto ao povo brasileiro, que precisa de serviços eficientes e a um bom custo, que se dane, já que as prioridades dos candidatos são: 1 - O Estado; 2 - Os funcionários do Estado; 3 - Em tomar dinheiro do setor produtivo, para sustentar o Estado; 4 - Em fazer demagogia, utilizado o Estado e o dinheiro do setor produtivo, recursos esses eufemisticamente conhecidos como "impostos", mas que deveriam ser chamados de "saque", "derrama", ou coisa que o valha.
Assim sendo, o país pode esperar pelo pior, pois no momento em que o barco voltar a fazer água, pelo histórico dos atuais candidatos, corremos o risco de medidas de "impacto", do tipo moratória da dívida interna ou externa, "política externa soberana" (leia-se, aproximação com China, Cuba, Venezuela, etc.). Portanto, para levar o Brasil em direção ao futuro, esses senhores apresentam propostas que são bem parecidas com as mesmas tentadas há pelo menos meio século, inclusive com a participação de vários dos personagens que estão na atual disputa.
Só resta torcer para que o Brasil e os brasileiros consigam resistir ao período turbulento que se aproxima, e que possamos, como o herói do filme, voltar para o futuro, para o século XXI.
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